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  • ECOS DA CACHOEIRA – CAPÍTULO 11 DO ROMANCE “TRIÂNGULO D’ALMA”, DE TOMÉ NASAPULO KAPIÃLA

    Por Tomé nasapulo Kapiãla

    Breves palavras de Leandro Bertoldo Silva

    Acompanhar Ti Zé, Tchissola e Pedro Sabino em uma viagem que se funde com a própria estrada percorrida é uma experiência absolutamente nova e surpreendente que nos remete à época dos folhetins do século XIX, porém através da modernidade dos dias de hoje. Não bastasse a genialidade do autor em nos proporcionar dessa forma à “conta gotas” uma história repleta de sentimentos à flor da pele, coragem em evidenciar questões e comportamentos sociais que ultrapassam fronteiras e se alojam em todo mundo, Tomé Nassapulo Kapiãla usa de palavras tão bem colocadas em um estilo apuradíssimo de pura literatura poética de modo a nos envolver também sentimentalmente com cada um de seus personagens.

    A cada capítulo acende em nós, leitores, a chama da curiosidade do provável e do improvável, da aproximação e da distância, do sorriso e do choro, da tensão e do alívio.

    Interessante pensar na estrada, com todas as suas nuances, encostas, rios e cachoeiras, como símbolo de um estado de espírito, onde cada um dos personagens existe a partir das suas escolhas. A estrada é a mesma para todos, mas a percepção dela é de cada um, às vezes docemente compartilhada, como Ti Zé e Tchissola, às vezes repudiada como para Pedro, cuja paisagem muda mais bruscamente. Assim, a estrada é a nossa consciência a cada instante, mutável e fluida e o autocarro o corpo que nos conduz à grande viagem de nossas vidas.

    Digo isso porque é possível nos colocarmos no centro deste triângulo onde os personagens estão, sentir o que eles sentem e viver (ler) na esperança do dia (capitulo) seguinte. O que virá? Aguardemos.

    Obrigado, meu kamba (amigo), por proporcionar-me experiência tão nobre e gratificante pela primeira vez experimentada. E obrigado pela confiança ao remeter-me tão rica literatura à medida que ela surge.

    Capítulo 11 – Ecos da cachoeira

    O caminho para o interior do município era sinuoso e encantador. A estrada, coberta de pó dourado, abria-se por entre colinas suaves e palmeiras dispersas, até que o som distante da água a cair se fez ouvir.

    O roteiro da agência Soares e Viagens indicava aquele local como o ponto alto da estadia: um recanto de serenidade, onde a natureza se deixava tocar por mãos antigas — o canto das aves, o perfume das acácias, e o rumor eterno da cachoeira, como um hino secreto do tempo.

    Eram dezassete horas quando chegaram. O sol já descia, e o acampamento ganhava forma ao pé da mata. Pedro Sabino, visivelmente contrariado, montou a sua tenda afastada dos outros, o olhar frio e o coração em silêncio. Não trocou uma palavra com Ti Zé nem com Tchissola durante todo o percurso.

    O ambiente entre os três tornara-se espesso, quase palpável — como se o vento ali também tivesse medo de soprar.

    Depois de organizarem o acampamento, Ti Zé procurou refúgio junto à cachoeira, afastando-se dos murmúrios humanos. Levava consigo a guitarra, fiel companheira dos seus pensamentos.

    Sentou-se sobre uma pedra, os pés mergulhados na água fresca. O som das quedas d’água misturava-se às notas que ele dedilhava, melancólicas, lembrando Luanda, Ana Bela e Joaquim — os filhos que não ouvia havia quase dois dias.

    Na solidão, falava consigo mesmo em silêncio, tentando compreender o turbilhão que o atravessava: o desejo inesperado, o remorso, e a doçura perigosa de se sentir vivo outra vez.

    As águas refletiam o céu em tons de âmbar quando Tchissola se aproximou.

    Vestia um fato de banho azul turquesa, o corpo cintilando sob a luz das últimas horas do dia.

    Chegou devagar, quase em segredo, como quem teme acordar o encanto. E, sem dizer palavra, sentou-se atrás de Ti Zé, acolhendo-o entre as suas pernas.

    Os braços dela enlaçaram-se sobre o tronco dele, e o rosto pousou-se-lhe ao ombro, respirando o mesmo ar.

    Ti Zé estremeceu — o toque dela misturava-se com o som da guitarra, e o coração, antes contido, começou a trair-lhe o compasso.

    — Tchissola… — murmurou, sem coragem de se virar. — O que fazes aqui sozinha?

    — Vim ouvir-te. — respondeu ela, num fio de voz. — O som que tiras da guitarra… parece vir de dentro de mim.

    — Dentro de ti?

    — Sim… cada nota parece chamar o meu nome.

    — E se for o contrário? — perguntou Ti Zé, voltando-se lentamente. — E se o som apenas responde ao que o teu silêncio me grita?

    Ela sorriu, os olhos rasando de brilho.

    — Então que o silêncio fale, — disse, — porque há coisas que as palavras estragam.

    O vento brincou nos cabelos de ambos. A água corria, mansa e infinita.

    Tchissola encostou a fronte ao ombro dele.

    — Sabe, Ti Zé… às vezes sinto que a vida é como esta cachoeira. A água cai sem pedir licença, mistura-se à terra, e segue. Ninguém a impede.

    — E quem tenta impedir?   — Perguntou ele.

    — Afoga-se. — respondeu ela, e a voz saiu como um sussurro embriagado de poesia. — O amor, quando é verdadeiro, não aceita margens.

    Ti Zé pousou a guitarra sobre as pedras e, por um instante, deixou o coração ceder ao tempo.

