BOOKSCREEN JANELAS DA ALMA

 

título

Dedico esta obra a todos aqueles

que possuem a coragem de serem autênticos

consigo mesmos para abrirem as cortinas

de suas janelas.

“Meu encanto terminado, reduzi-me ao próprio estado, que é bem precário, em verdade. […] Restou-me o temor escuro; por isso, o auxílio procuro de vossa prece que assalta até mesmo a Graça mais alta, apagando facilmente as faltas de toda gente. Como quereis ser perdoados de todos vossos pecados, permiti que sem violência me solte vossa indulgência.”

– William Shakespeare – A Tempestade –

Palavras do autor

Janelas da Alma é um livro em que se busca conviver com a autenticidade humana e traduzir o estado de espírito de Jorge, o personagem dessa história.

E qual é esse estado? O que se espera de Jorge? Talvez mostrar um constante retorno dele mesmo para ir além e viver de um modo intenso e transparente consigo para descobrir a verdade; mas que essa seja a própria e não a alheia, pois é assim que se exercita a autenticidade buscada: o direito à escolha. Não se trata de transgredir a ordem, mas mostrar que o homem chora e ri, ama e odeia e vai sempre viver esses sentimentos independentemente do que a ciência, a filosofia, a religião, os meios sociais, a política mostrarem, e que é o estado em que nos colocamos diante deles, o modo como os aceitamos e os transformamos é que vai determinar a nossa evolução ou a nossa perdição e traduzir o nosso destino. Então, era assim: a história de Jorge, um homem da sociedade que vive as dúvidas entre o prazer e a proibição, entre o querer e a condenação, entre o ser autêntico e o ser igual e escolher, assim, entre o viver e o morrer.

            O texto teve seus primeiros esboços em Belo Horizonte, Minas Gerais, ficando latentes alguns anos esperando o momento mais propício para vir a público. Foi necessário um amadurecimento crítico, literário e, acima de tudo, vivencial para dar a Jorge a substância precisa. E ele veio. Assim, Janelas da Alma foi sendo mais do que escrito; foi, diria, tecido com os fios da emoção adquiridos ao longo do tempo. E para isso fui me surpreendendo com a história que parecia se “encaixar” como um quebra-cabeça à medida que outras artes vinham somar à sua existência. Foi assim com a música erudita me mostrando caminhos no momento sagrado da escrita e, principalmente, quando um amigo — Carlos Eduardo Mascarenhas — compôs ao piano a música homônima Janelas da Alma a partir dos originais que eu ia lhe mostrando, retratando com sensibilidade a atmosfera do romance. Mas ainda faltava alguma coisa, algo que desse o arremate nesta história de memórias e de arte, de encontros e descobertas. Foi quando, logo após finalizar todos os capítulos do livro, cada um deles ganhou em seu início, como a iluminar o que vai ser contado, a arte do haicai — um micro poema que tenta captar a essência do momento; um flash, um instantâneo, como a vida de Jorge e a nossa própria. Através da sutileza de três versos que contam, em poucas palavras, o sentimento frente a diversos desdobramentos da natureza — e são muitos — entrego este livro escrito, composto, desenhado, moldado com sentimento e poesia para ser apreciado e decifrado por aqueles que têm o gosto da procura…

Capítulo 1

 EVIDÊNCIAS

 O nascer do sol…

Que dia será este?

Apostas incertas.

Olhei o relógio. Dezoito horas e trinta minutos. O voo estava marcado para as vinte e uma. A impaciência era grande. Resolvi sair de casa assim mesmo, caminhar um pouco para ver se o tempo passava. Estaria me despedindo daquela cidade que há muito me desiludia, fazendo com que eu perdesse o interesse de estar entre as pessoas. Mas sabendo que iria sair de férias por um mês, quis olhá-la mais uma vez de perto. Talvez para me certificar de minha decisão. Estava assim, pensativo, quando um barulho de pneus e uma batida seca me chamaram a atenção, não só a mim, mas a certa quantidade de gente que aos poucos foi se avolumando até formar uma pequena multidão. Não havia dúvidas: um atropelamento. Bela despedida. Num instante se ajuntaram pessoas e olhares curiosos; alguns escondidos; outros, piedosos; outros tantos indiferentes — normal. Como um fechar e abrir de olhos, tudo muda, tudo é muito diferente. Os olhos são diferentes: a cor, as reações, as lágrimas. Os daquele senhor, por exemplo, ali caída no meio da rua, já não leem as notícias postas rapidamente em seu rosto. Tão perto e tão distantes, tapam-lhe a existência as folhas de jornal. Estariam anunciando algum assassinato? Talvez. Possivelmente, um sequestro ou quem sabe um novo deslizamento de terra? Quem sabe ainda uma bala perdida ou um noticiário de campanha contra fome ou coisa parecida? Tudo isso lhe seria indiferente. Creio que o presenteariam com coisas mais significantes como um jogo de futebol… Tudo tão rápido e ao mesmo tempo tão longo. Vida louca essa nossa. Quem seria aquela pessoa? Por onde havia andado, o que teria feito? Seja como for, mesmo que nunca venha saber, ela foi responsável por uma enxurrada de pensamentos. Vida louca essa nossa. Anos e anos jogados dentro de uma caixa de metal e fechados sob a companhia de companheiros mudos, surdos e cegos, maltrapilhos e mal cheirosos. O carro balança, mas lá iam sem reclamar. O silêncio já não importa mais. Importava antes, quando tinham sonhos, talvez. Hoje, o silêncio é imposição insignificante. Devem gostar dele, afinal. São poucos os que falam e muitos os que ouvem mesmo neste mundo… A obediência é rigorosa. Ah, domingos múltiplos de cansaços inspiradores que fadigam os nossos copos de cerveja, já dizia um amigo filósofo. E no meio de tantos agouros e brindes fanfarrões, resta-nos o consolo — ou seria a glória? — da intelectualidade vingadora. Intelectualidade inútil e sem sentido em mundo de ladrões. Quais? A arma está sempre apontada para as nossas cabeças. E o tiro é certeiro. Há salvação? Talvez para aquele senhor dentro da caixa de metal ela esteja próxima.

 

Encaminhei-me para o aeroporto. Tentei distrair meus pensamentos entrando numa livraria. Ali, em meio a tantos títulos de revistas e livros, teria sucesso em esquecer o senhor na rua. Inútil. Uma visão daquelas apenas adormece, mas não desaparece. Vi na capa de uma revista um desenho de Deus — como se alguém pudesse fazê-lo… E me lembrei de que fazia muito tempo que não rezava. Será que ainda sabia? Tentei balbuciar umas palavras. Saiu um “pai nosso que estais no céu”, santo de que mesmo? Ah, não… É santificado… Mas santificado por quem? Nisso uma voz chamou-me a atenção vinda do saguão do aeroporto.  Dirigi-me para lá a fim de ver do que se tratava. Antes de ver me lembrei! Santificado é o vosso nome e não o de alguém. Não vou mais esquecer. O vosso nome que é santificado… Confuso isso. Bem, nova aglomeração. Oh! Seria outro acidente, outro acontecimento ruim? Busquei a resposta na fisionomia das pessoas. Não era de dor. Algumas eram de surpresa; outras, alegres; outras ainda de desdém. Cheguei mais perto e vi uma mulher com uma roupa engraçada, o rosto pintado e um chapéu de guizos. Era uma atriz e estava representando. Parei para olhar quando um grupo de seguranças interceptou-a. Ordenaram que parasse e a levaram para uma salinha especial. As pessoas se dispersaram e a vida rapidamente voltou ao normal como se nada houvesse acontecido. Tudo é assim: rápido. Ao virar de cabeça, tudo, absolutamente tudo, modifica em fração de segundos. Fui até ao bar do aeroporto tomar um café. As horas não passavam. Sentei em uma mesinha e fiquei ali, folheando umas revistas, quando uma voz me disse:

— Obrigada por ter parado.

Levantei a cabeça e uma mulher sorridente se revelou à minha frente.

— Posso me sentar? Preciso de um café.

— Quem é você?

— A moça do saguão. Vi quando parou para olhar. Veja. — e mostrou-me o chapéu de guizos.

— Então soltaram você!

— Claro! Eles apenas nos afastam do trabalho, sabe como é: “nada de transgredir a boa ordem…” como se eu estivesse fazendo algo de errado.

— Por que faz isso?

— É o meu trabalho. Sou uma atriz. Fico em cartaz nos teatros, mas para aumentar o orçamento, atuo sozinha em lugares públicos. Às vezes, dá certo.

— Interessante.

— Interessante? É tudo o que tem a dizer?

— Bem… O que esperava que eu dissesse?

— Ora, sei lá… Que me pedisse um autógrafo, que gritasse dizendo: é ela, vejam! Luana Lemos… Ah, ah, ah… Estou brincando com você. Parei mesmo para tomar um café antes de ir para o teatro. Aliás, preciso ir agora senão me atraso.

— Espere! Está com tanta pressa assim? Não ia pedir um café?

— Sim, mas o espetáculo começa às vinte e uma, e o Teatro Universitário não fica muito perto daqui. Pode tomar o café por mim. Se quiser, também, pode vir ver o espetáculo. Está convidado.

— Mas eu estou indo viajar…

— Bem… De qualquer forma, obrigada mais uma vez… Tchau! — e saiu apressada, tão rápida quanto chegou. Ainda tentei dizer alguma coisa, mas não foi possível. Apenas gritei:

— Boa sorte!

— Não diga isso! Diga merda!

— Diga o quê?!

Merda! Quer dizer que me deseja sorte. A palavra sorte dá azar, entendeu?

E desapareceu em meio às pessoas. Fiquei parado por algum tempo, surpreso com o acontecido. Luana Lemos… Pessoa interessante. E estranha também… Seria esse mesmo o seu nome? Artista tem mania de mudar de nome… Para santificá-lo, deve ser. De qualquer maneira, intrigava-me a naturalidade de seu jeito, a maneira simples com que se apresentou. Era dessas pessoas que possuem um comportamento diferente como se já conhecesse a todos. Deve ser bom viver assim, sorridente e alegre. Voltei à mesa de café. Pedi mais um que seria o dela. Faltava pouco mais de uma hora para o voo e eu ainda precisava fazer algo para que o tempo passasse. Levei a xícara de café à boca e, ao colocá-la de novo à mesa, percebi uma bolinha dourada pousada nela. Peguei-a. Era um dos guizos do chapéu de Luana. Por um segundo, senti aquele ímpeto de ir devolvê-la, mas… Que absurdo! O voo sairia logo e, além do mais, esperei aquela viagem de férias por muito tempo, ansiosamente. Ri de mim mesmo e voltei ao café. Guardei a bolinha no bolso do paletó e puxei uma revista para folhear. Tentava concentrar-me na leitura, mas já era impossível, meu pensamento não saía da bolinha dourada. Comecei a ficar incomodado. Senti aquele frio subindo da altura do umbigo e parando na garganta, principalmente por já ter percebido que faria uma loucura. Será possível? Conhecia-me muito bem para saber que sim… Olhei o relógio: vinte horas. Saí apressado entre as pessoas até chegar do lado de fora do aeroporto. Chamei um táxi. Acomodei a mala no porta-malas e disse ao motorista:

— Teatro Universitário, por favor.

