BOOKSCREEN A ILHA PERDIDA

A Ilha Perdida livro

barco

CAPÍTULO 1
NA ILHA PERDIDA

A fazenda do padrinho, perto de Taubaté, onde Vera e Lúcia gostavam de passar as férias, corre o rio Paraíba. Rio imenso, silencioso e de águas barrentas. Ao atravessar a fazenda ele fazia uma grande curva para a direita e desaparecia atrás da mata. Mas, subindo-se ao morro mais alto da fazenda, tornava-se a avistá-lo a uns dois quilômetros de distância e nesse lugar, bem no meio do rio, via-se uma ilha que na fazenda chamavam de «Ilha Perdida». Solitária e verdejante parecia mesmo perdida entre as águas volumosas.

Quico e Oscar os dois filhos do padrinho, ficavam horas inteiras sentados no alto do morro e conversando a respeito da ilha. Quem viveria lá? Seria habitada? Teria algum bicho escondido na mata? Assim à distância, parecia cheia de mistérios, sob as copas altíssimas das árvores; e as árvores eram tão juntas umas das outras, que davam a impressão de que não se poderia caminhar entre elas. Oscar suspirava e dizia:

— Se algum dia eu puder ver a ilha de perto, vou mesmo.
Quico perguntava.
— Não tem medo? E se tiver alguma onça morando lá?
— Onça? Não pode ter. Como é que onça vai parar lá no meio do rio?
— Nadando. Ouvi dizer que onça nada muito bem.
Oscar respondia, pensativo:
— Pode ser. Todos os bichos sabem nadar, só a gente precisa aprender; mas eu queria
ver o que há na ilha. Falam tanta coisa…
E ficavam olhando a ilha perdida. Se falavam com o pai, este prometia:
— Quando forem mais velhos, faremos uma excursão à ilha. Arranjaremos canoas apropriadas e iremos até lá.

Os dois meninos chegavam muitas vezes a sonhar com a ilha.
Por ocasião de umas férias, justamente em fins de novembro, chegaram à fazenda Henrique e Eduardo, os dois primos mais velhos de Oscar e Quico. Eram dois meninos de doze e quatorze anos, fortes e valentes. Montavam muito bem e sabiam nadar. Logo nos primeiros dias, percorreram sozinhos grande parte da fazenda; subiram e desceram morros, andaram por toda parte e ao verem o riozinho, onde Vera e Lúcia tinham ido pescar uma vez com padrinho, apelidaram-no de «filhote do Paraíba». Madrinha avisava:

— Vocês não devem andar tão longe de casa; de repente não sabem mais voltar e perdem-se por aí.

Eles riam-se e diziam que não havia perigo; continuavam a dar grandes passeios, e quando ouviam o sino dar badaladas, tratavam de voltar depressa. No terraço da casa havia um grande sino que padrinho costumava tocar todas as manhãs; dizia que era para acordar os dorminhocos, mas quando Henrique e Eduardo demoravam um pouco mais nas caminhadas, padrinho tocava três badaladas, conforme haviam combinado, e eles já sabiam que deviam regressar.
Uma tarde os quatro meninos ficaram no alto do morro olhando a «ilha perdida». Como seria bom se tivessem uma canoa e pudessem ir ver o que havia na ilha. Eduardo, de espírito mais prático, foi logo dizendo:

— Que pode haver lá? Árvores, cipós, ninhos de passarinhos…

Henrique, com a mão no queixo, olhava pensativo em direção da ilha. Depois disse:

— Vou ver se arranjo uma canoa por aí, nem que seja emprestada ou alugada. Impossível que ninguém tenha uma canoa; eu sei remar, aprendi em Santo Amaro com uns primos.

Os olhos de Quico brilharam de contentamento:

— Você sabe mesmo remar?

Oscar disse uma frase que esfriou o entusiasmo de todos:

— Nem pensem nisso, papai não deixa. Já pedi muitas vezes e ele não deixa.

Continuaram a olhar o rio. Henrique perguntou:

— Por que chamam de Ilha Perdida?