    O som da cachoeira envolvia-os num manto de música líquida. O perfume das flores, o chilrear das aves e o toque dos corpos compunham um quadro que o mundo não precisava ver.

    — Tenho medo, Tchissola… medo de me perder em ti, — confessou ele, a voz embargada.

    — E se perder for o mesmo que encontrar? — respondeu ela, fitando-o. — Às vezes, é preciso cair para ouvir o som da própria alma.

    As palavras dela eram como versos antigos, ditos pelo vento.

    O entardecer descia sobre eles, pintando a paisagem em tons de ouro e silêncio.

    Ti Zé segurou-lhe a mão, devagar.

    — Não sei o que será de nós depois desta viagem, — disse, — mas sei que o que sinto aqui… é real.

    — Então não temas o depois, — sussurrou Tchissola. — Deixa que o agora seja o nosso abrigo.

    As águas continuavam a cair, eternas, como se a própria natureza abençoasse aquele instante.

    E na imensidão do som e da luz, dois corações, por um breve momento, esqueceram o peso do mundo.

    Por Tomé Nasapulo Kapiãla.
    (O romance está em escrita).

    _______________________

    Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

  • COMUNIDADE ÁRVORE DAS LETRAS: UM LUGAR ONDE AS PALAVRAS SE ENCONTRAM E ILUMINAM CAMINHOS

    Por Leandro Bertoldo Silva

    Você já pensou em participar de uma comunidade literária?

    Estar no meio de pessoas que têm a leitura e a escrita como forma de se acolher e se expressar?

    Que enxerga nos livros não um, mas “o” companheiro de todos os momentos?

    Poder publicar seus escritos, caso você escreva e queira, em um lugar seguro e respeitoso?

    E o melhor: ter acesso a tudo isso de forma fácil bem ao alcance de suas mãos?

    Então, alegre-se! Hoje quero te apresentar a Comunidade Árvore das Letras. Aqui você irá saber sobre o que ela é, como participar e o que, de fato, acontece dentro dela. Vamos lá?

    Espero que goste e será um prazer ter você com a gente!

    O QUE É A COMUNIDADE?

    A comunidade Árvore das Letras é um espaço de convívio literário que funciona pelo WhatsApp criada para amantes da leitura e escrita, com o objetivo de divulgar textos de autores e autoras independentes, debater obras de diferentes gêneros, compartilhar reflexões por meio da Biblioterapia e promover a produção de textos autorais. Tudo em busca de ter a literatura como instrumento de crescimento humano pessoal e social em uma jornada de inspiração e criação.

    COMO ENTRAR NA COMUNIDADE?

    1. Clique no link da comunidade do WhatsApp no final dessa publicação.

    2. Ao entrar na Comunidade, você terá acesso essencialmente a 3 conteúdos semanais: a “Quarta Literária”, “Escrita Afetiva” e a “Biblioterapia em foco”, conforme descritos abaixo.

    3. Além dos conteúdos, você verá dois grupos, sendo um deles aberto e outro para membros, também conforme descrição a seguir. O importante ao participar do grupo aberto é que seja ativo e siga as recomendações descritas de forma educada e harmoniosa.

    4. Pronto! Seja bem-vindo(a) à comunidade Árvore das Letras.

    O QUE ACONTECE DENTRO DA COMUNIDADE?

    Quarta Literária

    Ação destinada à publicação e divulgação de autores independentes. Toda quarta-feira é publicado aqui no blog da Árvore das Letras e divulgado na Comunidade texto em artigo, crônica, conto ou poesia de autores independentes e integrantes da comunidade, caso queiram, que atuam como colaboradores. Os textos são publicados um por vez conforme agendamento mensal.

    Biblioterapia em foco

    Com o objetivo de promover bem-estar emocional e crescimento pessoal por meio da literatura, quinzenalmente, às sextas-feiras, é apresentado um breve tema para reflexão seguido de indicação de livros, histórias, áudios ou vídeos que possam ilustrar e inspirar ações positivas.

    Escrita afetiva

    O simples ato de colocar uma palavra no papel pode ajudar a expressar sentimentos, liberando emoções que às vezes não se pode expressar por outros meios. Afinal, a escrita pode ser um recurso afetivo de autoconhecimento, de comunicação e de transformação pessoal.

    Toda quinta-feira é apresentada uma sugestão para você exercitar sua escrita reflexiva, libertar-se e até mesmo desabafar. O objetivo é para você, caso queira, escrever espontaneamente e materializar seus pensamentos em palavras, que podem ser compartilhadas no grupo “Conversa ao pé da Árvore”, ou não, expressando suas emoções, deixando de lado o pensamento racional por meio desse recurso lúdico, prático e criativo que é a escrita espontânea. Tudo que você irá precisar é papel, caneta ou lápis e a vontade de se sentir mais realizado(a).

    OS GRUPOS DA COMUNIDADE:

    Conversa ao pé da Árvore (aberto a todos)

    Grupo destinado à interação e trocas de mensagens entre os participantes da comunidade. É extremamente importante que tudo gire em torno do universo literário apenas: livros, textos, festivais, lançamentos, entrevistas, oficinas, entre outros, tudo com respeito e moderação.

    Novos autores (aberto somente para membros)

    Encontros quinzenais pelo Google Meet, com o objetivo de aprimorar a percepção literária e aplicar técnicas criativas e afetivas na produção de narrativas e poesias partindo da escrita à mão. A culminância desses encontros é uma publicação em antologia anualmente no mês de julho.