O teatro não era precisamente um teatro. Era, na realidade, um casarão onde funcionava a escola de artes cênicas. Obviamente, o local havia sido cuidadosamente preparado para uma peça. As cenas do espetáculo aconteceriam no meio de um grande pátio circundado pelos corredores da escola, os quais também receberam preparação toda especial, com panos pretos tampando as paredes e também tablados por onde se presumia que os atores caminhariam. O ambiente era bastante inusitado, pois tudo era ao ar livre, onde nós, espectadores, ficávamos acomodados bem ao centro do pátio, estando claro que a peça aconteceria no meio de nós, e isso se confirmou em seguida. Ficávamos sentados em quatro grupos de banquinhos de madeira, cada qual com uma cor e formato diferentes: triângulos, círculos, quadrados e retângulos, na cor vermelha, amarela, verde e azul, respectivamente. A disposição dos quatro grupos de banquinhos formava duas passarelas em cruz. A impressão era de estarmos em meio a um jogo, e nós éramos as peças principais. Uma imensa árvore do lado de fora do casarão fazia aparecer de dentro deste onde nos encontrávamos uma copa esgalhada em que suas folhas, agitadas pela ação do vento, compunham o cenário perfeito e, juntamente com as tochas de fogo, cada qual num canto do pátio e um cheiro perceptível de incenso completado com o ritmo harmonioso dos tambores e de outros instrumentos de percussão, colocavam-nos em estado de pura excitação. Quando cheguei, já havia sido dado o segundo sinal. Mal me acomodei em um dos banquinhos que compunha os quatro grupos descritos e visualizei o ambiente, ouviu-se o terceiro sinal e o espetáculo se iniciou. Tratava-se de “Tempestade”, de Aimé Cesaire; uma adaptação de A tempestade, de William Shakespeare. Como eu havia imaginado, os atores iniciaram a peça se posicionando no meio de nós, espectadores. Num dos corredores que formava a cruz central, separando os quatro conjuntos de bancos, os atores seguravam, em dois grupos, cada qual uma extremidade de uma grossa corda cingindo de um lado a outro como se estivessem em um navio em pleno naufrágio. De fato, os atores representavam uma grande tempestade, a mesma que levou toda tripulação do navio à terra de Próspero; e era lá onde toda a encenação ocorreu, levando-nos juntos a vislumbrar a luta entre o rei e seu escravo Calibã em busca da liberdade, auxiliado pelo espírito da ilha, Ariel, e seu bando que aparecia e desaparecia como mágica entre os olhares vislumbrados e emocionados da plateia. As cenas eram fortes, como quando Calibã, uma figura grotesca, nua, com o corpo e rosto pintado como um verdadeiro nativo passava entre nós e, num ritual, preparava-se para a guerra contra Próspero. Sua linguagem não era humana e misturada aos sons dos tambores, ao cheiro forte que exalava em todas as direções, ao fogo que ardia e à noite que estava por cima de nossas cabeças, tínhamos uma impressão de veracidade incrível que, em alguns momentos, chegava a dar medo. Reparei que as pessoas se entreolhavam e sentíamos como que um agradecimento fortuito por estarmos acomodados desconfortavelmente naqueles banquinhos curtos bem perto uns dos outros, quase caindo. Reparei em um personagem atrás de Calibã na cena do ritual. Provavelmente, um do bando de Ariel que auxiliava o nativo na tentativa de fortalecê-lo, o qual mantinha ódio ao seu dono. Aliás, esses sentimentos de ódio, raiva, medo que os atores representavam, faziam-se perceptíveis de uma maneira quase psíquica. É como se pudéssemos sentir em nós o sentimento real do personagem por uma espécie de transferência de teor físico. Apesar do incômodo, todos permaneciam, e eu, para não quebrar a regra, permaneci também, apesar de uma grande vontade de ir embora. O personagem atrás de Calibã o acompanhava em um sincronismo perfeito. Todos os movimentos do nativo eram repetidos com grande destreza, até o momento em que Calibã, uma vez preparado, recolheu-se à sua caverna a espera do conflito final. Em outra cena, desta vez bem mais amena, lá estava Luana, que representava a filha de Próspero, enamorada de Ferdinando, o príncipe da embarcação. Reconheci-a logo com os seus belos olhos azuis. A partir daí, fiquei mais calmo e permaneci assim até o final da peça em que, confesso, respirei bem mais aliviado. De qualquer forma, fora uma experiência bastante excêntrica que, até hoje, quando recordo, causa-me um pouquinho de arrepios. Quando o espetáculo terminou, o público aplaudiu emocionado. Quanto a mim, como disse, aplaudi com um suspiro de alívio, apesar de reconhecer sua qualidade cênica que, de fato, era excelente, um espetáculo recomendável. Encaminhei-me para o bastidor pronto para falar com Luana, entregar-lhe a bolinha dourada e parabenizá-la pela peça. Eram muitas as pessoas que, como eu, tinham o mesmo intento de falar com os atores. Senti-me bem ao ver que tudo, de fato, não passara de uma simples representação ao perceber a descontração dos atores, inclusive, a de Calibã colocando-me de volta à realidade ao vê-lo sorrindo como um ser humano de verdade. Dei-lhe os parabéns e perguntei por Luana. Ele, por sua vez, indicou-me uma sala espelhada que servia como camarim. Ao entrar na sala, vi Luana retirando a maquiagem e, ao me aproximar, disse com simpatia:

— Merda!

— Oh, é você? — disse olhando-me pelo espelho com um belo sorriso nos lábios

— Sabia que viria…

— Como é?

— Veio devolver-me a bolinha, não é? — senti um sobressalto de surpresa.

— Sim, mas… Como sabia que viria se viu que eu estava indo viajar?

Luana se virou para mim com uma fisionomia bastante enigmática, eu diria, e não menos amigável.

— Se esperar, podemos sair daqui e tomar alguma coisa, o que acha? Assim conversaremos melhor e, desta vez, sem pressa nem viagem. É apenas o tempo de tirar a maquiagem e tomar um banho. Pode ser?

Concordei sem hesitar. Aliás, tudo o que mais queria era sair e conversar com aquela mulher que a cada minuto me surpreendia. A curiosidade que fez surgir em mim não me permitiria deixá-la ir embora sem algumas explicações.

 

Capítulo 2

 LEMBRANÇAS

 O banco vazio

descortina memórias.

Ausência infinita.

Esperei Luana do lado de fora do teatro. Estava ansioso por vê-la sem máscara, se é que isso é possível em alguém. Todavia, esperava ver como era a mulher por trás da personagem sem o ocultismo criado pela maquiagem. Se bem que tive uma chance disso no aeroporto, quando ela veio até mim no café, mas fora uma chance dessas sobressaltadas em que a surpresa paralisa a ação e a percepção. Precisava de uma nova oportunidade como a que estava prestes a acontecer, e essa certeza fazia com que meu coração se acelerasse, a respiração ficasse presa no peito e certo tremor na altura do plexo solar fizesse com que o meu corpo reagisse como se estivesse com frio. Tudo isso, porém, passou ao som da voz de Luana que, por trás de mim, disse:

— Estou pronta! Demorei?

Ao me virar, fiquei atônito por alguns segundos observando aquela pessoa em minha frente. Luana ali, sorrindo, um sorriso encantador, talvez um dos mais bonitos que já vi, percebendo meu silêncio, perguntou novamente:

— E, então, vamos?

— Oh, desculpe-me! Claro, sim?

E, abrindo caminho, fiz com que ela passasse pelo portão do velho casarão e chegasse à rua para que decidíssemos aonde ir.

— Há um bar interessante não muito longe daqui. É bastante agradável, bem diferente de alguns frequentados por artistas que, exatamente por isso, às vezes, são hilários, quando não insuportavelmente pedantes… — disse, descontraída, Luana.

— Engraçado ouvir isso de uma artista… — disse, por minha vez, também me fazendo à vontade, ou, pelo menos, tentando.

— Você não pensa assim?

— Se fosse um artista, talvez…

— E o que o faz crer que não seja?

Não disse mais nada. Apenas observei e tentei assimilar o que ouvi de Luana franzindo, levemente, o sobrolho e fitando-a que, por sua vez, olhava-me sorridente, o mesmo sorriso enigmático e encantador.

— Se não se importa — disse desafiador, porém entrando no mesmo ritmo de Luana — gostaria de ir ao bar dos artistas…

— Seu desejo é uma ordem, meu caro viajante! Vamos?

Decidimos por ir a pé ao invés de ir de táxi. Assim poderíamos ir conversando e nos conhecendo melhor. O bar ficava a umas cinco quadras de onde estávamos. Era uma boa caminhada descida abaixo. Íamos descontraídos em conversas jogadas fora sem cerimônias. Mais ouvia do que dizia alguma coisa. Toda a minha atenção estava voltada para Luana. Enquanto falava e gesticulava, ia decifrando-a, sorvendo-a, dissecando-a com os olhos. Luana era linda, de uma beleza enigmática, dessas que faz com que desviar o olhar, por um momento que seja, é se tornar uma espécie de…  Não me vem à mente o estúpido que poderia ser. Estava com uma saia de seda com desenhos de quadrados coloridos que em qualquer pessoa ficaria extravagante, mas nela ficara perfeito, dessas perfeições únicas que exalta a personalidade e que, por isso, aflora ainda mais a admiração. Luana era incrivelmente bela. Usava os cabelos encaracolados até os ombros de um corte simples e moderno e os deixava soltos, sem afetações. Aliás, Luana era exatamente assim, simples. Talvez, por isso, tanto encantamento. Estava sorvido por ela, mas não de maneira em que as intenções nos despertam desejos miraculosos, desses que colocam os homens a mercê de seu sexo voraz. Confesso que isso até me surpreendeu. Estava, sim, atraído por ela, mas de forma singular, de querer conhecê-la profundamente e deixar esvair o sentimento fraterno que me embriagava. Fraterno?! Como isso era possível? Confesso que não sabia. Tudo isso ia digerindo enquanto Luana falava sem compromisso. De quando em quando tinha a impressão de que Luana tinha em mim alguém excessivamente conhecido, tamanha a sua liberdade transparecida em seus gestos seguros e atitude confiante. E foi assim que chegamos ao bar. Era um bar aparentemente como outro qualquer: mesas, cadeiras, balcão, caixa, atendentes e, claro, alguns terminais de computadores conectados à Internet, os quais os clientes disputavam às gargalhadas e olhares maliciosos o momento de apertar as benditas teclas em bate-papos virtuais. Incomodava-me um pouco o fato de aquelas pessoas preferirem a conversa virtual ao invés da real, embora não fosse da minha conta. Pensei em como é fácil mentir nos dias de hoje. Através da Internet, a pessoa pode ser qualquer um, do jeito que bem entender e ter o cabelo, o corpo, a aparência que quiser numa metamorfose alucinante, mudar de nome sem burocracias e sem leis. Vida louca essa nossa. A mentira é a verdade e a verdade não sabemos o que é.

— Podemos, ainda, ir para outro bar…

Era Luana que quebrava o silêncio entre nós e invadia o barulho dos meus pensamentos. Olhei para ela que repetiu a sentença: podemos, ainda, ir para outro bar. Qualquer lugar seria a mesma coisa. Disse isso com uma voz estrangulada e, a partir daí, o silêncio foi dela. Falava, gesticulava, espumava os cantos da boca, abria-me como um livro e sentia um enorme prazer em dizer, ao passo de longa, e talvez redundante explicação, coisas como: afinal, o que é melhor para a indústria farmacêutica, a saúde ou a enfermidade? Que importa se somos a privada do mundo se isso é lucrativo? O quantificável é o senhor da eficácia. E assim foi até quando furtei um pensamento que havia sido o ápice da minha mal começada carreira de publicitário e que eu lera num livro: “A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento do valor do mundo das coisas”. Nesta hora, senti-me ridículo. Malditas frases feitas. Foi quando me levantei para ir ao banheiro e percebi que estava bêbado, pois minha cabeça deu um rodopio e minhas pernas bambas me obrigaram a sentar novamente. Olhei para a mesa e mal compreendi quatro copos de vodca vazios e um pela metade. Não me lembrava deles, mas lembrei-me de como ficava quando bebia daquele jeito. Olhei para Luana que pousava em mim o mesmo olhar penetrante que me parecia agora piedoso, embora num sorriso leve e generoso, o qual agora me incomodou bastante, talvez pela vergonha súbita que senti. Luana brincava com a ponta dos dedos num copo de suco de laranja. Há quanto tempo será que estávamos ali? Tudo acontecia rápido demais. Mas este questionamento perdeu força para outro que me intrigara mais: como pode uma artista beber suco de laranja? Não sei se disse isso a ela, mas disse que precisava ir ao banheiro. Levantei-me cambaleante e mirei para onde tinha que ir. Fui segurando ora numa cadeira, ora numa mesa, ora ainda em alguém, o que me foi de grande valia, pois recebi um safanão que me fez chegar ao banheiro num instante. Ao chegar lá, lembrei-me da frase feita e amaldiçoei Lord Kelvin. Quis urinar em Lord Kelvin, pegá-lo pelo pescoço e enfiar sua cabeça no mictório, mas ao meu lado chegou um cara esquisito, que me olhou com um jeito esquisito e eu logo pensei que fosse um veado. Esqueci Lord Kelvin num instante e quis sair logo dali, mas era o diabo, minha bexiga estava cheia e me forçava a ficar. Olhei para o cara esquisito e imagino que também fiz uma cara esquisita, pois o cara franziu o sobrolho ao mesmo tempo em que fechou o zíper da calça e saiu sem lavar as mãos. Será que o filho da mãe achou que eu era veado? Não que eu tenha preconceitos, mas daí a ser… Bem, se achou problema dele. O fato é que me livrei do cara esquisito.

Saí do banheiro certo de não mais encontrar Luana à mesa. Claro, minha conversa deveria tê-la espantado e a feito perceber a péssima companhia que eu representava. Deveria neste momento estar desejando que eu estivesse voando rumo a sei lá onde eu estivesse indo. Mas tal foi minha surpresa ao chegar à mesa, vi que Luana estava lá me esperando, como disse, com um semblante sereno e belo:

— Vamos embora. Vou te levar para casa.

Instantaneamente, enfiei a mão no bolso para tirar a carteira e pagar a conta. Mas não foi preciso, pois vi em cima da mesa uma daquelas cadernetas pretas em que se põe dinheiro onde, além de algumas notas, havia também algumas moedas ao redor. Luana se levantou, entregou a caderneta ao garçom e disse novamente:

— Vamos para casa.

— Não quero ir para casa. Saí de lá hoje com intenção de não voltar.

— Tudo bem, te levo para a minha, então.

Fiquei surpreso com aquela resposta. Na verdade, fiquei espantado. Afinal, o que fazia uma mulher tão linda ficar em companhia de um homem o qual ela nunca tinha visto; ver este homem beber falando sabe lá o quê e ainda o levar para a sua casa? Disse isso a ela, completando:

— Olha aqui, você nem mesmo sabe o meu nome. Embora eu tenha bebido e estar meio tonto, ainda há em mim um pouco de juízo, coisa que eu acho que você não tem. E se eu for um ladrão, um assassino? Já pensou nisso? Você é louca…

— Você não é ladrão e muito menos assassino. Você se chama Jorge, é publicitário, mora em um condomínio de classe média alta em um bom bairro da cidade, é solteiro, tem uma quedinha por uma colega de trabalho e está desiludido da vida, mas nada que não possa ser melhorado. Agora podemos ir?

— Escute aqui, o que você quer, afinal? Por sua causa, não viajei, fui a um teatro e assisti a uma peça maluca, vim parar num bar onde parece que falei de toda a minha vida pra você. Eu nem mesmo a conheço… O que você quer?

— Bem, eu também não sei dizer o porquê das coisas acontecerem assim dessa maneira. Sei apenas que você não é uma má pessoa, só isso, e que eu posso confiar em você…

— Você disse que sabia que eu iria ao teatro. Como assim?