Quico explicou:

— Ninguém sabe direito. Decerto porque parece mesmo perdida no meio do rio. Quando viemos para cá, já a chamavam assim. O Bento disse uma vez que morava gente lá, mas não acredito. Acho que é boato, mas os moradores daqui dizem isso.

Os primos ficaram mais interessados:

— Quem mora lá? Será possível? Chame o Bento para perguntar.
Bento era o filho da cozinheira Eufrosina. Quico e Oscar começaram a gritar com toda a
força:
— Bento! Oh! Bento! Vem cá!
Ouviram uma voz lá embaixo do morro respondendo:
— Já vou!
Bento estava recolhendo os bezerrinhos do pasto; quando acabou o serviço, subiu o
morro bem devagar, cansado, suarento e mastigando um capim. Encontrou os quatro
meninos sentados no chão e conversando a respeito do rio.
Henrique perguntou:
– Bento, você sabe se mora gente naquela ilha? Bento olhou em direção da ilha e coçou
a testa:
— Há muito tempo ouvi dizer que morava lá um homem ruim, mas nunca vi nada, não
sei se é verdade.
Eduardo levantou-se e chegou mais perto de Bento:
— Você nunca viu mesmo nada? Nem um sinal de que há gente lá?
Bento hesitou, olhou o chão, tirou o capinzinho da boca e falou:
— Pra dizer a verdade, um dia eu vi uma coisa lá… Os quatro entreolharam-se. Quico
pediu:
— O que foi? Conte, conte.
— Vi uma fumacinha saindo do meio daquelas árvores mais altas lá bem à direita, estão
vendo? Daquele lugarzinho vi uma vez sair fumaça.
— Só uma vez? Veja se lembra, Bento.
— Só uma vez, mas era uma fumaça comprida que ia subindo, subindo até às nuvens.
Oscar perguntou:
— E você não teve vontade de ir ver o que era?
— Eu ainda era pequeno, nem pensei nisso. Vocês nesse tempo ainda estavam em S.
Paulo, não tinham vindo para cá.
Quico disse:
— E por que não nos contou isso antes? Bento respondeu:
— Ué! Nunca ninguém perguntou nada. Agora perguntaram, respondi.
Desse dia em diante, Henrique e Eduardo não falaram mais na ilha, mas não pensavam noutra coisa. Durante o dia, passeavam pelas margens do rio explorando todos os recantos. Alimentavam um único desejo: seguir aquele grande rio e ver a ilha de perto. Quando Quico e Oscar convidavam os primos para irem até o riozinho, eles iam, mas não achavam graça; não gostavam do «filhote do Paraíba». Achavam insignificante aquele riozinho sapeca que dava mil voltas antes de ser engolido pelo grande rio. Um dia Henrique, que andara sozinho até mais abaixo da fazenda, voltou nervoso para casa e segredou ao ouvido de Eduardo:
– Descobri uma canoa velha amarrada lá embaixo na curva grande. Parece abandonada.
Eduardo que estava saboreando um pedaço de goiabada com queijo, quase engasgou de emoção:
– Não diga! Estará boa para navegar?
– Não examinei muito bem; corri primeiro para avisar você.
– Então vamos ver.
Saíram correndo para o lado do rio; nem ouviram a voz da madrinha:
– Não demorem muito, parece que vem chuva. Pulando moitas, desviando-se dos galhos dos arbustos, subindo e descendo barrancos, os dois meninos foram ver a canoa amarrada na margem do rio. Eduardo foi dizendo pelo caminho:
– Não conte a ninguém a história da canoa; se Oscar e Quico souberem, vão contar ao padrinho e não se pode fazer mais nada.
– Não conto nada, nem ao Bento. – Nem ao Bento.
O coração de ambos batia, apressado. Iriam ver, enfim, a ilha verdejante do meio do rio?
Aquela ilha tão bonita com tantas árvores, tanta folhagem, tanta beleza? Devia estar cheia de papagaios, verde de periquitos, enfeitada de flores. Impossível que ali vivesse algum homem ruim; homens ruins não vivem em lugares bonitos como aquele. Quando chegaram ao lado da canoa, ficaram extasiados, imaginando o passeio que dariam até à ilha. Eduardo observou:
— Está bem velha, Henrique; é capaz de encher d´água.
— Qual! replicou Henrique. Eu acho que está bem boa. A gente pode calafetar os lugares onde ela está estragada.
Inclinaram-se e começaram a olhar o fundo da canoa. Henrique pulou para dentro dela e, equilibrando-se, começou a rir:
— Ih! Que bom! Agora, sim, daremos belos passeios. Eduardo era mais calmo:
— Espera, Henrique. Temos que arranjar muita coisa antes: arrumar cola para tapar os
buracos, levar comida para passar o dia inteiro…
— É mesmo, nem me lembrava disso.
— Precisamos de uma caixa de fósforo para acender fogo.
— Isso eu peço pra Eufrosina; a comida também peço pra ela.
— Não vá fazer as coisas de -maneira que eles descubram tudo…
— Não há perigo. Eduardo continuou:
— Temos que levar uma lata com água para beber.
— Água? Pois não há tanta água no rio?
— Mas precisamos de água pura; essa água do rio deve ser suja, é tão escura. Temos que levar também faca ou canivete.
— Levo meu canivete. E o principal é não contar nada lá na fazenda; se desconfiarem de alguma coisa, não nos deixam ir.
— Naturalmente não se conta nada, nem deixamos que eles desconfiem.
Meia hora depois, voltaram para casa, ainda excitados com a novidade. Não dormiram bem durante a noite; Henrique acordou Eduardo duas vezes para perguntar se a canoa não teria dono.
Tinha resolvido seguir para a ilha na terça-feira e estavam ainda no domingo.
Precisavam preparar tudo no dia seguinte.
Na segunda-feira de manhã bem cedo, Henrique teve uma idéia: tirar a canoa do lugar onde estava e escondê-la mais longe; assim, se alguém a procurasse, não a acharia mais Foram para lá e com grande dificuldade tentaram puxá-la para terra, mas não conseguiram; então resolveram cortar muitos galhos de árvore e cobriram-na para que ninguém a encontrasse.
Foram depois falar com Nhô Quim, o homem que lidava com as vacas no estábulo. Ele estava limpando as unhas com a ponta do facão. Eduardo falou:
– Nhô Quim, viemos pedir um favor ao senhor.
Ele enfiou o facão no cinto de couro:
– Oue é que estão querendo? Henrique foi dizendo:
– Uma corda boa, dessas com que o senhor amarra bezerro.
– Gentes, para que querem uma corda?
Eduardo piscou para Henrique e falou:
– Queremos fazer um balanço numa árvore do pomar.
Nhô Quim observou:
– Só falando com o patrão; não posso dar corda assim sem mais nem menos.
Eduardo pediu:
– Ora, Nhô Quim, faça esse favor. Não precisa ser corda muito nova, uma velha mesmo serve; a gente emenda os pedaços ruins.
Pacientemente, Nhô Quim tornou a tirar o facão do cinto, picou fumo bem miudinho para um cigarro de palha e enrolou-o enquanto ouvia as súplicas dos dois meninos. Depois disse:
– Se não importam que a corda seja velha, levem essa que está aí na cerca. Pra alguma coisa ela serve.
– Muito obrigado, Nhô Quim. Muito obrigado.
A corda estava arranjada. Durante a noite, haviam lembrado que, para tapar os buracos da canoa, era preciso estopa e piche. Muitas vezes tinham visto a lata de piche encostada num canto da casa; servia para passar no terreiro onde espalhavam o café. Mas onde arranjar um pedaço de estopa? Foram à cozinha. Eufrosina estava preparando o almoço; Henrique falou primeiro:
— Eufrosina, você tem aí um pedaço de estopa velha? É para enrolar uma avenca muito bonita que encontramos na beira do rio.
Eufrosina voltou-se, despejou na palma da mão um pouco do caldo que estava mexendo e provou estalando a língua:
— Para embrulhar avenca não se precisa estopa. Espere aí que dou um pedaço de pano velho.
Eduardo olhou para Henrique; Eufrosina tornou a provar o caldo e a estalar a língua. Eduardo falou, resoluto:
— Queremos estopa mesmo; se não, não serve. Será que você não arranja? De algum saco velho?
Ela perguntou:
— Não será para alguma reinação? Vejam lá.
— Que idéia, Eufrosina!
— Só depois do almoço, agora estou ocupada.
— Mas onde estão os sacos velhos? Diga só.
— Vão ver na despensa; agora estou ocupada. Que meninos terríveis!
Os dois correram para a despensa e tiraram um grande pedaço de estopa. Levaram para a beira do rio e esconderam-no lá . Só depois do almoço foram tapar os buracos da canoa. Calafetaram tudo muito bem e passaram piche por cima. Havia dois remos, mas um estava quebrado; Henrique emendou-o como pôde. Passaram a tarde toda nesse serviço e depois de terem coberto a canoa com galhos de árvore, voltaram para casa, entusiasmados com o trabalho que julgavam feito com tanta perfeição. Durante o jantar, pediram licença aos padrinhos para no dia seguinte visitarem o fazendeiro vizinho; era um velho que morava a alguns quilômetros de distância. Costumavam ir lá de quando em quando. Padrinho perguntou se queriam ir a cavalo; Eduardo corou e respondeu que iriam mesmo a pé, queriam fazer uma excursão; só pediam alguns ovos cozidos para comerem no caminho. Madrinha deu ordem à Eufrosina para, no dia seguinte bem cedo, preparar um leve almoço para os meninos. Quico e Oscar pediram para ir também, mas madrinha disse que não; era muito longe, iriam a cavalo, num outro dia. Quando se recolheram ao quarto, Eduardo estava sentindo remorso por enganar os padrinhos; falou a Henrique:
— Quem sabe é melhor contar tudo ao padrinho; estamos pregando tantas mentiras.
Eles podem ficar aflitos quando souberem a verdade…
Henrique riu-se:
— Será que você está com medo? Sairemos bem cedo e voltaremos à tarde; eles nem saberão de nada. Contaremos depois que voltarmos; é questão de algumas horas apenas. Se está com medo, não vá; sei remar muito bem, vou sozinho. Eduardo não respondeu e tratou de dormir; mas nenhum dos dois dormiu naquela noite; levantaram de madrugada e foram à cozinha. Lá estava Eufrosina preparando o almoço para eles levarem: linguiça frita, ovos cozidos, pão, queijo e laranjada. Eufrosina fez um grande pacote e deu-lhes também uma garrafa de água. Despediram-se da boa preta e desceram o morro em direção ao rio. Lá estava a canoa preparada na véspera, bem calafetada, a corda embrulhada num canto. Colocaram o almoço no fundo e Henrique preparou-se para conduzi-la rio abaixo. Olharam o Paraíba; estava calmo e as águas espumavam nas margens. Eduardo
observou:
— O rio parece que cresceu, Henrique. Hoje está maior que ontem.
Preocupado em empurrar a canoa para longe da margem, Henrique respondeu:
— Decerto é por causa das chuvas; tem chovido muito nestes últimos dias. Mas nós voltaremos cedo, não há perigo.
Eduardo teve uma ligeira hesitação:
— Não será ruim remar assim? Parece que as águas ficam com mais força.
— Já disse que se você está com medo, fique. Eu vou.