    Os encontros acontecem às quartas-feiras, de 19h às 20h., sendo turmas de 7 pessoas a cada 15 dias, totalizando 14 pessoas. A adesão de novos membros neste grupo somente acontecerá quando da abertura de vagas com datas devidamente divulgadas.

    Para entrar na Comunidade Árvore das Letras e ter acesso a tudo isso é muito fácil! É só entrar no link abaixo e seguir os passos descritos. Seja bem-vindo, seja bem-vinda!

    https://chat.whatsapp.com/JnbY0pYouPDAL87avZ2eis

    Se você se identificou e conhece alguém que, como você, também sempre quis encontrar um lugar assim, envie essa postagem para ele ou ela. Que possamos fazer crescer este lugar com gente de bem e escrever uma linda história com a literatura. Acredite, há um mundo inteiro a ser desvendado…

    Forte abraço e até a próxima!

  • AS SETE CHAVES PARA O ACASO

    Por Ricardo Albino

    Certa vez, descobri que eu e a Carol temos mais coisas em comum que o amor pela lua. Uma delas é o  mesmo número da sorte: o sete.

    Ela, assim como eu, deve ter crescido jogando o jogo dos sete erros e, não por acaso, encontrado todos eles escutando que “amigo é coisa para se guardar debaixo de sete Chaves, dentro do coração”.

    Acho que deve ter ouvido muitas vezes a história da Branca de Neve e os Sete Anões e assistido a série A casa das sete Mulheres.

    Por acaso, você aprendeu a jogar 21 cantando sete mais sete são 14 com mais sete 21? Será que Carolina aprendeu a gostar de gatos porque eles têm sete vidas? Por acaso, alguém falou pra ela que ser distraída ou um pouco esquecida era um dos sete pecados capitais?

    Fica tranquila, amiga! Não é!

    Ser distraído é uma dádiva criada por Deus para a gente prestar atenção nas sete maravilhas do mundo, mas do nosso pequeno maravilhoso grande mundo do Achados e perdidos, que deveria ser ao contrário né? Pois primeiro a gente perde para depois achar.

    E por falar em encontrar, por acaso você já achou as sete chaves de casa? Pode procurar com calma! Deus está no comando e o acaso vai te proteger.  Afinal, você tem as sete Chaves para o acaso e no fim da história, o tal do “por acaso” é simplesmente o encontro do inesperado sem querer com o nosso por querer que mora atrás da porta dos bons encontros que a vida tem.

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    Sou Ricardo Flávio Mendlovitz Albino. No mundo da contação de história todos me conhecem por Ricardo Albino. Tenho 47 anos, nascido e criado em Belo Horizonte, jornalista formado em 2006, pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI BH, contador de histórias formado pelo Instituto Cultural Aletria, em 2015, criador da página Ricontar Histórias, em 2017, e do canal de mesmo nome no You Tube, em 2021. Cadeirante, idealizei no canal o podcast Ricontar para unir histórias, meu amor pelo rádio, acessibilidade e inclusão.

  • ELOGIO AO DIA DOS MORTOS

    Por Angelo Campos

    Cumprindo a inexorável jornada, cada dia deve ser brindado em sua inigualável e irrepetível fluidez, sendo o tempo o mestre implacável. Entre curvas e surpresas desses trilhos iluminados, um ano se cumpre em sintonia ao descortinar de horizontes outros. 

    Nessa jornada, ficaram pra trás: uma parte do esôfago, a vesícula, o apêndice, uma sutura no diafragma, um osso trincado, um dente, uma úlcera e uma hérnia. Em uma dessas ocasiões, quase fui … (ok, vocês acertaram, foi o dente). 

    A vesícula o médico me deu de presente. Guardei na geladeira durante um tempo, mostrava aos amigos e visitantes, para que me conhecessem por inteiro. Um dia minha filha disse pra parar com isso, soava meio sinistro. Retruquei, afinal poucos têm a oportunidade de se apresentar estando assim, em pedaços, fora de si. Outro dia, porém, alguém carregou a geladeira pra longe e essa parte de mim foi junto. Guardei o luto, sem saber do enterro. De outra sorte, posso ter sido descartado por desconhecimento, inutilidade, ou mesmo cozinhado como iguaria, vai saber… a bem da verdade, nunca me senti frito. 

    O apêndice, ao contrário, dei de presente para a médica que o retirou, era algo estranho e incomum, mesmo para um apêndice. Está aí, em algum laboratório, talvez um dia me encontrem. Se acontecer, sintam-se cumprimentados, “prazer, sou Angelo”.  

    Nasci nesse sagrado dia 02 de novembro. Foi há muito tempo, nem percebi, afinal, estive inconsciente naquele momento, era quase um natimorto, no sétimo mês de gestação e o cordão umbilical enrolado no pescoço. Nada demais, acontece com frequência, sabe, mas confere uma aura de estranheza, por ser dia dos finados e já estar, como dizer, chegando pronto pra partir. 

    Naquele tempo (como disse, foi há muito tempo), as pessoas visitavam com mais frequência seus entes queridos. Lembro-me da movimentação nos dias precedentes, do cuidado com as palavras, do silêncio respeitoso, da limpeza das ruas, da renovação da sinalização, pra que ninguém errasse o caminho de casa, digo, do cemitério. Limpava-se os túmulos e depositava-se flores, o ar ficava carregado de perfume. Uma floricultura era montada perto de casa e a maior parte dessas décadas todas (foram muitas, eu disse?) morei próximo a um cemitério, cujo nome era Da Saudade. Bastava dar um passo para, literalmente, enfiar o pé na cova. Era mais fácil passar o aniversário lá, não havia bolo, porém velas sim, inúmeras. Em criança, tive o prazer de conviver com muitos, estando vivos ou mortos. Atualmente está mais difícil diferenciar uns dos outros, mas a presença dos últimos me é agradável, sou bastante seletivo.