— Deixei a bolinha na mesa por querer. Fiz uma experiência… Só isso. E se você veio é porque tinha que vir.

Saímos. Fui andando sem digerir muito bem aquela história toda. Muito menos essa coisa que “se veio é porque tinha que vir”. Era esoterismo demais para o meu gosto e eu nunca me dei com isso. Entramos num táxi. Mais uma vez, acomodei minha mala no porta-malas e seguimos para a casa de Luana. Toda a tagarelice de antes agora deu lugar a um silêncio absurdo entrecortado com olhares que eu lançava a Luana tentando entender o que se passava. Nunca havia sido tratado daquela maneira desde que saí de casa para morar sozinho, nem por quem me era mais próximo. O que mais me fez ter o coração sobressaltado, no entanto, foi perceber que aquele sentimento fraterno que eu havia tido por ela acabava de se transformar num desejo ardente de tê-la em meus braços. Aí já seria demais… A vida há muito não era generosa o bastante comigo. Por que estava acontecendo aquilo? A situação era tão inusitada que até curou a tonteira causada pela bebida, apesar do mal-estar. Descemos do táxi. Peguei minha mala, paguei a corrida e já estávamos no portão da casa de Luana. Era um condomínio com várias casinhas iguais, dessas geminadas. O local era muito agradável. Antes que Luana abrisse o portão, disse:

— Não vou entrar. Volto daqui.

— Como é?

— Disse que não vou entrar. Obrigado por ter me aguentado esse tempo todo.

— Não seja bobo. Vou fazer um café forte enquanto toma um banho quente.

— Desculpe. Mas prefiro voltar daqui.

— Está com medo de mim, viajante? — brincou Luana — Saiba que eu não mordo, viu?

E foi abrindo o portão quando eu a segurei pelo braço e a fiz voltar para mim. Ela me olhou surpresa e eu pude certificar de sua beleza, ainda mais sentindo um perfume tão maravilhoso como há muito não sentia. Luana era de fato uma mulher linda e o meu sentimento fraterno se dilacerara. Desejei beijá-la ali mesmo, entrar e pegá-la carinhosamente nos braços, apertá-la contra meu corpo, sentir o seu calor. Talvez por isso, ao olhar fixamente para os seus olhos, disse já com a voz estrangulada:

— Adeus. E muito obrigado por sua companhia.

Luana fechou levemente um dos olhos e fez um gesto como quem dissesse: “você é quem sabe.” Eu mesmo fazia um grande esforço para não por em prática o meu desejo. Por alguma razão, talvez a postura verdadeira de Luana não me deixava tratá-la como a muitas outras que, certamente, não perderia mais meio minuto para realizar o meu intento. Soltei o seu braço e levei as mãos dela até a altura do meu peito e as beijei carinhosamente. Peguei minha mala e me afastei vendo Luana entrar em sua casa. Fiquei estático ainda um longo tempo no portão com uma vontade imensa de pedir para entrar. Mas ao invés disso, dei meia volta e fui andando rumo ao centro da cidade.

A mala já pesava em minhas mãos. Há muito já se transformara num incômodo. Minha vontade era de atirá-la longe, ainda mais que estava passando por cima de um viaduto onde lá embaixo já não passava viva alma. Parei e fiquei olhando para baixo imaginando a mala toda despedaçada, roupas para um lado, escova de dente para o outro… Faria a festa dos mendigos, afinal, que dormiam naquela madrugada fria e sem graça. Dei-me conta, entretanto, que se alguém por ali passasse e me visse parado no alto daquele viaduto pensaria que eu é que iria me atirar dali. Talvez até torcesse por isso. Daria uma boa fotografia no dia seguinte. Saí apressado para jogar água ao fogo do desejo de alguém que, naquele momento, só existia em meu pensamento. Pensamento, aliás, que à medida que eu andava começava a torturar-me com lembranças dolorosas, como esta que me invade a memória e me faz recordar daquele sábado ordinário… Família na sala, feliz; povo sofrido, sorrindo, até sonhando eu diria com o mundo maravilhoso e encantado da televisão enquanto não chega a realidade dura da segunda-feira. Anúncios de casas, carros, deliciosos banquetes de café da manhã, noites de gala contrastam com o arroz e feijão de todo dia, com as mãos calejadas e o peito suado até que, ao chegar à casa, novas doses de sonhos e brutalidade refazem o corpo cansado e satisfazem nossos desejos reprimidos. Enquanto a televisão ia mostrando chacinas, denunciando estupros num circo sensacionalista, arrancando fisionomias de dor e revolta, intercalavam na mente de Dona Leonor a esperança de ser contemplada em um desses jogos de sorte como era de costume de sua mais doce passividade. Em intervalos de programas ou em mudanças de canais, ficava Dona Leonor absorta e imensamente tomada pela emoção de mais um capítulo da novela das oito, mas sem largar o cartão do sorteio que logo seria anunciado. Passeios encantadores, comidas deliciosas, festas, recepções… Tudo isso dançava na cabeça de Dona Leonor que via na tela da televisão a representação do que gostaria de possuir e, como tudo era mostrado de forma tão encantadora e fácil, Dona Leonor acariciava entre as mãos seu cartão da sorte com tanta ternura como se fosse um animalzinho de estimação. Em meu silêncio, imaginava quantas famílias não estariam passando pela mesma situação e mesmo sonho de minha mãe. Sim, Dona Leonor era minha mãe. Meiga e amável, minha mãe era dessas pessoas de coração enorme e sorriso triste. Estavam ainda na sala Godói, meu padrasto, além de um casal de tios, dois irmãos e alguns amigos. Todos assistiam à televisão quando uma chamada veio ao ar anunciando um sequestro que devia ser de gente importante. Se bem que para aparecer na televisão… Impressionou-me a maneira pela qual as pessoas se alvoroçaram ainda mais em frente à tela e a importância que davam ao caso como se fosse gente de casa. Não que a pessoa não merecesse importância, mas fatos como aquele ou até mesmo piores aconteciam em cidades tão perto de nós e nem por isso eram tão aclamados e horrorizados como aquele sequestro mostrado na televisão. Soube mais tarde se tratar de um artista… Seja lá como for, o fato é que dia após dia os telejornais eram recheados de casos de polícia, mortes, assassinatos e eu, como criança, não entendia bem o porquê ou mesmo o que fazia com que pessoas matassem outras pessoas. Lembrava-me das aulas de catecismo e do “amai-vos uns aos outros” — sentença exaustivamente repetida nas missas dominicais. Quem estaria mentindo? A regra ou a conduta? Uma coisa não batia com a outra e minha cabeça de criança não processava aquilo direito. Hoje, reparo nessas lembranças de um jeito diferente. Godói praguejava, lembro-me bem…

— É o diabo, Agenor — falava ao meu tio — Esses marginais todos deveriam ser mortos. Não há jeito nisso! A polícia prende amanhã solta e, daí, ele volta e mata mais um.

— Meu caro, Godói, o que devia mesmo era instituir a pena de morte nesse país. Acabar logo com essa corja de malandros. Se roubar, mata! Aí eu queria ver…

— Nunca esteve tão certo, Agenor, nunca esteve tão certo. É o diabo!

E assim a conversa se repetia a cada chamada de violência o que era intercalado com as cenas da novela em que lá estavam os manjares, os passeios de barco, os carros do ano, as propagandas chamativas. Minha mãe assistia a tudo aquilo e continuava conferindo seus cartões da sorte. Gostaria de estar lá hoje para fazer apenas uma pergunta ao meu tio e a meu padrasto depois de tantos anos odiando os marginais. A bem dizer, minha cabeça nunca deixou de remoer esta pergunta: quem eram, afinal, os marginais? Ora, vá para o diabo, Godói.

A manhã vai se aproximando. Os primeiros viventes começam a aparecer apressados nos pontos de ônibus e nas ruas ainda vazias a caminho do trabalho. Quanto a mim, deixo aqui nestas lembranças o registro de um dia e de uma noite tristes, embora com a especial presença de Luana, para que um dia eu retorne e nelas me inspire a cuspir no mundo ou abraçá-lo com um sorriso fraterno…

 

Capítulo 3

 ADEUS

 Vento que sopra

leva a chuva daqui.

Amores que vão.

A mala era tudo o que eu possuía naquele momento. Não passava pela minha cabeça a vontade de voltar para casa. Estranho sentir que todo o meu mundo, conquistas, pertences estavam devidamente resumidos dentro daquele objeto quadrado meio abaloado. Mais estranho ainda era sentir que o pouco que eu tinha me incomodava bastante. Como as coisas nos pesam! E que coisas? Roupas, sapatos, escova e pasta de dentes… Somos presos a tão pouco! Nada me impedia de deixá-la ali mesmo onde estava e seguir a minha vida sem ela. Ao mesmo tempo, tudo me impedia… Ideia estúpida essa de acharmos que as coisas nos pertencem, principalmente, porque não é assim que acontece. Somos nós que pertencemos às coisas, pois elas não têm vontades nem desejos de nós. Se as deixarmos em qualquer canto, elas ficam tranquilamente e não sentem a falta que nós sentimos delas. Se entrarem na vida de outras pessoas, entram com a mesma indiferença com a qual saem da nossa. Elas são livres, desapegadas, enquanto nós somos presos, acorrentados a uma vida de ilusões. Arrasto a mala como um preso arrasta uma bola de ferro e se alguém a rouba ainda seria capaz de perder a vida na tentativa de reaver minha prisão, não abrindo mão do meu fardo e das minhas mazelas.

            As ruas já estavam cheias. Gente se esbarrando, olhares sumidos, perdidos cada qual em interesses próprios sem sinal de um afeto comum. Um mundo lotado de singularidades e ausências se confundia comigo mesmo que via nos rostos das pessoas marcas do tempo esgotado e às vezes sem sentido algum. Era assim que eu estava. Andando sem sentido, sem direção, sem vontade. Somente a mala, incômoda, que me prendia a nada. Tudo estranho. Sensação de estar onde não deveria. Pensava que naquele momento outra pessoa deveria estar ocupando aquele espaço que meu corpo ocupava e, contrariamente, eu deveria estar ocupando em outro lugar o espaço que, naquele instante, outro me furtava. Tudo é uma questão de momentos. E a vida passa sem pensarmos nela. Apenas passa como a dor quando nos acostumamos com sua presença, embora não percebamos os estragos em nossa alma causados pelas ausências. Foi assim que cheguei à porta de um café e me dei conta de que não comia havia muitas horas. Não tinha fome, mas os impiedosos condicionamentos me faziam mentir para mim e cheguei a entrar. A surpresa da cena que vi se juntou à curiosidade do fato de estar a rua lotada de pessoas que passavam direto pela porta à procura de lanchonetes ou outros destinos, deixando o café vazio, apenas com a presença de um senhor ocupando a mesa do centro com um pires de chá posto em sua frente e uma atendente que, de quando em quando, olhava o senhor que, por sua vez, não tirava os olhos da xícara. Pausa. Não sei quanto tempo fiquei ali parado, absorto e indeciso. Do lado de fora, pelo vidro da porta, dava para ver as pessoas passando em direções adversas, indo e vindo num movimento constante. Do lado de dentro pausas. Acomodei a mala ao pé de uma mesa e, antes mesmo de sentar, abri a porta para me certificar da agitação da cidade lá fora. Normal. Mas por que não entravam? Voltei e olhei para o senhor. Mais pausa. Olhei para a atendente absorta em seu serviço de limpeza do balcão. Pausa. O único cardápio estava na mesa do senhor. Pausa. Aproximei-me. Pausa. Eu ali em pé com ideia de ir embora, mas com vontade de ficar. O senhor levou a xícara à boca. Já não tinha chá. Indiferente por ter ou não, ele pousou a xícara lentamente no pires e permaneceu em silêncio. Já não suportava mais a pausa, pausa, pausa… Eu ao seu lado. Inferno de pausas. Ele, pacientemente sentado, esperando não se sabe o quê. Parecia ser o seu mundo a xícara de onde não arredava o olhar. Fiz um gesto de quem quebraria aquele silêncio mortuário, estafante, mas me contive como se a pausa fosse sagrada ali naquele lugar. Com tanto espaço vazio, puxei a cadeira e, ao lado do senhor, sentei-me entregue. Agora éramos dois no silêncio das pausas que não sei quanto tempo durou. Até que de repente…

            Júlia era uma dessas criaturas maravilhosas que enchem de sonhos as nossas mais profundas melancolias. Ela reerguia os escombros do tempo e fazia renascer, de entre seus mistérios mais íntimos e fascinantes de mulher, a flor perfeita e imediata, com tamanha leveza, que faria remoer de inveja as ricas mademoiselles da França. Morava no terceiro andar de um pequeno edifício na Rua dos Anjos num dos bairros desta cidade. Oh, meu Deus! Já faz tanto tempo… Lembro-me de que certa vez, fui com um primo até o prédio onde ela morava, e nessa época eu ainda não a conhecia. Eles estudavam juntos. Pedi a ele que me apresentasse dizendo que eu era um primo seu distante da Espanha, para impressioná-la. Coisa de criança… Eu tinha um brinquedo, não me recordo bem qual, mas lembro-me de que a caixa era escrita em espanhol. Então me pus a decorar o texto explicativo que vinha na caixa, e era com ele que eu pretendia me tornar o mais nobre e perfeito cavalheiro da Espanha. Meu primo não teve coragem — eu o agradeço por isso — e somente dois anos mais tarde é que eu soube que Júlia, a minha Júlia, era a mesma dos meus sonhos de grande conquistador. É…, eu queria ser como Don Juan. Mas foi apenas um sonho…

            — O senhor aceita mais uma xícara de chá? — disse surpreso por aquele senhor, sem mais nem menos, quebrar o silêncio sagrado das pausas e começar a falar, sem ao menos olhar para mim, como quem me esperasse há tempos.