E com o esforço que fez ao empurrar a canoa, Henrique caiu dentro da água molhando-se todo. Não deu a perceber que ficara aborrecido; pulou para cima da canoa e segurou os dois remos. Eduardo, sentado no banco que havia no meio, segurou-se fortemente nas bordas da canoa e olhou para Henrique, cheio de admiração. Com toda calma, Henrique havia depositado o remo quebrado no fundo e com o outro impelia a canoa para longe da margem. Ela começou a deslizar rio abaixo e Eduardo sentiu o coração dar um salto dentro do peito. Pensou coisas horríveis nesse momento: «E se Henrique perdesse aquele remo? E se não soubessem voltar? E se o rio enchesse mais?» Estava muito arrependido e teve vontade de gritar: «Henrique, vamos voltar, eu não quero ir». Mas não teve coragem. Ficou quietinho, equilibrando-se com as duas mãos e olhando o rio que corria, majestoso e tranqüilo. Henrique sabia mesmo remar; fez a canoa deslizar sempre ao lado da margem, de modo que quase podiam segurar os galhos das árvores que pendiam sobre a água. Eduardo começou a achar bonito e Henrique disse:
— Devem ser seis horas agora; o sol está começando a esquentar.
E se Henrique perdesse aquele remo?
E se não soubessem voltar?
E se o rio enchesse mais?
Nesse momento ouviram o sino da fazenda; era padrinho que estava tocando como fazia todas as manhãs. Eduardo perguntou:
— A ilha estará muito longe? Daqui não vejo nada.
Henrique respondeu:
— Nem começamos a navegar e você quer ver a ilha? Está longe ainda.
A canoa descia vagarosamente; de vez em quando Henrique remava um pouco, conservando-a sempre na mesma direção. Viram lindos pássaros nas margens; outros passavam gritando sobre as cabeças dos dois. O dia prometia ser esplêndido. Henrique tirou cuidadosamente o paletó para secar, pois sentia toda a roupa molhada grudada no corpo; a canoa começou a balançar de um lado para outro e Eduardo ficou assustado, mas não disse nada. Henrique estendeu o paletó sobre os joelhos e tornou a segurar o remo. A canoa foi indo… foi indo… O sol batia em cheio no rio e as águas pareciam douradas e prateadas; Eduardo achou bonito e deixou pender a mão na água, depois olhou o fundo da canoa para ver se não entrava água; o serviço havia sido perfeito, o barco estava bem calafetado. Satisfeito, olhou a outra margem; não havia nem sinal de gente, nem de casas para lado algum. Era só vegetação e água. De vez em quando, algum pássaro passava lá no alto, sobre suas cabeças. Procurou ver a casa da fazenda; tudo havia ficado para trás. Não havia nem sombra de habitação e a ilha devia estar longe ainda. Só o rio de águas barrentas e a canoa descendo devagar… Henrique começou a assobiar, despreocupado; para mostrar que também não tinha medo, Eduardo assobiou acompanhando Henrique; depois tomou um pouco da água da garrafa dizendo que estava com sede. Apesar da fome que sentiam, resolveram esperar e almoçar na ilha, nem sequer abriram o pacote do almoço. A canoa foi descendo o rio, seguindo o curso das águas. Viram árvores enormes, flores roxas e vermelhas sobressaindo no verde da folhagem; olhavam sempre para uma e outra margem à procura de gente ou casas, mas só viam água e árvores.Depois de algumas horas, avistaram a ilha. Eduardo foi o primeiro a divisá-la e deu um grito de satisfação:
– Henrique, veja! É a ilha!
Ficou de pé na canoa, mas quase caiu e quase fez a canoa virar; sentou-se assustado. Henrique abriu a boca com admiração. Lá estava ela, toda verde e bonita, bem no meio do grande rio. Árvores frondosas dominavam-na Foram se aproximando cada vez mais, mudos de espanto e alegria. Depois de algumas horas, avistaram a ilha. Eduardo ao avistá-la deu um grito de satisfação. Com o remo entre as mãos, Henrique empurrava a canoa em direção à ilha. A canoa parecia querer descer o rio abaixo porque as águas tinham muita impetuosidade; afinal Henrique conseguiu fazê-la aproximar-se da terra. Com um suspiro de satisfação, os dois meninos pularam para fora da canoa, afundando os pés na lama das margens.