    Quando viajo por aí, a trabalho ou a passeio, os amigos fazem questão de indicar os melhores cemitérios. Não que conheçam de fato, claro, procuram dicas na internet, é um carinho de outro mundo que têm por mim. Desse modo, cultivo o prazer de frequentar a ilustre morada de pessoas as mais admiráveis, gente fina, aliás finíssima (não citarei aqui, pois a lista é longa, e daqui a pouco irei visitá-los). A conversa, a rigor, ressoa epitáfios.

    Senti de compartilhar com vocês esse alento que me anima. Visitem os mortos, passem um tempo com eles, conversem de igual pra igual, um dia passaremos todos pra lá e não será nada legal chegar como um estranho, dando uma de desentendido. Pra mim é super de boas, estou indo por partes, as afinidades aumentaram, tive a sorte de viver o limiar. Mas vocês não! Vocês irão por inteiro, então é bom cuidar e evitar surpresas na última hora. 

    A senha é a seguinte: procure primeiro o morto que você é, encontre seu próprio túmulo. Limpe-o, ofereça flores, dignifique o trato com as palavras, respire ares perfumados, deixe a luz entrar, pois é o “dia” e não a “noite” dos mortos. Junte seus pedaços, contemple aquele sorriso, beba e coma o que te faz bem, cante sua melhor canção, celebre-se. Bem entendido, a tampa do seu caixão está aberta e tem gente querendo te ver bem, não é hora pra ficar dormindo. Faça isso corriqueiras vezes. Um dia, por derradeiro, você estará pronto e seu túmulo, finalmente, vazio. 

    Meus amigos queridos, de aquém e além, muito obrigado pela companhia. Sintam-se abraçados para sempre. 

    P.S.: tudo que se diz aí é verdade, exceto aquela coisa do dente. 

    _______________________

    Angelo Campos é jardineiro. Nas horas vagas dedica-se a coisas de menor relevância tais como Filosofia, Psicanálise e Transdisciplinaridade.

  • ENTRE A CERTEZA E O ACASO

    Por Leandro Bertoldo Silva

    Outubro já se despediu e nesse mês vivenciei algo maravilhoso. Estive em um festival literário na cidade de Caravelas/BA, conhecida como o lugar de um dos mais lindos pores do sol já vistos.

    De fato, o momento aguardado ansiosamente por muita gente, inclusive por mim, foi algo que só a poesia pôde explicar. Ao me deparar com essa imagem, confesso que o tempo parou e foi como se o silêncio tomasse conta de mim. Não sei por quanto tempo fiquei ali parado, observando em profunda gratidão e conexão com essa natureza tão exuberante, mas tive uma certeza logo registrada em haicai:

    É no silêncio
    que ouvimos as vozes
    da poesia.

    Hoje, quando um novo sol surge neste primeiro dia de novembro, contento-me não mais com a certeza ao dizer:

    Quando o sol se põe
    deixa em nossa alma
    marcas do que foi.

    mas com a dúvida docemente acolhida dos seguintes versos:

    O nascer do sol…
    Que dia será esse?
    Apostas incertas.

    Joguem suas fichas.

  • PARTIDA E SAUDADE

    Por António Alexandre

    No espaço onde o vento nos chama,
    Ficará na memória a linda sala e o eco suave do teu riso,
    E eu, perdido entre a saudade e o drama,
    Guardarei teu perfume, ainda preciso.

    Partes longe, na rota dos teus saberes,
    E levas contigo a luz do nosso lugar,
    Fico só com o vento e os meus quereres,
    Sem saber se ainda vais recordar.

    O canto das tardes se cala no espaço
    Onde nossas mãos falavam em segredo,
    Agora só resta a sombra do teu passo.

    E temo que o tempo, com seu duro enredo,
    Apague o lugar do nosso abraço,
    Como quem esquece um sonho por medo.

    _______________________

    António José Alexandre nasceu em Luanda, Angola. Graduado em Línguas, literatura e Administração pela UCAN, Mestre em linguística Aplicada pela UMA-Asunción, Doutor em Educação, na especialidade de linguistica pela faculdade Interamerica do Brasil. Membro da revista científica Minerva (Magazine of Science) www.minerva.edu.py, Professor da Fics (faculdade interamericana de Ciências sociais). Professor de língua Portuguesa, Inglês, Literatura, Psicologia da linguagem, sintaxe do português e técnicas de tradução. Autor de várias obras e artigos, escritor e poeta. Membro correspondente da academia de letras Teofilo Otoni de Minas Gerais, colunista do jornal Rol, Membro da revista multidisciplinar Núcleo do conhecimento, Editor, Mentor da Revista multidisciplinar Nelson Mandela. Atualmente Presidente do Instituto Superior de Angola (ISA).

  • DO ATELIÊ AOS LEITORES: QUANDO O PAPEL ENCONTRA SEU DESTINO

    Por Leandro Bertoldo Silva

    Quando criei a Alforria Literária como selo de publicação da Árvore das Letras em 2017 foi porque acreditava na possibilidade da existência de novos caminhos. Passaram-se 8 anos e os acontecimentos me mostraram que eu estava certo. Desde “Entrelinhas Contos mínimos”, meu primeiro livro publicado pelo selo, ao último até então “Para sempre, amanhã”, foram 6 obras, dois festivais literários, 3 anos de exposição em livrarias e espaços culturais, feiras de arte e muitos livros vendidos e enviados para várias cidades e estados do Brasil e até para Angola, sem contar outros autores publicados e antologias produzidas anualmente na Árvore das Letras.