Não, obrigado!

            — É que… Bem… Eu ainda não o conheço e…

Oh, mil perdões! Não me apresentei a você? É essa minha cabeça velha e cansada de 86 anos de idade. Sabe, estou velho, meu filho…, mas não menos feliz! Vivo alegre porque amei, e devo lhe dizer, amei muito! Sabe como a conheci? Numa partida de peteca. Veja você… Jogávamos juntos, e foi naquele domingo de manhã que tudo começou… Perdemos o jogo, é bem verdade. Ela usava óculos e não enxergava bem a peteca que vinha do alto, e eu não tirava os olhos dela. Naturalmente, eu não falo da peteca… He, he, he, fomos um desastre! E foi assim que nos conhecemos. Até diria que foi assim que vivemos… Jogando… Mas ela foi uma boa jogadora. Era brilhante, como em tudo nela naquele tempo… Tinha uma delicadeza nos gestos, uma forma de falar com tamanha meiguice, que nunca nenhuma princesa de Racine ousaria ter. Aliás, foi assim que a chamei, carinhosamente, pela primeira vez. Princesa… Não podia ser mais adequado… Daí para namorá-la não houve muita distância. O bem da verdade é que já namorávamos, mas nunca a havia beijado. Eu era um desses rapazes tímidos que qualquer gracejo era motivo para ficar vermelho. Mas vermelho mesmo eu fiquei quando por fim nos beijamos. Oh, o primeiro beijo… Nunca me esquecerei desse dia… Eu a levei para a escola e, durante todo o trajeto, eu mal escutava o que ela me dizia. O meu corpo suava, as minhas pernas tremiam por pensar que quando chegasse à escola eu teria que beijá-la. Eu procurava uma maneira de não me parecer ridículo, ou qualquer coisa assim, frente a uma situação a qual eu nunca havia passado e a qual eu sonhava por tê-la. Quando finalmente chegamos, tudo aconteceu como eu não imaginei. Foi ela quem me beijou… Veja só! A história fez mais uma vencedora… Saí dali com o rosto marcado de batom vermelho sem me dar conta do porquê de as pessoas rirem. Só fui entender quando cheguei em casa e me olhei no espelho. Tinha mesmo ficado vermelho, literalmente. É…, e assim foram os meus dezessete anos contra os quatorze dela. Mais uma vez a gata venceu o cão.

            — Eram muito jovens, não?

Sim, éramos muito jovens… Talvez tenha sido por isso que nunca encontramos a felicidade juntos. A vida nos apresentou cedo demais. Mas… Não, não foi por isso… Definitivamente.

            — Como? Não viveram felizes? Mas eu imaginei senhor… Senhor…

Ora, não julgue pelo que ainda não ouviu, meu filho… O que disse até agora são apenas algumas poucas palavras frente a uma imensidão de acontecimentos. Eu cresci, amadureci e ela também. A partir daí nem tudo foram flores. Eu diria até que a primavera nos foi demasiadamente sem cor. O fato é que sofremos muito nas mãos um do outro. Não nego minha culpa de criatura insegura, mas nunca insensível, ela bem o soube. Mas creio que meu grande erro foi de não tê-la feito acreditar em mim. Faltou-me essa virtude. Por isso não posso culpá-la totalmente do seu distanciamento, mesmo perto, da sua falta de carinho. Eu a fiz sofrer muito… Mas, igualmente, foi o sofrimento que me trouxe. Estava então começando a conhecê-la. Não conseguíamos nos entender. Então resolvemos nos separar. Foi quando sua mãe a deixou… Ela nos ofereceu uma ponte de reencontro em que nunca tínhamos pensado poder existir. Sua mãe foi uma pessoa iluminada até mesmo depois da morte… Mas não soubemos aproveitar o último bem que nos proporcionou. Por algum tempo, eu me culpei por isso, como me culpei por tantas outras coisas que nos aconteceram. Mas depois… Não! Eu não tinha culpa pela sua falta de amor. Não digo que ela não tenha gostado de mim, mas amor… Ela não sentiu… Só mais tarde é que eu percebi o quanto isso me fez bem a partir de um mal que eu mesmo cometi. Ora, calma! Já vou lhe explicar… Como eu disse, ela não acreditava em mim, e eu falhei no momento em que não briguei por ser diferente. A nossa maior diferença é que eu a amava enquanto ela apenas gostava. Então ficamos longe por cinco anos, e por cinco anos eu alimentei o sonho de estarmos juntos. Por cinco anos, eu tive a certeza de que um dia nos encontraríamos para nós resolvermos por bem ou por mal, mas essa pendência não levaria comigo para sempre. Eu não queria levar… E de fato, quando nos encontramos…

            — O que aconteceu, senhor?

Aconteceu… Bem, aconteceu que ela havia mudado. Não era mais aquela princesa… Não! Não era mais a minha Júlia. Essa existia apenas no mundo dos sonhos e tinha ficado no passado, ou talvez junto da mãe em algum lugar onde as flores ainda conservam os seus perfumes, mas não ali na minha frente, não ali…

            — Quem estava ali então, senhor?

Uma pessoa perdida, meu filho. Perdida em sua própria fantasia. Toda ela era uma alegoria dura e intransigente de menina rebelde e de mulher independente. Parecia que tinha necessidade de se esconder atrás de alguém que não era. De alguém que a fazia nula ante a sua natureza divina de mulher. Fugia do seu próprio tempo, aliás, não o vivia. Vivia o tempo dos outros na idade, na aparência, na forma de ser… Mas como toda mentira que oculta a verdade, eu sabia que atrás daquela armadura existia um ser maravilhoso que um dia despertaria para a realidade…, mas senti ao pensar que neste dia poderia não estar ao seu lado. Talvez neste dia tivesse descoberto que tudo o que passamos fora fruto de um acaso ou de uma realidade fortuita ou ainda de um doce deslize da natureza, e que ela sofreria por descobrir que tudo isso poderia ter se transformado em amor verdadeiro, amor que ela sentiria nunca ter tido igual, amor dependente de uma única palavra, de uma única aceitação que ela teve nas mãos, no coração e nos lábios. Talvez em todo o corpo e em toda alma e um dia o cobraria, mas veria que todo ele partira sem rancor e sem mágoas até… Bem, há coisas, meu filho, que não dependem apenas da vontade do homem, está escrito e determinado e nós estávamos determinados à felicidade, juntos, apenas por um instante, um momento de aprendizagem… Talvez nos preparando para amar de verdade. É… Talvez seja por isso… Ela me escondia alguma coisa, eu bem o sentia como sinto até hoje… Alguma coisa que a fazia ter medo ou até mesmo vergonha, eu não sei… Sabe, por um momento, pensei que ela teve medo ou vergonha de ser simplesmente feliz… Mas isso é algo que irá se desvanecer com ela. Parece que os seres humanos estão fadados ao sofrimento e se glorificam com isso, achando impossível a felicidade e se mantém num constante medo da luz… Talvez eu não tenha sido essa luz. Ora, quanta audácia! É claro que não fui essa luz… Mas como eu gostaria… Oh, meu Deus, como eu gostaria…

Mas veja só! Já é tarde… Eu tenho que ir-me embora.

            — Espere! O senhor não pode ir embora assim, sem me dizer quem é e de onde veio! Fique mais um pouco, por favor, e acabe de contar sua história!

Desculpe, meu filho, mas eu não posso… Já fiquei tempo demais. Na verdade nem podia ter vindo. Mas como encontrei a porta aberta, entrei para tomar uma xícara de chá que há muito não tomava tão gostoso. Deveria experimentar um! Não vai se arrepender… Mas alegre-se, Deus há de lhe dar um bom lugar pelo favor que me prestou…

            — Favor? Mas eu não lhe fiz favor nenhum!

Oh, sim, meu filho, fez sim. Ofereceu-me a liberdade. Tudo o que disse a você estava preso em mim, remoendo-me, castigando-me, fazendo-me sofrer. Você me deixou fazer o que eu gostaria de ter feito há muitos anos: livrar-me desse sofrimento simplesmente me fazendo escutar. Agora eu estou livre de um pesadelo, de um peso que eu carregava e que me forçava a andar sem rumo e sem esperanças. A história já acabou, meu filho, há muito tempo… E graças a você, agora estou livre e posso ir-me embora.

            — Espere, diga-me ao menos o seu nome, senhor… Senhor…

Adeus.

            Ao dizer isso, o senhor se levantou e simplesmente, sem pagar a conta, dirigiu-se à porta e saiu. Tal qual foi minha surpresa que, imediatamente à sua saída, as pessoas começaram a entrar normalmente, algumas conversando, outras sozinhas, tudo dentro da maior normalidade. Olhei para o balcão e não vi mais a atendente que devia estar lá para dentro ajeitando os lanches que os garçons já estavam a postos anotando. O que fiz foi pensar em aceitar o conselho do senhor, chamar um dos garçons e pedir uma xícara de chá.

CAPÍTULO 4

 NO JARDIM DE LISITSA

 Grande Natureza,

leve-me pelo tempo

de suas flores.

Não pedi o chá. Levantei-me, peguei a mala e saí do café. Estava exausto. Precisava dormir. Meu corpo todo pesava, minha cabeça doía. Em meu bolso, as chaves do apartamento me convidavam a ir para casa, deitar em minha cama e esquecer-me do mundo. Como pode? Saí para viajar de férias e em menos de vinte e quatro horas a vida me deu uma rasteira. Não viajei, conheci uma mulher estranha, atraente, mas absolutamente estranha e agora aquele senhor maluco. Adeus! Só pode ser este o seu nome. Ora, então que vá com Deus, Adeus! — disse em voz alta pensando livrar-me daquele senhor de uma vez por todas! Precisava dormir. Mas não queria voltar para casa. Saí de lá para não voltar dentro de um mês e é isso que iria fazer. Ora, mas que estupidez! Se saí de casa para viajar, estava com a mala na mão, o que estava fazendo ali que não ia logo para o aeroporto? E agora sem teatro, sem Luana, sem bola de guizos. Bola de guizos? Levei a mão no bolso do paletó, mas não a encontrei. Remexi nos outros bolsos da calça e nada. Deve ter caído pela rua. Mas isso já me era indiferente. Fui para chamar o táxi, mas achei melhor me sentar um pouco e refazer minhas ideias. Havia uma praça no outro lado da rua e eu poderia esperar um pouquinho. Já havia esperado tanto mesmo e, além de tudo, nem mais sabia os horários de voos. Teria que telefonar para a companhia e me certificar. Isso podia ser feito ali mesmo naquela praça que até era muito agradável. Dirigi-me para lá e escolhi um banco vazio em um local o mais afastado possível das pessoas. Não queria estar perto de ninguém, ouvir ninguém ou ser incomodado por uma bicicleta ou uma bola de um menino qualquer. A praça estava cheia. Pessoas fazendo caminhada, madames passeando com seus cachorrinhos de roupa, crianças brincando e outros simplesmente passando. Mas havia um lugar vazio. Sempre há lugares vazios na vida. E se é assim, por que não seria com um simples banco de concreto? E eu estava louco por um e aquele era meu, só meu. Eu…

            Assim como o girassol, a margarida pertence à família das compostas, plantas estas que se caracterizam por possuir flores com um miolo redondo cercado por pétalas. Foi o que ouvi ao abrir os olhos.

            — O quê?…

            — Você dormiu demais…

            — Eu dormi demais… Dormi?

Sim, eu havia adormecido. Não sei quanto tempo fiquei ali sentado naquele banco de praça. Só sei que havia mesmo adormecido e acordei com aquela mulher agachada de costas para mim, remexendo na terra e falando de flores.

            — Elas são originárias da Ásia e possuem vários apelidos populares, como sempre-viva e bonita. Isso porque existem várias espécies do gênero Bellis que são popularmente confundidas. Mas são mais conhecidas e chamadas simplesmente de “margaridas”. Veja como são belas. Você gosta?

Ao dizer isso, a mulher que estava usando um desses chapéus grandes de jardineiros, virou-se para mim e eu pude ver o seu rosto. Era a moça do café — a que estava no balcão. Antes mesmo que eu pudesse perguntar alguma coisa e ante minha surpresa, ela se adiantou dizendo que aquele era o seu real trabalho e que nas horas vagas atendia no café. Nas horas vagas… Isso me fazia lembrar Luana. Ela também trabalhava nas horas vagas.

            — Escute! Aquele senhor lá no café… Quem é ele?

            — Acho que é você quem deveria me dizer. Todos os dias na mesma hora ele aparece, pede uma xícara de chá e fica lá em silêncio. Hoje, foi a primeira vez que eu o vi conversar e exatamente com você…

            — Mas ele sequer me disse o nome…

— Bem, mas parece que se sentiu aliviado por alguma coisa.

            — É, parece.

— Mas se gosta de nomes, posso lhe apresentar um monte deles. Veja… — e estendeu o braço mostrando a variedade de flores nos jardins da praça.

            — Sabe o nome de todas elas?

            — Oh, sim… Todas! São as minhas meninas. Venha, deixe-me apresentá-las a você.

Por alguma razão, talvez pelo encanto daquela moça que apresentava a mesma naturalidade de Luana e até mesmo do senhor algumas horas atrás, deixei-me envolver por aquele belo sorriso convidativo naquele ofício nada comum de apresentar flores. Algo estava diferente, pois meu espírito questionador e cético até deu sinais de ação, mas, inexplicavelmente, logo o afastei. Estava curiosamente exausto de perguntas e uma vontade enorme de não pensar em nada. Naquele momento, decidi que não queria entender tudo, aliás, não queria entender nada e deixei aquela mulher desconhecida me conduzir pelos canteiros de flores, os mesmos canteiros pelos quais tantas vezes passara perto sem perceber. Mas agora estavam ali sendo apresentados para mim por…

— Qual é mesmo o seu nome? — perguntei.