CAPÍTULO 2
NA ILHA

Foi com verdadeira emoção que os dois meninos puseram pé em terra; estavam afinal na célebre ilha. Tudo fora tão fácil, pensou Eduardo, e Henrique era tão bom remador, não deviam arrepender-se da mentira pregada aos padrinhos. Que dia divertido e alegre riam passar ali! Apressadamente tratou de auxiliar Henrique; a primeira coisa que fez o tirar as cordas foi cair dentro da água e molhar-se todo. Ficou todo enlameado, mas começou a rir dizendo que tiraria a roupa logo mais e o sol a secaria em dois minutos. Com alguma dificuldade, puxaram a canoa o mais perto possível da terra e amarraram-na a uma árvore próxima com a corda que Nhô Quim lhes havia emprestado. Eduardo lembrou-se:
— Vamos amarrar bem forte, Henrique. Se a corda arrebentar, estamos perdidos porque a canoa vai por água abaixo.
Dando dois nós, Henrique respondeu:
— Você tem cada idéia… A corda não é tão velha assim, resiste perfeitamente. Veja.
Examinaram para ver se a canoa estava bem segura; tiraram o almoço e a garrafa de água e puseram tudo em terra firme. Depois começaram a olhar à volta, e a caminhar explorando o terreno. Havia arbustos e moitas que eles foram cortando com a faca que haviam trazido; as árvores mais altas, já avistadas de longe, ficavam no interior da ilha. Abriram caminho por entre as moitas e foram andando, levavam o almoço e a garrafa de água, mas não pensavam em comer, tão entusiasmados se sentiam. Quando padrinho soubesse, havia de admirar a coragem deles; e Quico e Oscar ficariam com tanta inveja… Foram andando e chegaram a uma clareira no meio da mata. Eduardo propôs:
— Vamos descansar aqui? Minha roupa está tão molhada que gruda no corpo.
Resolveram então tirar as calças e estendê-las; o sol que passava por entre os galhos era suficiente para secá-las. Assim fizeram; estenderam as calças e os paletós; depois as camisas, depois os sapatos e as meias. Enquanto esperavam que as roupas secassem, abriram o pacote do almoço e comeram a lingüiça com pão e os ovos cozidos. Tomaram água. Henrique resolveu subir na árvore mais alta para ver o que se avistava lá de cima, mas desistiu a meio do tronco e desceu dizendo que preferia esperar a roupa secar; não podia subir só de cuecas porque os galhos machucavam.
Esperaram cerca de meia hora, depois vestiram as roupas ainda úmidas e continuaram a exploração. Subiram nas árvores, cortaram cipós, descobriram frutas que nunca haviam visto antes; de vez em quando, Henrique perguntava:
— Será mesmo habitada esta ilha? Vamos ver se encontramos algum sinal de gente.
— Qual o quê! respondia Eduardo. Quem há de morar aqui neste mato? Só bichos.
E trincava uma fruta entre os dentes para ver que gosto tinha; Henrique avisava:
— Não coma qualquer fruta, pode ser venenosa…
Por mais que observasse, não encontraram sinal de habitação. Depois de caminhar durante algumas horas, viram serelepes pulando nos galhos mais altos; os bichinhos olhavam para os dois meninos com olhos muito vivos, davam grandes pulos e desapareciam entre a folhagem. Eduardo e Henrique acharam graça e começaram a assobiar para chamar a atenção dos serelepes. Às vezes, ouviam o ruflar de asas sobre suas cabeças; deviam ser pássaros que, assustados com a presença dos dois, deixavam seus ninhos e voavam. Mais adiante encontraram uma frutinha vermelha e redonda; começaram a atirá-las para cima a fim de atrair os serelepes; de vez em quando gritavam para ver o que acontecia. Não acontecia nada; parece que os bichos ficavam com medo ao ouvir os gritos e o silêncio então era profundo, nada se movia entre as folhas. Eduardo carregava a garrafa com água e os restos do almoço; encon-traram uma nascente e a água era tão pura que tornaram a encher a garrafa. Quando cansaram de andar, Henrique propôs:
— Vamos voltar ao lugar onde deixamos a canoa? Acho que já é hora de voltarmos para
casa.