    Não sou muito adepto à palavra “resistência”, mas me rendo a ela nesse momento, porque ser um escritor independente no nosso país é tarefa onde é preciso resistir a pressões: pressão em acreditar que só é possível ser lido devidamente por meio de editoras tradicionais; pressão em achar que é o mercado quem determina o que vai ser escrito, porque se assim não for você não será visto; pressão em pensar que na vida tudo é um jogo.

    Bem, eu nunca quis jogar com ninguém, não vejo a literatura como uma forma de disputa, mas como um espaço de acolhimento onde há lugar para todo mundo. Vale lembrar que se um caminho não existe, podemos construí-lo.

    Foi assim a minha escolha em escrever e publicar da forma que eu acreditei ser possível: de maneira artesanal, livro a livro, capa a capa, costura a costura, através de técnicas de encadernação e papelaria fina, aprendidas, criadas, aperfeiçoadas.

    Para quem pensou não ser possível transitar por caminhos assim, lembre-se de que “o mundo não se fez para pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos), mas para olharmos para ele e estarmos de acordo”. Pois eu sempre estive de acordo com essas palavras de Fernando Pessoa.

    Estar de acordo com o que acreditamos é vibrar na sequência certa, não o certo dos outros, mas o certo para nós mesmos. Isso faz tudo acontecer de uma maneira muito além do imaginado. Tive uma prova disso ao entrar em uma livraria e me deparar com os meus livros não apenas expostos à venda, mas carinhosa e cuidadosamente em destaque em um local reservado a eles.

    Por tudo isso, faço aqui um convite: deixe-se envolver por histórias unidas à mão pela costura de um livro artesanal. Se você ainda não teve essa experiência, dê-se uma oportunidade e conheça de perto a literatura independente. Pegue, folheie, sinta o toque de um livro artesanal, a sua textura, sabendo que ali, além do valor literário de uma crônica, romance ou poesia, está a arte do artesão, do diferente, do personalizado, do tempo sem pressa… Você merece esse cuidado. É como eu sempre digo: escrever é costurar ideias com as mãos. Permita-se.

    Os livros podem ser encontrados na Árvore das Letras e exclusivamente na Livraria e Cafeteria Papo Café, em Teófilo Otoni, lugar de encontros, conversas, histórias de vida e, claro, muita leitura e arte. Tudo isso bem no coração da cidade.

    Não é por acaso que mantenho para mim o pensamento de Mia Couto: “O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”.

    Um forte abraço e até a próxima.

  • QUANDO O AMOR SE FAZ LIVRO

    Por Nasapulo Kapiãla

    O amor de Leandro Bertoldo Silva pela literatura e pela arte de costurar livros revela uma relação profunda e quase sagrada com o ato de criar. Sua paixão pelos cadernos e livros artesanais vai além de um simples ofício manual — é uma forma de resistência poética diante da pressa do mundo digital.

    Ao unir palavra e matéria, Leandro transforma o papel, o fio e a capa em símbolos de memória e sensibilidade. Cada ponto da costura parece carregar o ritmo de um verso; cada dobra, o cuidado de quem entende que o livro é um corpo vivo, um espaço onde a alma do autor e do leitor se encontram.

      Seu trabalho mostra que a literatura não está apenas nas palavras escritas, mas também no gesto de fazê-las existir fisicamente, de dar forma à imaginação com as próprias mãos. Nesse sentido, o amor de Leandro Bertoldo Silva é uma celebração do artesanato da leitura e da escrita, um tributo à beleza do tempo dedicado, ao silêncio criativo e à poesia escondida no ato de costurar sonhos em papel.

      Aquele abraço, meu kamba!

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    Emílio Tomé Cinco Reis de pseudónimo literário Tomé Nasapulo Kapiãla, angolano, natural da província do Huambo, planalto central, licenciado em Geologia faculdade de ciências naturais, universidade pública, Agostinho Neto. É professor do ensino secundário do 2° ciclo do Liceu Público N° 4019 ex-IMNE de Cacuaco “24 de Junho”, lecciona a disciplina de Física e dirigente comunitário da comunidade dos Imbondeiros Cacuaco, província de Luanda.

  • BOTARAM A ANILHA

    Por Kafala Tibah

    1972, período colonial, início do fim do período colonial. O colonialismo português caiu em 1975, em Angola, onde o povo Angolano conquistou a independência nacional. Naquela altura muitos angolanos atravessaram as fronteiras dos Congos, unindo-se aos irmãos que já lá estavam na preparação militar para enfrentar os colonos para a conquista da independência. Nos bairros de Luanda, já se ouvia falar de muitos irmãos que desertaram do exército colonial, seguindo a trajectória traçada pelos outros em direcção aos Congos.

    Nos musseques de Luanda, muitas crianças brincavam ao som das músicas infantis coloniais e desfrutavam diversos “kitutes” da banda comprado nos mercados daqueles bairros ou defronte as escolas, vendidos por mamãs vestidas a bessa ngana.

    Saídos da escola nº 229, ali no bairro Terra Nova, que agora é chamada de Escola grande, Molépe, Man Tex, Megas e David, combinaram para defrontarem um jogo de matraquilho, alí na esplanada do Bar Rei Pelé.

    Saíndo da Rua nº 23 da Comissão do Rangel, também chamado por Reordenamento do Rangel, entraram no referido bar, onde encontraram alguns adultos saboreando uma cerveja nacional. Enquanto isso, bem ao lado, se ouvia o som de música angolana, do ensaio do conjunto musical Dimba Dyá Ngola.