— Lisitsa.

— Parece nome de flor…

— Existe uma pianista ucraniana com este nome. Valentina Lisitsa. Bem, não toco piano, mas toco as flores e todas elas são, por assim dizer, as minhas músicas.

E foi assim que Lisitsa, não a pianista, mas a florista seguiu me apresentando suas músicas em pétalas, cada qual como uma nota musical que necessita ser executada no momento certo para ser apreciada e percebida agradavelmente, não pelos ouvidos, mas pelos olhos e pela fragrância.

            — As margaridas, por serem pequenas e terem floração durante todo o ano em várias cores diferentes, são muito cultivadas tanto em jardins como estes como em jardineiras em casa.

            — Gostaria muito de ter o “dedo verde”, mas acho que não me dou muito bem com as flores. — disse, lamentando.

            — Se quer mesmo, comece por ter cuidado com o que fala perto delas e o que fala para si mesmo. Elas “escutam” os sentimentos e você acredita neles exteriorizando suas palavras. Venha, deixe-me mostrar a você. As margaridas podem ser plantadas tanto a partir de sementes quanto por mudas como essas. Quanto ao lugar onde se deve plantá-las, devemos escolher um local com boa incidência de sol, podendo ser até mesmo com sol pleno durante todo o dia.

            — Como aquele ali, por exemplo? — disse apontando para um lugar que não havia margaridas.

            — Está vendo como entende de flores? — Lisitsa perguntou com uma doce brincadeira. — A terra deve estar tratada e enriquecida com substrato drenável e adubo orgânico para estimular a floração. E não devemos esquecer-nos de irrigá-las regularmente de forma sempre a umedecer o solo sem encharcar. Viu como é fácil?

            — E aquela ali? — perguntei apontando para outro canto do jardim.

            — Ah, são as azaleias… Lindas, não? Diferentes das margaridas são de origem oriental e florescem até no inverno devido a sua resistência. Na verdade, são arbustos que apresentam flores de diferentes colorações e, por isso, são muito utilizadas de forma decorativa ou compondo cercas vivas floridas, caracterizando-se como plantas de exterior. Pelo fato de serem resistentes, não há a necessidade de protegê-las do sol e elas não morrerão facilmente, mesmo em condições adversas, o que as tornam fáceis de serem cultivadas. É claro que mesmo com essa resistência toda, elas pedem alguns cuidados especiais, como não encharcá-las demais na hora de irrigá-las para não ocorrer o aparecimento de fungos, o que seria terrível para elas. E no caso de aparecerem raminhos mortos, é bom retirá-los.

            — Sabe, — disse convicto — a azaleia é como nós. Mesmo com toda força aparente, precisamos de cuidados. Será que podemos comparar também esses raminhos mortos como os pensamentos que nos atormentam tanto?

            — É por isso que gosto tanto de flores… Fazem-nos compreender melhor o processo das coisas. E, pelo visto, elas estão ganhando um novo admirador e entendedor…

Ri com uma ternura que há muito não sentia e apenas apontei para mais um canteiro de flores me sentindo extremamente bem com aquele tour pelos jardins.

            — Oh, os crisântemos! São originários da Ásia e possuem mais de cem espécies diferentes de flores que podem possuir vários formatos e cores. Dependendo do formato, podem apresentar mais de uma cor misturada, geralmente com uma específica no centro, como o amarelo, o branco, o vermelho, o azul ou o roxo e pétalas periféricas de outras cores, o que os tornam verdadeiros espetáculos. Veja estes… Uma característica interessante dessa flor é que, diferente da maioria que não gosta de frio, ela tem a sua floração principalmente no inverno, o que é bem útil para garantir que o jardim tenha flores durante todo o ano, uma vez que a maioria das flores fica adormecida nesse período. Por isso mesmo, é aconselhável que se cultive o crisântemo em locais protegidos de muito sol. Embora necessite de um pouco de sol, isso pode ser suprido apenas com a luminosidade que entra pelas janelas abertas, caso esteja em casa. Aqui, eles estão plantados neste local em que as árvores e plantas maiores os protegem da incidência direta dos raios solares, facilitando que o solo não fique demasiadamente seco, o que é muito bom para eles. Um dos segredos para ter uma bela flor como essa, é retirar o broto do centro quando ela atingir a estatura desejada. Ela gastará, assim, menos energia para crescer utilizando mais energia para se encorpar.

Lisitsa falava daquelas flores com tanta naturalidade que realmente parecia fácil cuidar delas. O mais interessante é que apesar de utilizar às vezes palavras e expressões didáticas, sua explicação não era maçante, muito pelo contrário, era contagiante e extremamente encantadora. Foi o que disse a ela desejoso de que não parasse e continuasse me apresentando seu jardim. Quando gostamos de algo verdadeiramente, com entrega total àquele sentimento sem nos preocuparmos com qual retorno obteremos daquele ofício ou simplesmente missão, pois era o que me parecia vindo de Lisitsa, tudo acontece em branduras e simplicidade, sem esforço e sem arestas. Foi o que ela mesma me disse em resposta à minha reflexão anterior.

            — Por favor, continue. E aquelas ali, quem são? — perguntei totalmente absorvido e sentindo uma leveza que contrastava com os sentimentos dos últimos acontecimentos.

            — Aquelas são uma das flores mais lindas e simbólicas da natureza… A flor-de-lis. É uma planta originária do México e da Guatemala, sendo uma flor muito bonita e ornamental. Suas flores já foram usadas como símbolos em vários lugares e ocasiões devido ao seu formato peculiar. Elas são bem vermelhas e brilhantes, assim como as folhas de formato laminado que só aparecem depois das flores, o que a torna bela em todo o seu ciclo de vida. É a flor da pureza e da inocência, mas também da força e liderança. Não é à toa que sempre foi utilizada como símbolos de reis. A França é um exemplo disso desde o Rei Luiz que foi o primeiro a utilizá-la e, desde então, ela ainda é um símbolo extraoficial daquele país. Você já leu Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas? Ela também aparece por lá…

Ficava cada vez mais impressionado com a cultura de Lisitsa. Era autêntica, sem afetações. Como podia saber tudo aquilo? Transitava sem dificuldades pela botânica, pela música e agora até pela literatura. Era realmente incrível.

            — O plantio desta planta é feito através de bulbos como estes em solo preparado com uma parte de terra vegetal comum e duas partes de areia, já que gostam de terrenos mais arenosos para se desenvolverem plenamente. Como a areia absorve bem a água, a rega deve ser espaçada em dia sim, dia não. Veja estas como estão lindas…

E assim continuou Lisitsa me apresentando as flores: o girassol, a hortênsia, o lírio, a strelitzia, a violeta, as orquídeas, as rosas… Sorvi o néctar de cada uma das flores nas palavras de Lisitsa. Perdi completamente a noção do tempo na companhia daquela mulher que falava e parecia se misturar às flores até no nome. Quando acabou de falar, surpreendi-me com o por do sol. A tarde já havia caído e eu sequer havia percebido. Olhei para as pessoas que continuavam a passar pela praça, embora o movimento principiasse a diminuir. Agora eram passadas de volta paras as casas. Os cachorrinhos já haviam dado seus passeios, as crianças, já satisfeitas, não mais pedalavam e todos passavam, passavam… Passavam sem perceber, sem se dar conta da beleza ali exposta, da riqueza daquelas histórias — histórias de flores que se tornavam imperceptíveis e totalmente desconhecidas, fragrância sem cheiro para uma multidão de pessoas ocupadas demais que só passavam, passavam… Lisitsa percebeu minha tristeza que voltava a me dominar e, como quem adivinhando meu pensamento, colocou a mão em meus ombros e disse:

            — Conhece Angelus Silesius?

            — Outra flor? — tentei descontrair.

            — Oh, não… Mas alguém que entendeu a sua natureza divina.

            — Então, não seria melhor dizer Lisitsa?

            — Bondade sua… Não chegaria a tanta compreensão…

            — O que tem esse tal Angelus?

            — Tem que ele entendeu que as flores não sentem a tristeza que você está sentindo agora por ver que as pessoas passam sem perceber… Você também não percebia…

            — Sim, é verdade. Já passei por aqui centenas de vezes e nunca percebi nem você… Desculpe.

            — Ora, você não tem o que se desculpar. Tudo tem um momento certo e isso nada tem a ver com esoterismo…

Lembrei-me de que havia tido esse pensamento quando encontrei Luana no dia anterior.

            — É que… Bem, tudo é tão maravilhoso… Por que não percebemos?

            — Porque tudo tem o seu tempo. Jorge, fazemos parte da Natureza. Estamos em comunhão com tudo o que nos rodeia, queiramos ou não, gostemos disso ou não. Não vivemos dissociados de nada. Somos seres interligados uns aos outros, irmanados em um mesmo grande projeto de evolução moral. A evolução é atributo universal e mesmo os mais ignorantes e resistentes, moralmente falando, estão inseridos nesta lei de progresso, cabendo a cada um segundo as suas escolhas. Isso nos dá uma grande autonomia de alongar o nosso processo na vida.

Após uma breve pausa, ela continuou.

— Basta pensar que ela é processual e, sem queimar etapas, nós demoramos mais ou menos tempo em cada uma delas de acordo com nossos aproveitamentos. À semelhança das flores que, sendo sementes no início, vão se preenchendo e, por razão disso, vão se esmerilhando e adquirindo méritos de progresso, todos nós trilhamos o mesmo caminho. Mas também, como muitos, nós nos detemos em algum lugar e nele ficamos muito tempo até que tenhamos aprendido as lições das flores… Muitos se revoltam sem nada adiantar. O máximo que conseguem é adiar ainda mais sua caminhada. A vida está cheia de exemplos do que acabo de dizer.

Estava absorvido pelas palavras de Lisitsa, que continuou com uma doçura e brandura impressionantes.

            — O “esmerilhamento” natural, razão de dor e sofrimento para uns, é bálsamo de alegria e glória para outros que compreendem a alquimia da Natureza. Nela, nossos empréstimos são averiguados, retocados, polidos, lubrificados e alimentados. Empréstimos porque nada dessa vida é inteiramente nosso, a não ser a consciência de dever cumprido e o mérito de seguir em frente.

Lisitsa fez mais uma breve pausa e lançou um olhar de ternura para o seu jardim para, em seguida, arrematar:

— Gosto da palavra alquimia. Alquimia é uma palavra interessante. Sugere transformação e essa ideia nos acompanha desde sempre. É o processo que nos torna vivos, presentes. Pense um minuto na sua respiração. Ela é formada por dois movimentos: inspiração e expiração. Ninguém inspira e expira ao mesmo tempo. Isso é absolutamente impossível. Para que uma exista, a outra precisa findar e, entre uma coisa e outra, é preciso o tempo das esperas. Assim também são as flores. Assim é tudo na vida. Por isso a Natureza é nossa escola maior e eu gosto tanto dessas meninas… Elas nos mostram isso com seus exemplos, suportando os reveses da vida sem murmúrios e lamentações que só lhes atrasariam o caminho. O que muitos enxergam como sofrimento negativo ou, pior ainda, passivo, elas enxergam como processo, como meio. Não é possível chegar sem ter que ir. E não é possível ir sem ter que se transformar a cada instante.

Neste momento, Lisitsa abriu um meio sorriso, abaixou-se me convidando a fazer o mesmo, acariciou delicadamente com a face externa da mão uma rosa que parecia sentir o seu toque e disse:

            — “A rosa não tem por quê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê”. É isso que disse Angelus Silesius, um filósofo. Ou seja, ela simplesmente é. E isso é tudo. Está nela toda a essência da vida numa virtude inabalável. Sejamos assim, Jorge. Sejamos rosas humanas. Para quê mais?

Lisitsa não disse mais nenhuma palavra. Nem era preciso. O que havia acabado de dizer era tão simples e ao mesmo tempo tão belo, resumindo tão maravilhosamente bem o prazer que me proporcionou aquela tarde e com um entendimento tão certeiro dos meus sentimentos, que resolvi novamente não dar chance aos meus questionamentos ao querer saber como ela sabia o meu nome. Devo ter falado em algum momento, certamente. Apenas balbuciei um “obrigado”, talvez o mais verdadeiro que havia dito na vida e disse que precisava ir embora. Ela apenas sorriu. Peguei a mala, ah, a mala… Mas que me parecia mais leve. Talvez pelo costume que havia se tornado carregá-la. Fui me afastando e quando já estava do outro lado da rua, eu me virei e olhei para Lisitsa que, agachada junto as suas flores, apenas me acenou um gesto gracioso com o mesmo sorriso encantador. Eu fiquei ali um tempo ainda parado me lembrando de um poema de Drummond — A Flor e a Náusea. Não podia ser mais adequado. Ante a sensação de desconforto causada pelo enjoo e repulsa da indiferença humana, “[…] uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto […], o tédio, o nojo e o ódio”. Para onde iria agora?

CAPÍTULO 5

 DISCERNIMENTO

 Se as lágrimas

se pudessem escutar,

o que diriam?