    Molépe, dos valores que retirou furtivamente do vaso metálico onde Maria Luísa, sua mãe depositava os valores da venda do carvão comercializado em casa, foi até ao balcão do bar para trocar a moeda de dois e quinhentos (2$50), por duas moedas de 1 Escudo e uma de cinquenta centavos, pois no matraquilho somente se podia introduzir moedas de 1 Escudo.

    Ao introduzir-se a moeda, esta ficou presa lá no interior do orifício de entrada, pelo que a massaneta do matraquilho não accionava para as bolas saírem e iniciar-se os dois jogos anunciados.

    Molépe dirigiu-se ao balcão para efectuar a reclamação e foi atendido pelo empregado português transmontano que inspeccionou o matraquilhos e constatou que a massaneta encravou e disse:

    – Já botaram anilha “porra pá, esses pretos”. Ó Luciano fecha a porta, ninguém sai!

    Todos amigos de Molépe meteram-se em fuga mas Molépe não aceitou retirar-se pois queria o seu dinheiro de volta.

    O “busugo” retirou-se da esplanada e regressou com um cabo de pvc enrolado que possuía mais ou menos 70 cm dizendo: – Tu “bás” dizer quem botou a anilha, ah! Sim tu “bás” dizer. Luciano traga um balde de “yagua” e molha esse “sacana”.

    Molépe do outro lado resmungava, reclamando o 1 escudo. Luciano surgiu de surdina lançando água gelada por o dorso do “negrinho” refilão que reclamava o seu dinheiro.

    O quê isso! Gritou Molépe ao sentir o frio daquela água que acabava de sair da câmara frigorífica. Luciano sorriu e de repente o “busugo” começou a chicotear Molépe que ficou com 5cinco traços bem marcados pelo cabo pvc.

    Molépe chorando, gritava que queria o seu dinheiro e nada teve a ver com a tal de anilha que ele desconhecia.

    Um dos empregados abriu o portão corrido para que Molépe saísse, enquanro seus amigos fora do bar o aguardavam tristemente.

    Molépe saiu do bar com uma moeda de 1 Escudo e outra de cinquenta centavos no bolso tendo perdido a outra moeda de 1 escudo.

    Correu pela rua 19, buscou pedras e arremeçou-as para dentro do bar, como se estivesse a lançar uma arma de arremeço e correu até a rua 23 tendo já encontrado os seus amigos. Naquele momento, alguns clientes, assim como o “biaku” correram para o interior do bar. Molépe receava dirigir-se ao mercado do Coelho para informar sobre o sucedido á sua mãe quitandeira.

    Mesmo assim, Maria Luísa tomou conhecimento no dia seguinte quando a senhora Leopoldina, esposa do velho Lulú se deslocou ao mercado para fazer algumas compras para as refeições do dia. Tia Leopoldina tomou conhecimento que seu sobrinho Molépe levou uns açoites e tivera o corpo marcado através de seu neto Bernardo, amigo muito próximo de Molépe.

    Maria Luísa enfureceu-se, amarrou um pano que a cobriu da cintura até abaixo do joelho. Hum! Filho da… do “biaku”! Bateu no meu filho, meu sétimo filho, criança pedida depois de cinco meninas! Filho da… esse “zakela” vai sentir o peso!- dizia Maria Luísa enfurecida. Mana Leopoldina, faz favor, diz a Melita para vir controlar o negócio, vou no Bar Rei Pelé vou já estragar tudo. “Sá” Visita, por favor controla a minha filha, por favor.

    Deste modo, dona Leopoldina despediu-se de Maria Luísa, dirigindo-se para casa, pois vivia na mesma rua da Comissão do Rangel. Eram vizinhas e primas por afinidade. 

    Maria Luisa era irmã de Manuel Lixa e filha da Avô Tibá que vivia na área do bairro Sambizanga denominado Santo Rosa, nome de um “pula” lisboeta, comerciante naquele bairro. A semelhança de Manuel Lixa, Maria Luísa também lutava muito, pois já havia dado umas “kabelenhas” no Kibila Tata, bandido do Marçal, onde vivera no período colonial.

    Maria Luísa, mulher de grande estatura, com bastante força, era bastante ágil em dar cabeçadas em uma briga, sendo capaz de derrubar homens em uma luta. A mesma antes de se deslocar ao Bar, passou por sua casa, na rua nº 23, pois este bar era paralelo à rua nº 21. Já em sua casa, preparou se, vestindo um calção de tecido do tipo “ganga” e assim dirigiu-se para o referido bar. Já passava das 16 horas; horário de encontro de trabalhadores que ali se destacavam para saborear uma boa cerveja ou tomar um bom vinho palheto à mistura com um “sarrabulho”.

    Bem ao lado, e por detrás do Bar, estava a residência onde ensaiava o conjunto “Dimba Dya Ngola”, que no momento cantavam o semba “Katolotolo”, fazendo dançar algumas crianças que apreciavam as outras a entreterem-se com o jogo da buraca, enquanto pessoas adultas passavam e davam toques dançantes à moda angolana.

    – Hum! “Katolotolo”? Esse “polaco” vai me sentir, ele vai ver, vai se sentir como se tivesse “Katolotolo”! Está a brincar com quem? – dizia Maria Luisa. Ó seu “biaku” de mer… Você bateu o meu filho, porquê? Você já alguma vez “cagaste” um filho, já alguma vez sentiste a dor de “nascer”? Filho de uma vaca que não dá leite! Me explica, estou aqui para ouvir porque eu já ouvi o meu filho!- perguntou enfurecida Maria Luísa.