“O homem nasce livre, e em todos os lugares está acorrentado”. Esta frase de Rousseau nunca me foi tão providencial como naquele momento. Eu ali parado sem saber o que fazer, para onde ir, com toda liberdade para isso. Minha vontade era desfazer daquela mala e me juntar a Lisitsa me entregando àquela vida de cuidados. Pelo menos, ali sim, tudo seria flores e das mais variadas. E por que não fazia? O que me impedia? Inútil tentar responder. Mas eu queria, voltava a querer encontrar respostas, embora o cansaço me dominasse e a preguiça instalasse um mecanismo em minha mente que só vivia desligado para mim mesmo e me fazia seguir no piloto automático. Inferno de vida. Melhor é voltar para casa, tomar um banho, pedir uma pizza e assistir à televisão. É o que todos fazem mesmo variando, quando muito, o sabor da pizza. Fui caminhando para o ponto de ônibus, pois não queria ir de táxi e chegar tão rápido em casa. Ir a pé até lá também já não queria. O ponto ficava a uns três ou quatro quarteirões de onde eu estava e fui cruzando ruas, virando esquinas, olhando sinais e passando por gente e mais gente. Um carro passou por mim com um som alto e estridente tocando uma dessas músicas da moda. Ante o susto e o incômodo, senti o sangue ferver e um sentimento de ódio me invadiu que desejei que o carro furasse um pneu ou batesse em uma árvore naquele exato momento. Sentir-me-ia vingado daquelas pessoas no carro que, sem mais nem menos, viraram meus inimigos. Vingado de quê? Não sabia. Apenas sentia a irritação tomar conta de mim e crescia ainda mais quando percebi que estava me sentindo culpado. Desejar daquele jeito a desgraça de alguém era insensato. Eles não tinham culpa da minha infelicidade e do meu rancor que crescia por me ver impedido até de odiar. Impedido por quem? Quem me acorrentava? Quem me fazia ter que viver aquela vida estúpida que eu não queria? Quem?

            — Moço, me dá um real?

Quem?! Um menino? Ora, um menino é que não seria… Mas aquele encontro fortuito, inesperado no exato momento daquela pergunta era até estranhamente útil, para não dizer cômico, pois senti imediatamente a pressão da minha cabeça diminuir. Olhei para o menino que também me olhava com a mão estendida. Era uma pequena mão suja de unhas encardidas. Seus olhos me fitavam. Eram olhos grandes, vivos, redondos contrastando com a tristeza daquele corpo miúdo, sem camisa e descalço. Seja com for, aquele encontro esfriou a queimação do ódio em mim e até me senti agradecido àquela criatura. Um menino…

            — Para que quer um real, menino?

            — Estou com fome.

            — E o que acha que vai comprar com um real?

Ele nada respondeu. Apenas subiu e desceu os ombros. Tirei uma moeda do bolso e no instante em que ia entregá-la, meus olhos, sem mesmo saber por que, fitaram um homem encostado em um muro no outro lado da rua. O menino olhou para ele que se desconsertou. Abaixei-me e perguntei já sabendo a resposta…

            — Seu pai?…

O menino abaixou a cabeça sem nada dizer. Não precisava. Num ímpeto de fúria, atravessei a rua e fui apressadamente ao encontro do homem novamente com a raiva nos olhos. A diferença é que agora era uma raiva que eu queria sentir. O homem correu passando pelos carros e sumiu de minha vista. Quando voltei, não mais encontrei o menino que também havia sumido. Sem pensar e, involuntariamente, sentei-me no chão, encostei-me à parede da calçada e me entreguei a um choro convulsivo.

Chorava e nem mais sabia o motivo. Aquele menino realmente me foi útil, afinal, prestando-me um grande favor, pois foi como abrir as janelas da minha alma. Não chorava apenas por ele. Chorava um choro incomum, desses que agora sei que toda pessoa precisa ter um dia. Ali, sentado naquela calçada no final da tarde, chorava os meus medos, as minhas vergonhas, as minhas culpas, os meus ódios, as minhas saudades e os meus cansaços. Chorava, chorava, simplesmente chorava sem vergonha e sem preocupação. Naquele momento, senti-me órfão de tudo e aquela orfandade me desnudava por completo. Chorei até não ter mais lágrimas e, mesmo assim, continuava chorando por dentro, por fora e aquilo me fazia bem. Parece que tudo o que esmagava, comprimindo-me a vida numa pressão insana, soltara-se de uma vez sem chances de segurar. E eu nem queria.  A tristeza havia cedido espaço para a necessidade de chorar. Não há nada melhor do que o suspiro longo que preenche o choro que esvazia.

E foi assim, meio anestesiado pelo choro, que cheguei até minha casa. O apartamento estava qual eu havia deixado, mas parecia que não entrava ali há séculos. Era estranho olhar para as coisas e pensar que eu não deveria estar ali. Em cima da estante ainda estava a capa do CD de Frédéric Chopin que eu ouvia, juntamente com outras músicas, enquanto arrumava as últimas coisas me preparando para viajar. Fechava a mala ao som de Fantasia e Improviso na execução adorável de Valentina Igoshina. A mala… Agora estava livre dela, do incômodo, do fardo que arrastei por dois dias inteiros. Joguei-a na cama onde os lençóis amarrotados denunciavam a minha falta de cuidado e esmero. Saíra sem mesmo arrumar a cama, lavar a louça ou outra coisa qualquer. Coisa de quem mora sozinho e está prestes a sair de férias — pensa no momento e esquece que terá que voltar depois. Fui até a sacada de onde tinha uma vista até privilegiada da cidade, ainda mais àquela hora da noite em que as luzes se acendem. Voltei e corri todo o apartamento com certa tristeza e cada coisa que eu olhava enxergava nela a mesma distância inerte: a louça em cima da pia, a almofada de quina no sofá, a lata de cerveja ao lado do computador, o controle da televisão na mesinha de centro. O silêncio dos corredores. Peguei o controle e liguei a TV passando os canais rapidamente. O jornal estava noticiando o acidente do atropelamento do dia anterior. Desliguei. Não quis ver. Fui até a secretária eletrônica e apertei o botão de mensagem.

 * Piii… Oi, Jorge! Sou eu, Eduardo. Estou ligando para desejar boas férias, amigão! *Piii… Jorge, é Manu. Sei que não vai atender, afinal acabou de sair de férias e tudo o que quer é distância da agência, mas é apenas para dizer que não se esqueça de mim. Beijo. *Piii… Jorge, é Vanessa. É bom tomar cuidado ao sair. A cidade está muito cheia e… *Piii… Jorge,       Vinícus.  Eu… *Piii… E aí, Jorge, é seu brother.  Que tal… *Piii… Oi, Jorge, sou eu, Luana. — estremeci… — Estou ligando para dizer que foi muito sensato em não entrar em minha casa. Era o que deveria fazer. Fez um bem enorme a você mesmo. Parabéns pela escolha. Ah, não se esqueça de molhar a violeta. Agora você sabe cuidar de plantas… E foi ótimo ser um bom ouvinte… Aquele senhor bem que precisava. *Piii…

Caí estarrecido no sofá. Mas que diabo…  O que tinha acabado de ouvir? Não me lembrar de ter dado o número do meu telefone à Luana era o de menos, frente ao que dissera. Como sabia das flores e do senhor no café? Não pensei meia vez. Saí em disparada em direção ao teatro. O que estava acontecendo, afinal? Não saí desnorteado, pois sabia exatamente aonde queria ir. Mas me detive na escada já do lado de fora do apartamento com um pensamento que me fez estremecer não sei se de alívio, susto ou raiva, pois se tudo isso fora uma brincadeira do pessoal da agência eles tinham ido longe demais. Esse foi o meu pensamento. Eles sabiam que eu não tirava férias há muito tempo e eram muito gozadores para uma brincadeira desse tipo, e também já estavam acostumados ao meu espírito curioso, questionador, mas a esse ponto… Fazer-me perder um voo! Mexer com sentimentos a ponto de… Se tudo não passava mesmo de uma brincadeira, eles ultrapassaram de verdade os limites. Seja como for, iria descobrir e já estava a caminho disso.

“O espetáculo começa às vinte e uma horas”. Foi o que ouvi de Luana no aeroporto antes que eu entrasse na maior roubada dos últimos tempos. Essa, de fato, entraria em meu caderno. Cheguei cedo demais, pois todo o casarão estava apagado à exceção de uma luz que vinha do interior. A porta estava fechada, mas como todo o lado externo estava escuro e a arquitetura do prédio era tipo uma ferradura a céu aberto, dava para perceber o clarão pelos lados de onde ficavam os camarins que, na noite anterior, eu havia me encontrado com Calibã. Conferi o relógio e estranhei. Não era tão cedo assim… Vinte horas. Àquela altura era para os atores já estarem se preparando, maquiando. Bem, eles bem que poderiam estar lá dentro fazendo isso. Claro! Subi os poucos degraus que davam acesso à porta de entrada do local da apresentação. Tentei ouvir alguma coisa vinda de dentro. Nada. Se os atores estavam nos camarins, não daria para escutar nada mesmo, pois eles ficavam em um anexo bem ao fundo do prédio. O público não demoraria a chegar e, sendo assim, logo alguém viria abrir a porta. Mas estranho é que o guichê das vendas de ingressos na primeira entrada do prédio também estava fechado. Bem, não queria mais perder tempo. Aliás, eu nem iria assistir àquela peça novamente. Só estava ali para tirar a limpo aquela história com Luana e tinha que ser logo, pois não queria ter que esperar a peça terminar para fazer isso. Bati na porta. Não demorou muito e ouvi passos pelo assoalho de madeira. O silêncio e a escuridão fizeram o barulho das chaves e do trinco aumentarem o dobro o seu ruído. À porta aparece um homem com semblante calmo e tranquilo. Embora não parecesse, era o segurança que, ao me olhar, não disse uma palavra.

            — Boa noite. Eu gostaria de falar com Luana. Será que eu poderia entrar? Não vou demorar muito.

            — Aqui não tem ninguém.

            — Como não? Já são mais de vinte horas… Daqui a pouco, as pessoas já vão chegar… O espetáculo já vai começar! — disse isso tentando descontrair um ambiente que senti meio estranho.

            — Espetáculo? — dessa vez foi o homem que perguntou deixando transparecer um sorrisinho quase imperceptível.

— Sim. Estive aqui ontem, e… Ah, não! Não me diga que ontem foi o último dia! Droga!

O homem deu meio passo para o lado deixando à mostra o que estava atrás dele. Olhei e não vi os grandes painéis e tablados do cenário da noite anterior. Ao invés disso, vi entulhos, parte do guarda-corpo dos corredores jogados no chão e muita sujeira. Nada que lembrava uma peça de teatro, a não ser que o espetáculo fosse outro… Porém, a pergunta do segurança descartava essa possibilidade. Olhei-o curioso e mais do que isso fiquei quando o ouvi dizer as seguintes palavras que me provocaram um estremecimento na alma:

 — O último espetáculo que aconteceu aqui foi há seis anos… De lá para cá, a casa foi esvaziada. Até a escola que funcionava aqui foi para o campus e este lugar está sendo reformado para abrigar alguma coisa da prefeitura, e isso já tem mais ou menos uns dois anos.

— …

Instintivamente, levei a mão no bolso de trás da calça onde havia guardado o programa do espetáculo. Ele estava lá, porém, quando o retirei, ele tinha um aspecto envelhecido e suas dobras, pois eu o havia dobrado ao meio, estavam daquela maneira meio coladas que os papéis ficam quando não são abertos há muito tempo. Passei o olho por todo o programa e meu coração deu um pulo no mesmo instante em que não encontrei ali nem o nome Tempestade, que era o nome do espetáculo, nem o nome de Luana. A filha de Próspero, enamorada de Ferdinando não estava ali. Luana Lemos simplesmente não existia… Pelo menos ali naquele papel agora sendo levado pelo vento e sumindo no escuro, pois, sem saber o que pensar e totalmente sem ação, soltei o braço sobre o meu corpo largando o papel no chão, o mesmo papel que continha toda uma ficha técnica e artística de um espetáculo teatral a que eu havia supostamente assistido, mas não na noite anterior. Sem enxergar mais nada a minha frente, eu apenas ouvi a porta se fechando me deixando entregue àquela escuridão do casarão com apenas uma luzinha tênue vinda lá de dentro, que agora eu sabia não ser dos camarins, mas talvez do quartinho do segurança.  Não me importei com aquilo. Minha cabeça não dava conta de processar nada naquele momento. Não sabia o que pensar. Apenas dei as costas para a porta e, olhando fixo para frente sem me deter em lugar algum, desci as escadas e me dirigi para fora daquela casa.

— Aí, Jorge! Pega a bola! — Não, não estou a fim. — Ah, qual é! Não vai vir jogar com a gente? — Já disse que não estou a fim! — Deixa ele, Guto! É uma mulherzinha mesmo! — Não sou não! — Não é isso que o Evandro falou… — O que ele falou? — Lá no campinho… Nos canos… — É mentira, mentira! — Mulherzinha, mulherzinha… — Elas são assim mesmo, Jorge. Não precisa ficar acanhado. — Elas? Elas quem? — Como elas quem? Aí, Beto! O Jorge pirou só de ver a mulher! — Vai lá, irmão! É toda sua! A gente encontra na saída. — Dá um trago! — Aqui na saída, não! — Porra, Jorge! Vai amarelar? — Aqui na escola tem gente que conhece os meus pais. — Tá com medo da mamãezinha, é? — Pegou tem que pagar! — Mas eu paguei! — Pagou merda! Tá curtindo com a minha cara? Quanto você acha que vale esse bagulho? — Esse menino vai longe, Dona Leonor. — Vai sim, Padre Silvério. Ele é meu orgulho. — Orgulho da mamãe! Que bonitinho… — Para com isso! — Se ela soubesse, hein! — Não fui eu, foi sem querer! — Vai te ferrar! — Você me empurrou pra cima dele! Eu não queria! — Mas agora tá feito! — O que tá feito? Não aconteceu nada! — Não vai dar galho, cara! É só não abrir o bico. — Desonrou a menininha… Quem te viu, quem te vê… —Tem gosto de quê? — Foi sem querer! — Você sempre foi um exemplo, meu filho. — Sua mãe tem orgulho de você. — Tão honesto. — Me deixa, Padre! Pelo amor de Deus! — Deus? Deus?! Olha aí, Diego! — Qual é Jorge! te estranhando, meu irmão! Que papo é esse? — Me deixa, quero viver sozinho! — Que papo é esse? — Me Deixa. Deixa! Sozinho! Quero viver…  Viver… Sozinho.