    O “polaco” tremia e da explanada viu um polícia de raça negra de grande estatura, passando, chamou-o para acudir a situação, uma vez que o trásmontano sabia o que lhe esperava. O polícia, tratava-se do “kota” Segunda João Cosme, o agente nº 50 da PSP- Polícia de Segurança Pública, “malangino” de gema que por sinal vivia na rua onde vivia Molépe.

    O polícia entrou no bar e perguntou o que se passava e Maria Luísa respondeu imediatamente, falando sem pausa.

    – Mu beta mwene, mana Luísa! – dizia o polícia, chateado no seu íntimo.

    GLOSSÁRIO:

    “bás”- pronúncia errada do cidadão português, querendo dizer “vais” do verbo haver. “Biaku, Busugo, Pula, Polaco, Zakela”- Nomes depreciativo para designar o homem branco português. (de notar que existiam essas palavras todas para que o português não se apercebesse que se falava deles e era muito utilizado na luta de clandestinidade contra o colonialismo português). “Kabelenhas”- s.f. cabeçadas, português angolano. “Katolotolo”– enfermidade provocada pelo mosquito da chicungunha “Kitutes”: s.m (Brasil) paparico; iguaria delicada. “Sarrabulho”- s.m. Prato típico angolano que consiste no guisado de miudesas de porco. Cozinha com o sangue do mesmo animal. “Mu beta mwene”, mana Luísa – (traduzido da língua nacional kimbundu- Bate-lhe mesmo, mana Luísa).

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    Moisés Kafala Neto.
    Pseudônimo literário: Kafala Tibah. É casado.
    Nascido em Angola, no dia 05/12/62.
    Profissão: professor – ⁠Professor de Análise Matemática e Álgebra e é também Criminalista.
    Membro fundador da BJLA- Brigada Jovem de Literatura de Angola, possui poemas publicados em antologias tanto angolanas como brasileiras.

    • Músico Gospel, usando como nome artístico- Kafala Neto.
    • ⁠Actualmente é Vice-presidente para a área científica do Instituto Superior de Angola- ISA.
  • ENTRE O ONTEM E O HOJE: UMA AMIZADE ATRAVESSADA PELO TEMPO

    Por Leandro Bertoldo Silva

    Bem ao estilo de “Meia Noite em Paris”, fiz uma viagem ao Rio de Janeiro do século XIX, onde encontrei o autor de umas certas Memórias Póstumas.

    A atração fraternal foi imediata como podem perceber. Se bem que da minha parte esse sentimento já existia, mas vindo dele foi, sem dúvida, o maior presente já recebido.

     Senti-me lisonjeado, não menos surpreendido com o pedido que me fez. Talvez mais amedrontado que surpreendido, mas vá lá! Como negar? Não neguei. Qual é esse pedido ainda não posso dizer, mas prometo revelar assim que receber dele a devida autorização. Ora, calma! Não seja impaciente, não vai demorar.

    Até lá, relembremos um pouco da vida e trajetória deste meu amigo, para mim o maior escritor de todos os tempos, século após século, do Brasil e do mundo: Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS.

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    Imagine um garoto mulato, pobre, gago e epilético, filho de pai pintor e mãe lavadeira num Brasil colônia da segunda metade do século XIX…

    Uma pessoa assim teria todas as prerrogativas de não se dar bem na vida, certo?

    Nem tanto!

    As tendências às vezes são só tendências e caem frente às grandes almas…

    Estamos falando de Joaquim Maria Machado de Assis, para muitos (inclusive para mim) o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos mais notáveis escritores do mundo, que revolucionou as nossas letras e a nossa maneira de enxergar a vida.

    Contrariando a normalidade, Machado de Assis teve uma existência relativamente estável e conheceu, em vida, o prestígio e a fama que lhe cabiam. Foi um dos fundadores, em 1897, da Academia Brasileira de Letras – ABL e eleito seu presidente vitalício. Ao morrer, em 1908, recebeu honras fúnebres de chefe de Estado.

    Nada poderia contrastar mais vivamente com seu nascimento, em 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e com sua infância de menino órfão e pobre (sua mãe morreu quando ele tinha 10 anos de idade e seu pai casou-se novamente, vindo morrer pouco tempo depois), sendo criado pela madrasta (felizmente boa, para diferenciar das histórias e contos de fadas…).

    Entre nascimento e morte, Machado percorreu um duro caminho de quem se faz pelas próprias mãos – mulato pobre de subúrbio, ele se transformaria num dos mais respeitados intelectuais da corte.

    Pelo que indicam os registros, Machado de Assis não frequentou a escola, embora tivesse aprendido a ler antes dos 10 anos. Ainda criança, vendeu doces na rua para ajudar a sustentar a casa. Caixeiro de uma livraria, tipógrafo e revisor foram algumas profissões que exerceu antes de se tornar jornalista e escritor.

    A estabilidade econômica, porém, veio de outras fontes. Como uma boa parcela da intelectualidade brasileira da época, Machado ingressou no funcionalismo público. Chegou a fazer carreira, foi oficial-de-gabinete de ministro e diretor de órgão público. Em 1889, ano da Proclamação da República, dirigia a Diretoria do Comércio. Nessa época já era um escritor consagrado.

    Costuma-se dividir a obra de Machado de Assis em duas fases bem distintas: a primeira apresenta o autor ainda preso a alguns princípios da escola romântica, sendo por isso chamado de fase romântica ou de amadurecimento; a segunda apresenta o autor completamente definido dentro das ideias realistas, sendo, portanto, chamada de fase realista ou de maturidade.