Desculpem. Preciso transformar-me em pedra. O orvalho insípido e desgostoso não mais é bem vindo, nem ao menos querido; não aos olhos de quem, mas aos olhos meus. Se soubessem, não mais chorariam, ao contrário, cantariam às multidões e gritariam vivas palavras de harmonia. Por que razão não posso eu ser pedras como vocês e, como vocês, rir dos meus cabelos? Veriam que tudo é sinônimo de gracejos, desses que trazemos nos nossos mais sublimes desejos e deles construímos pedras gigantescas, rochas maciças de uma mesma natureza. Desculpem… Mas se puderem ver os meus pés, veriam que eles estão firmes e já sustentam o meu corpo de pedra, não vergam mais como outrora. Ao sinal do vento, fincam na terra e, ao sinal da chuva, já não se preocupam mais. Tenho saudades… Mas não choro por elas pelo simples fato de que não são doloridas. Se uma gota rola pedra abaixo depois de um sereno leve e calmo de uma noite bem dormida, é que pelos sulcos por onde passa existe a eterna graça de um agradecimento silencioso, diluído e fundido em meu próprio ser de pedra, que traz de todos uma continha de ajuda.

Jorge, eu fiquei imaginando o porquê desses acontecimentos inusitados que nos ocorrem de vez em quando. Quando menos esperamos está lá, num ponto de ônibus, no supermercado ou até mesmo numa fila de cinema, ou como aconteceu com você quando estava prestes a viajar ou simplesmente querendo tomar um café e até mesmo dormindo num banco de praça: alguém se aproxima, tira-nos de nosso chão e de nossa mesmice e nos lembra do como somos seres que precisamos nos relacionar. É triste perceber como os dias de hoje, com todas as suas violências e medos, fazem com que reprimamos nossa essência e nos coloquemos naquele lugarzinho onde sentimos donos de nós mesmos. Tudo bem: cautela nunca é demais, mas esse comportamento está ficando cada vez mais insustentável, pois estamos perdendo nossa condição de seres expansivos. Toda vez que isso acontece, isto é, de encontrarmos alguém que nunca vimos e ter com ele um diálogo, como ocorreu com você, quase sempre são pessoas que se nos apresentam como se nos conhecessem há tempos. Tratam-nos com uma naturalidade fora do comum, pelo menos dos padrões que a sociedade forçosamente nos impõe a sermos o contrário. Nesses momentos, fico imaginando o porquê de tais acontecimentos. Coincidência? Normal? Sem grande sentido? Os incrédulos diriam que sim. Quanto a mim, acredito que faz parte de algum acontecimento que “precisava” ocorrer por algum motivo, exatamente naquele momento, com aquela pessoa. Mas quem são elas? Desculpe-me se isso tudo está lhe cheirando meio místico. Não é minha intenção transformar sua experiência num misticismo de porta de loja, tanto porque sei que não se dá muito bem com isso, mas, sinceramente, acho que coisas desse tipo querem nos dizer mais do que realmente são ou imaginamos. Se mesmo assim estiver me achando místico, sustento sua cética impressão, mas com imenso desejo de que se faça claro que falo daquele misticismo dado à vida contemplativa, aquele acontecimento que quer nos dizer alguma coisa, mostrar-nos algo que precisamos enxergar, ou seja, algo que está lá, mas que o nosso medo e preconceito nos impedem de aceitar, sendo mais seguro e confortável relegar o acontecimento como algo normal, sem sentido, ou sobrenatural e sem importância. Caso contrário, estaríamos sendo supersticiosos e esotéricos demais… Repito, não é essa a minha intenção. Mas como sei que não é uma pessoa incrédula, pois alguém que é capaz de se encantar com as flores pode ser tudo na vida, menos incrédulo, gostaria profundamente de saber o que tem a dizer sobre esses acontecimentos.

Não sei como começar… Nem mesmo sei se estou falando com alguém ou comigo mesmo. Mas tenho muito a dizer. Talvez o único começo seja este: não saber sair do lugar. Talvez seja isso que queiram que eu faça. Talvez seja isso que esperem de mim. Mas eles quem? Quem? Nós mesmos? Inferno de frases que, quando grudam na cabeça, ficam como dores que não há remédio que sacie. Lá me vem novamente Rousseau dizendo “todo homem nasce livre, e em todos os lugares está acorrentado”. Sinto-me como aquela história do homem que corre léguas e léguas e quando vê não saiu da palma da mão de Deus. O que tenho a dizer é o que todos nós na realidade já sabemos, mas que no fundo temos medo de admitir: atrás de toda alegria aparente, de toda felicidade construída, esconde uma frustração de não realizarmos nossos mais íntimos desejos. Não quero ser como a maioria que padece sob a pesada sombra das ideologias, esse peso opressivo da imagem do bom moço que nos governa por expectativas restritivas. Meu Deus! Estou filosofando… Veja só, eu nem sequer conheço Deus, mas falo o nome dele a toda hora. Mas não quero ter o desprazer de conhecê-lo em nome de uma ou outra fé fora de mim que o apresenta cada qual como quer que o veja. Não. Quero conhecê-lo por mim mesmo. Por que o meu não pode ser o verdadeiro? Acho que Fernando Pessoa vestido de Alberto Caeiro — ou seria o contrário? — disse isso em algum poema que me lembro de ter lido na faculdade. Algo sobre um menino Jesus que brincava com ele das cinco pedrinhas e adorava pisar nas poças de água. Mas isso é absurdo. Por que não o deixam vir brincar com a gente? Eu o ensinaria a jogar bola, a roubar goiaba, a ser como eu. Porque sou eu que tenho que ser como ele? Não sei por que estou dizendo isso e nem mesmo me lembro das palavras deste poema, mas há outro de que me lembro bem, não de tê-lo lido, mas ouvido em um sarau, certa vez, e que dizia assim:

“Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda hora”.

E mais…

“Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!…”

É isso. O resto são religiões. Sempre achei belas essas palavras. Belas como as luzes da cidade vistas por cima de uma montanha que uma vez subi com um amigo — dos poucos que tive ou me recordo. Subimos a montanha e tivemos a permissão de vermos essas luzes. Era maravilhoso. A sensação que tivemos foi de que podíamos voar ouvindo o vento arfar por cima de nossas cabeças. Mas sabíamos que por trás de toda aquela beleza, de todas aquelas luzes brilhantes existia o medo. O mesmo medo de há pouco. O mesmo que estou sentindo por não saber o que está acontecendo. O mesmo medo que domina e que estraga; que invade e que aprisiona por não querermos ser descobertos. Mas eu quero… Quero ser eu, mesmo com minha dureza de pedra, mesmo com minhas dúvidas e meus erros. Quero poder olhar no espelho e ver alguém conhecido, conhecido para eu mesmo poder contemplar as rugas e as imperfeições do rosto, mas saber que é natural, que é meu, que sou eu…

            Todas essas coisas passavam pela minha cabeça enquanto eu descia a rua, agora sim desnorteado. A mesma rua que eu havia descido com Luana momentos antes. Será mesmo? Àquela hora já não sabia mais nada, o que pensar a respeito daquilo, nada…. Minha cabeça fervilhava perguntas sem respostas, mas abrira, sem mesmo eu saber o motivo, uma janela de questionamentos pessoais num turbilhão de lembranças desconexas que me faziam flutuar da infância à adolescência, virando a página de minha vida madura ou o que eu considerava ser. Conceitos, medos, lacunas trancafiadas no mais recôndito gabinete da minha alma agora se soltavam num frenesi de quem está preso há séculos e, de repente, quase não acredita ao vislumbrar as mesmas janelas abertas. Mas esta liberdade não era suficiente, pelo menos para a cura de que eu necessitava. Porém, naquele momento, eu não sabia disso. Eu não sabia nem o que estava acontecendo, nem mesmo para onde estava indo. Mas, por alguma razão, sabia que era o início de um discernimento.

CAPÍTULO 6

 VERTIGENS

 Quando o sol se põe

deixa em nossa alma

marcas do que foi.

Não! A vida não é uma loteria, uma roleta-russa onde cada um joga suas fichas ou realiza suas apostas e espera para ver o que vai acontecer. A vida, antes disso, é uma construção em que nós somos os executores sem, portanto, abrir mão de nosso livre-arbítrio. É exatamente aqui onde, muitas vezes, nós nos perdemos ao escolher caminhos contrários à nossa direção. E sabe o que muitas vezes acontece? Nós reclamamos e nos revoltamos contra as pessoas, geralmente aquelas que nos são mais próximas e nos amam, e chegamos a um ponto culminante: revoltamos contra nós mesmos.

Sempre achei que Tonho — o Antônio, um amigo de faculdade, fosse um exemplo disso. Lembrei-me dele porque, quando dei por mim, estava em frente ao Borges da Costa, uma espécie de república de estudantes onde Tonho morava. Como disse, Tonho era um amigo de faculdade. Havia estudado com nossa turma de publicidade, mas nunca havia se formado. Isso já ia para oito anos. Hoje, acredito que Tonho sempre se mantivesse na faculdade por causa da república. E assim vinha se arrastando, como ainda acontecia. Muito antes do estudo, o que Tonho desejava mesmo era a vida fácil das baladas, o prazer do sexo e da promiscuidade e o consumo das drogas que o deixavam escondido de suas tristezas e mazelas, embora as manifestasse em sua vida diária. Triste realidade de hoje e eterna enganação própria de um sorriso mentiroso e um espalhafatoso comportamento que fazia todos, mesmo os inicialmente desconhecidos, renderem-se aos seus encantos. Tonho era assim: adorável em sua pele negra lustrosa e feições delicadas. Vestia-se com simplicidade, mas tudo lhe caía bem e lhe dava um ar de artista. Não havia uma pessoa sequer que não o admirasse no primeiro encontro. Eu também o admirei como ainda o admiro. Tonho é meu amigo, apesar de seus caminhos contrários, de sua forma de ver a vida como aposta e de não estar, ou fingir não estar, nem aí para o que virá no dia seguinte. Até que viver assim deve ser bom, mas não com a irresponsabilidade de Tonho, uma irresponsabilidade que me incomodava por vê-lo perdendo tempo. Mas talvez fosse esse tempo perdido que ele queria viver, afinal, e que muitos de nós procuramos. Será? Não sei. O que sei é que eu estava ali e, de repente, seria ele a puxar aquela linha que me embaraçava.

A república era enorme. Não havia sido construída para isso. Como a maioria das coisas na vida, fora adaptada… Era uma construção rústica, enorme. Entrar neste lugar dava a impressão de estarmos indo de encontro a um passado em que as grossas paredes de pedra descascadas, mal cuidadas em tons de cinza, contendo inúmeras pichações, não deixavam pensar, ou pelo menos era difícil enxergar ali como um lugar que, um dia, poderia ter sido novo. Ficava imaginando a construção sendo feita para, logo depois, ser entregue com tudo pintado para servir de… Bem, diziam ter sido um hospital. Até que seu aspecto e arquitetura lembravam isso. O acesso era por uma pequena escada através de uma espécie de alpendre onde, ao passar pela enorme porta, via-se um comprido corredor, logo após um espaço que deveria servir de recepção. Impressionante como o ar era diferente ali dentro. Era um ar abafado, pesado. As portas de um lado e do outro do corredor, que agora serviam de quartos, chamavam minha atenção me fazendo pensar nas vidas lá de dentro: como seria viver ali todos os dias se eu, que mal acabara de entrar, já me sentia perturbado? Além disso, como seria viver ali com os resquícios de sofrimento e dor a espreitarem como fantasmas impregnados naquelas paredes que um dia abrigaram doenças e doentes, choro, sofrimento e mortes? As portas escondiam silêncios e os silêncios escondiam imaginações. Uma delas escondia mais do que isso. Estava lacrada e, com letras vermelhas, denunciava um fato. A palavra morte saía dos meus devaneios e ganhava contrastes realistas pintada com aquela tinta escorrendo parecendo sangue, mostrando que ali havia acontecido um suicídio de um estudante. Esta porta estava assim já fazia algum tempo. Sim, não era a primeira vez que eu entrava ali e sempre que passava por ela sentia um arrepio na espinha e um mal-estar que me fazia sentir um frio no estômago. Além de Tonho, conhecia algumas outras pessoas da faculdade que precisavam se submeter àquela vida sofrida de esperas, enquanto estudavam. Lembro-me de uma colega que sofrera um acidente caindo de uma escada. Ela morava no Borges e eu fui visitá-la. Seu quarto mal cabia uma cama. Aliás, para caber, a cabeceira ficava levemente inclinada encostada na parede, ou seja, apenas os pés inferiores da cama tocavam o chão. E ali ela vivia sonhando com dias melhores, quando ela decoraria apartamentos e casas de luxo por ser formada em designer de ambientes. Vida louca de contrastes cômicos para não dizer trágicos. Mas nem todos os quartos eram assim. Havia outros que contrastavam com essa realidade. Eram enormes, parecendo salões. Neles a pessoa fazia uma disposição mesmo de uma casa, mantendo lá dentro até armário e fogão. Possivelmente, eram os CTI’s ou salas cirúrgicas. Estes lugares eram disputadíssimos e sempre rendiam violência entre os estudantes, já que o bom senso não operava ali por não poder mexer na arquitetura do lugar para dividi-lo. Um deles era o caso do quarto de Tonho. Diria que ele sempre dava sorte nessas coisas, apesar de sua janela dar diretamente para a sala de anatomia da faculdade de medicina que ficava anexa à república. Como a distância era um pouco grande, ele mantinha uma luneta sempre a postos, pois para Tonho era uma diversão ficar na janela observando os estudantes dissecarem cadáveres. Ele já havia até dado nomes para eles e decorado as turmas e os horários que entravam na sala.