    Em 1904, a vida de Machado de Assis é abalada pela morte da esposa – Carolina Augusta Xavier de Novaes – uma base sólida para a sua carreira de escritor e sua companheira por 35 anos, e de quem ele nutria um amor incondicional.

    Cultuado em seu tempo (e até hoje) como escritor “clássico”, representante máximo de nossa “boa literatura”, Machado de Assis soube, como nenhum outro escritor brasileiro, revelar os meandros da alma humana e combater, pela ironia sutil, as mazelas de nossa sociedade, ainda colonial, escravocrata e autoritária.

    Parece interessante?

    Então veja abaixo um panorama geral para conhecer toda a brilhante trajetória de Machado de Assis – o bruxo do Cosme Velho –, algumas de suas ideias e um cronograma básico com as suas principais obras para quem quer se deliciar nessa leitura, que é um verdadeiro mergulho nas profundezas da alma pelo viés da literatura.

    MACHADO DE ASSIS – O BRUXO DO COSME VELHO

    1839 – Joaquim Maria Machado de Assis nasce no morro do Livramento, Rio de Janeiro, em 21 de junho, filho do pintor e dourador Francisco José de Assis (neto de escravos) e de Maria Leopoldina da Câmara (portuguesa nascida na Ilha de São Miguel, nos Açores) – que viviam na condição de agregados na chácara de Maria José de Mendonça Barroso Pereira.

    1854 – Cinco anos após a morte de sua mãe, seu pai se casa com a mulata Maria Inês e a família se muda para São Cristóvão. Publica seu primeiro poema, “Soneto”, no Periódico dos Pobres.

    1885 – Trabalha na livraria  e tipografia de Paula Brito, que edita o jornal de variedades “A Marmota Fluminense”, no qual Machado publica os poemas “Ela” e “A palmeira”. Participa das tertúlias da Sociedade Petalógica (nome derivado de “peta”, “menina”), grupo de intelectuais frequentado esporadicamente por José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo e Francisco Otaviano.

    Primeiro fase – romântica

    1860 – A convite de Quintino Bocaiúva, trabalha como repórter do Diário do Rio de Janeiro, órgão do Partido Liberal.

    1864 – Publica “Crisálidas”, seu primeiro livro de poesias, pela editora Garnier.

    1867 – É nomeado ajudante do diretor de publicações do Diário Oficial.

    1869 – Casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novaes. Publica “Contos Fluminenses” e “Falenas” (poesias).

    1872 – Estreia de Machado no romance com “Ressurreição”.

    1873 – É nomeado primeiro oficial da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

    1874 – Lança em livro seu segundo romance, “A mão e a luva”, que havia saído em folhetim no jornal O Globo.

    1976 – Publica “Helena”.

    1878 – O Cruzeiro publica, em folhetim, o romance “Iaiá Garcia”.

    Segunda fase – madura

    1881 – Publicação em livro de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (que havia sido publicado em capítulos na Revista Brasileira).

    1884 – Muda-se para a rua Cosme Velho, nº 18. Publica o volume de contos “Histórias sem data”.

    1886 – Começa a publicar, em folhetim, o romance “Quincas Borba” (que será impresso em livro em 1891).

    1888 – Recebe da Princesa Isabel a Ordem da Rosa.

    1889 – É nomeado diretor da Diretoria Geral do Comércio.

    1893 – Com a reforma ministerial, que transforma a Secretaria da Agricultura em Secretaria da Indústria, Viação e Obras Públicas, Machado é nomeado diretor-geral da Viação.

    1897 – Participa da fundação e é eleito presidente da Academia Brasileira de Letras.

    1898 – É colocado em disponibilidade na Viação.

    1899 – Lança “Dom Casmurro”.

    1902 – Volta a trabalhar na Viação, agora como diretor-geral da Contabilidade.

    1904 – Publicação do romance “Esaú e Jacó”. Carolina morre no dia 20 de outubro.

    1908 – Morre no dia 29 de setembro, dois meses depois do lançamento do seu último romance, “Memorial de Aires”.

    SUAS IDEIAS

    “Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é saber amar”.

    “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e o amor com casamento”.

    “O dinheiro não traz felicidade – para quem não sabe o que fazer com ele”.

    “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”.

    “Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens que de um terceiro andar”.

    “Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno”.

    “Botas… as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar”.

    “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução”.

    “Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas”.

    “Que multidão de dependências na vida, leitor. Umas coisas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si”.

    CRONOGRAMA BÁSICO COM AS SUAS PRINCIPAIS OBRAS

    Romances

    Ressureição (1872)

    A Mão e a Luva (1874)

    Helena (1876)

    Iaiá Garcia (1878)

    Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

    Casa Velha (1885)

    Quincas Borba (1891)

    Dom Casmurro (1899)

    Esaú e Jacó (1904)

    Memorial de Aires (1908)

    Contos

    Contos Fluminenses (1870)

    Histórias da meia-noite (1873)

    Papéis avulsos (1882)

    Histórias sem data (1884)

    Várias histórias (1896)

    Páginas recolhidas (1899)

    Relíquias de Casa Velha (1906)

    Contos avulsos.

    *Referências:

    Literatura brasileira: das origens aos nossos dias – José de Nicola.

    Ler é aprender – Machado de Assis/Estadão.

    Revista CULT – As magias literárias de Machado de Assis – julho/1999.

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    A propósito, que tal mencionar logo abaixo nos comentários qual obra de Machado mais lhe marcou? Se ainda não leu, é um bom momento para começar!  

    Lembre-se!

    COMPARTILHAR É SE IMPORTAR!

    Forte abraço!
    Leandro Bertoldo Silva.