— Hoje é o dia da Dona Etelvina. Vão continuar estudando o coração dela. A coitada teve o seu átrio direito todo remexido e agora vão para o esquerdo — dizia Tonho tranquilamente convidando amigos para comparecerem ao seu quarto. Ele mantinha a pauta sempre em dia e sabia os “pacientes” preferidos da turma e o que cada um iria se submeter. Aquele mundo era mesmo uma diversão para o meu amigo que deixava a vida passar sem se preocupar com as marcas que deixava.

O Borges não era apenas um corredor. Eram vários distribuídos em andares. Parecia um grande labirinto cheio de portas, cada qual com seus segredos e vidas paralelas. A luz sempre fraca deixava o lugar mais sombrio em penumbras que, em alguns pontos, transformavam-se em total escuridão em que cada vulto parecia estranhas figuras que eu chamava ironicamente de minotauros urbanos. Era onde víamos de tudo… Gente se drogando, bebendo, caídas no chão não se importando com o odor de urina que exalava fortuitamente de quando em quando, ainda mais naquele dia de festa. Aliás, festa ali era uma constância como na maioria das repúblicas onde estudantes se entregam em aventuras descuidadas. Não entendia como as autoridades deixavam aquele lugar existir até que vi alguns policiais com latas de cerveja nas mãos que, se não fossem as mulheres agarradas aos seus pescoços, poderia supor que estavam ali para colocarem ordem…

Como presumia, não encontrava facilmente o quarto de Tonho naquele labirinto de minotauros. Era bem possível que ele não estivesse lá, e sim embrenhado em algum foco de festa, bebendo e fumando em companhias fáceis e toscas. Embora já tivesse ido ali algumas vezes, sempre fui à luz do dia, no que não estava acostumado a ver ali o que me contavam quando a noite caía. E também, em dia claro não se via tanta gente e muito menos festas. “O que estou fazendo aqui?” Era a pergunta que começava a se estampar em minha cabeça, embora soubesse a resposta. Havia ido procurar Tonho e era isso que eu ia fazer.

Enquanto eu caminhava pelos corredores todos iguais, ia me embrenhando cada vez mais para dentro daquele lugar que começava a me revelar mais amedrontador. Pessoas começavam a aparecer de todos os lados e me olhavam de um jeito estranho; outros me ignoravam completamente. Em um ponto do corredor, fui obrigado a disputar espaço com garrafas e copos de bebidas espalhados pelo chão, misturados às pessoas que se aglomeravam pelos cantos em pé, sentadas e até mesmo deitadas. As fumaças dos cigarros impregnavam o ar e davam um aspecto ainda mais lôbrego àquilo tudo, para mim pelo menos. Parecia não ser a mesma opinião dos que estavam ali que demonstravam plena satisfação naquela Divina Comédia, no que concerne às primeiras caminhadas de Dante ao inferno. A diferença é que eu não sou poeta e tampouco havia ali um Virgílio a me escoltar o caminho. Embora muitos olhares se mostrassem distantes e perdidos em mundos particulares, outros me feriam, como flechas, vindos de mulheres e homens que pareciam adivinhar que eu era apenas um visitante, mas que não impedia uma tentativa explícita de contato imoral e malicioso, às vezes de raiva e desprezo. Foi assim que cheguei ao final de um dos corredores e, já completamente em dúvida se seguia à direita ou virava à esquerda, optei por este caminho logo vendo que estava completamente perdido. “Bela memória, Jorge!” Já havia estado ali algumas vezes e em todas elas me via em um lugar diferente. Deparei-me com uma escada que acessava o andar de baixo e que me deu a total certeza de que estava no local errado, pois nunca a havia visto. Dei meia volta para retornar, mas quando pensei que passaria novamente por aquele entulho de coisas e gente pelo chão e teria que enfrentar, quem sabe, uma abordagem por estar retornando ao mesmo lugar tão rapidamente, achei melhor descer.

Lá embaixo o cenário era ainda pior. Parecia que estava indo de encontro a um pesadelo. A penumbra mais acentuada não impedia de perceber que havia chegado a um grande salão. Não havia dúvidas de que era o centro da festa. Ouvia-se música eletrônica da pior espécie, ritmos esdrúxulos e comandos indecentes que estimulavam mulheres e homens a se agarrarem mutuamente trocando bebidas, drogas e sexo… Como Tonho podia aguentar aquilo tudo? Como podia viver ali? Essas não eram as únicas perguntas que pairavam na minha cabeça. Começava a me questionar como havia ido parar ali. Que diferença de estado d’alma ao lembrar, algumas horas atrás, da companhia de Lisitsa e seu mundo de flores. Desejei ardentemente não estar ali. Parado e olhando para todos os lados, registrando cenas que não gostaria de ver, cheguei a amaldiçoar Tonho e aquele lugar. Começava a me sentir enjoado com tanta fumaça de cigarro e certa vertigem foi me invadindo a alma ao mesmo tempo em que uma pontada na cabeça me fez parar, franzindo o cenho e fechando os olhos. Segundos depois, ouvi uma voz:

            — Ora, veja só… Quem está aqui! Sempre achei que um dia eu o veria neste lugar.

            — Tonho? É você? Cara! Não sei se eu fico feliz ou triste em vê-lo aqui! Vamos embora, por favor!

Disse isso pegando no braço de Tonho que me deu um safanão me jogando para trás.

            — Que Tonho! Olha pra mim! Por acaso tenho cara de homem?

Esforcei-me para enxergar o rosto da pessoa a minha frente. É possível que minha vontade de encontrar Tonho e sair logo dali era tão grande, que fui traído pela minha mente. A penumbra era grande e me forçou a aproximar da pessoa para distinguir sua fisionomia. Para minha surpresa, era uma mulher. Uma mulher que não me era estranha, mas que eu não recordava. Ao abrir a boca para perguntar de quem se tratava, fui violentamente empurrado e jogado ao chão.

            — Qual é? Gosta de mexer com a mulher dos outros?

            — Deixa ele! É o Jorge. Não está vendo?

            — Jorge?

O sujeito me levantou bruscamente e, como quem olha um objeto qualquer, virava o meu rosto de um lado a outro, examinando.

            — Olha aí, pessoal! Olha quem veio para nossa festinha… Seja bem-vindo à casa! Estava sendo aguardado… Xará!

            — Aguardado? Xará? Mas quem é você?

            — Quem sou eu? Quem sou eu??

O sujeito soltou uma gargalhada que me fez estremecer.

— Olha pra mim, Jorge… Você não me reconhece?

Ia crescendo um frisson no ambiente e as pessoas iam chegando para mais perto. Olhava, mas não conseguia reconhecer. Estava começando a sentir muito medo.

            — Sou todas as pessoas que você enganou, Jorge. Todas as pessoas que você fez acreditar que era um bom moço, um orgulho, um exemplo. Mas acabou, Jorge… O seu teatro acabou! Vindo aqui, você se desmascarou. Veja, olha pra você!

Quando olhei para mim, estava completamente nu e uma vergonha, como nunca havia sentido na vida, invadiu-me de tal maneira, que tudo o que eu fiz foi agachar abraçando minhas próprias pernas, ao mesmo tempo em que um estouro de gargalhadas tomou conta do lugar. Olhei em volta com o rosto já banhado em lágrimas e as pessoas apontavam para mim como quem aponta para um bicho de circo. As risadas aumentavam ao mesmo tempo em que bocas enormes pareciam me engolir. Com o tempo, só elas existiam. Bocas sem rostos a rirem e gritarem mentiroso, mentiroso, mentiroso… Olhei ao fundo do salão e vi algo que me fez surpreso. Lá, sentado em uma mesa sozinho, absorto a tudo aquilo e tomando uma xícara de chá calmamente, o Adeus, o senhor do café! A mesma roupa, a mesma postura olhando para a xícara em silêncio. Estendi o braço e fui ao seu encontro, enquanto empurrões e safanões me jogavam de um lado a outro no meio de xingos e risadas. Ao chegar perto do senhor e colocar a mão em seu ombro numa súplica quase desesperada, ele me olhou e eu fui novamente jogado para trás tamanho o susto que levei. O seu rosto se deformou em minha frente. Entre uma deformação e outra, vi ali o rosto de Luana, outras vezes de Lisitsa, metamorfoseando-se em vários outros conhecidos e desconhecidos, até que se decompôs em minha frente entre vermes que invadiram seu nariz e boca ao dizer aquela maldita palavra:

— Adeus…

Senti um puxão pelo braço.

            — Corre, cara! Corre!

            — O quê? Quem?

Olhei e vi Tonho com uma expressão de pânico no rosto. Eu não estava mais nu e ainda estava parado no mesmo lugar. Não foi difícil adivinhar que havia imaginado aquilo tudo, movido, talvez, pelo medo que me invadia e o abafamento daquela sala que me tonteava e o cheiro forte de cigarro e bebida. Pelo menos preferia acreditar assim, mas a realidade daquela visão fora tamanha, que eu custava acreditar em qual mundo eu estava. Se aquele das bocas enormes e rostos disformes ou agora com Tonho agarrado em meu braço me empurrando entre as pessoas. Uma coisa é certa: um alívio e um profundo sentimento de gratidão me invadiam a alma. Mas as coisas não estavam tão melhores assim…

            — Que diabos você está fazendo aqui? — perguntou-me Tonho.

            — Eu vim te procurar. Coisas estranhas estão me acontecendo desde quando saí de férias. Estou desconfiado de que o pessoal lá da…

            — Férias? Você acha mesmo que isso aqui são férias?

            — Claro que não, Tonho! Eu sequer embarquei naquele maldito avião! Vim aqui exatamente para conversar com você. Mas…  Que está fazendo com essa arma? Essa camisa cheia de sangue…

Só agora havia reparado que Tonho segurava uma arma. Não deu mais para ouvir o que Tonho falava. Ele apenas me empurrava no meio de uma confusão de gente que corria para todo lado. Muitos não sabiam o que estava acontecendo, mas corria do mesmo jeito. Uma gritaria e barulho de copos e garrafas quebrando, gritos de pavor misturados aos de perseguição, tiro, tudo isso fazia uma confusão generalizada que logo percebi que a ponderação e a diplomacia não se fariam presentes ali. Resolvi seguir Tonho para onde ele estava me levando, principalmente que supus estarmos indo para fora daquele lugar que eu nunca deveria ter entrado. Gritei para Tonho:

            — Tonho, por acaso é você que está sendo perseguido?

            — Eles sempre me perseguem!

            — Eles? Eles quem? O que você fez? Você atirou em alguém?

            — Foi sem querer, Jorge! Você precisa acreditar em mim! Foi sem querer!

            — O que está dizendo? O que está acontecendo?

            — Eu não aguento mais…

Tonho parou. Logo quatro homens o alcançaram. Envolveram-no e o imobilizaram. A arma ainda em sua mão se misturava ao sangue que envolvia ainda mais o seu corpo, sujando-me um pouco. O semblante dos homens era de fúria e pareciam não se incomodar comigo até o momento em que eu gritei para um deles soltarem Tonho. Ele me olhou com ódio e caminhou para o meu lado no momento em que Tonho falou:

            — Não! Deixe o meu amigo em paz. Ele não tem nada a ver com isso! Jorge! Vá embora… Me desculpe, cara… Eu… Nunca te ouvi… E nunca pensei que você viria aqui. Eu não queria que me visse assim. Só quero que saiba que foi sem querer… Eu não queria jogar! Foi sem querer, sem querer!

Tonho gritava ao mesmo tempo em que os quatro homens o levavam pelos corredores. Reconheci que pelas fardas eram policiais. Tonho, Tonho… O que você aprontou, meu amigo? Fosse o que fosse dessa vez, a coisa parecia ter sido séria… Será que era eu que estava enganado e não Tonho? A vida era, sim, uma loteria, uma roleta-russa em que cada um joga suas fichas ou realiza suas apostas e espera para ver o que vai acontecer?

Com toda aquela confusão, eu acabei sendo conduzido, sem querer, para o mesmo corredor de entrada. Vi lá na frente a porta da rua. Um sopro de alívio e alegria me invadiu, apesar daquele acontecimento trágico que eu sequer sabia de fato o que havia ocorrido. Nem sequer pensei em como estaria na rua àquela hora da noite todo sujo de sangue que Tonho me passara. Mas confesso que tudo o que queria era sair logo dali. Quando fui caminhar apressadamente, escutei uma voz atrás de mim:

            — Ei, você!

Virei-me e vi uma pessoa empunhando um pedaço grosso de pau cingindo-o acima da cabeça pronto para acertá-lo em mim. Neste momento, virei-me novamente para correr e, na minha frente, a visão de alguém conhecido bem perto de mim foi a última que tive antes de sentir o baque na cabeça, que deixou tudo escuro até meu corpo atingir o chão.