— É pena ter de voltar, respondeu Eduardo. Está tão bonito o nosso passeio; por mim,
ficaria mais tempo.
Henrique tornou a falar:
— Pode ficar tarde demais, Eduardo. Estamos longe do lugar onde desembarcamos; andamos mais de uma hora sem parar.
— Então vamos voltar.
Cada um tomou um gole de água e depois iniciaram a caminhada de regresso. Mas quem diz de encontrar o caminho? Eduardo dizia que era à direita, Henrique afirmava que era à esquerda. Ficaram assim discutindo durante uns instantes, depois resolveram caminhar para a direita; andaram uma meia hora e não acharam o caminho por onde haviam passado. Henrique disse:
— Eu não disse que não era por aqui? É para a esquerda que devemos seguir. Vamos voltar outra vez.
Eduardo espantou-se:
— Nem sei mais onde fica a direita e a esquerda. Onde é a esquerda?
— É por aqui. Eduardo disse:
— Eu me lembro que cortei uns galhos desta árvore com meu canivete. Vamos ver.
A árvore parecia a mesma, mas não havia nem sinal de cortes de canivete; Henrique falou:
— Você sonhou; nós não passamos por aqui, foi por outro lugar.
— Passamos, disse Eduardo. Juro que passamos. Foi aqui que paramos para ver os serelepes pela primeira vez.
— Que absurdo, disse Henrique. Tenho certeza que não foi aqui; aqui há frutinhas vermelhas e naquele primeiro lugar onde paramos não havia.
— Você está enganadíssimo.
— Onde estão os cortes de canivete que você fez…?
Eduardo passou a mão pela testa:
— É o que não estou entendendo. Parece que foi aqui, mas não os vejo.
Começaram a ficar inquietos; pararam um pouco à escuta; apenas ouviam o ruído surdo do rio que corria em redor da ilha. Resolveram então andar à esquerda; entre cipós e galhos de espinhos, foram abrindo caminho dentro da mataria; o rio parecia cada vez mais perto, mas nunca chegavam até ele. Eduardo disse de repente:
— Vamos parar para escutar; pelo barulho do rio saberemos onde estamos.
Ficaram imóveis uns instantes e ouviram o ruído do rio correndo sem parar; depois ouviram galhos que estalavam perto deles. Eduardo segurou o braço de Henrique:
— O que será? Você não ouviu o barulho de galhos quebrados?
— Não é nada, disse Henrique. É o vento.
Continuaram a andar; quanto mais se aproximavam do rio, mais o rio parecia fugir. Henrique, até então calmo, começou a inquietar-se; olhou para cima para calcular as horas. Viu as copas das árvores, o céu muito azul e nada de sol. Levou um susto; o sol já desaparecera? Então era tarde, devia ser quase noite. Voltou-se para Eduardo, a voz um pouco aflita:
— Impossível que seja muito tarde; mas parece que o sol já está sumindo.
Eduardo perguntou:
— Pois você não tem relógio? Veja que horas são… Então Henrique contou que o relógio parará nas oito horas e ele não havia percebido; com certeza fora por causa da água que entrara no maquinismo. Não quisera contar antes para não alarmar o irmão. Eduardo assustou-se:
— Então vamos tratar de voltar, pode ser quase noite. Você devia ter-me contado isso antes; temos de descobrir esse caminho de qualquer jeito.
Mas não encontravam o caminho. Se andavam para a frente, entravam cada vez mais na mata; se andavam para a direita ou para a esquerda, a mesma coisa. De que lado estaria  a canoa? Começaram a ficar aflitos, mas um não dizia nada ao outro. Andavam para diante e para trás, sem acertar o caminho. De repente perceberam que não era ilusão; a noite vinha caindo rapidamente. E o que seria deles, sozinhos naquela ilha? E que pensariam padrinho e madrinha, não os vendo voltar da fazenda vizinha? Henrique murmurou:
— Que situação a nossa! Vamos ter calma e procurar com calma.
Eduardo não respondeu e começou a andar para a frente como se tivesse certeza de haver encontrado o caminho certo. Henrique seguiu-o, um pouco desanimado. Estavam cansados e suados; enxugavam os rostos com os lenços, tomavam um gole d’água e continuavam a andar. Os espinhos de alguns galhos batiam nos rostos de ambos, mas eles não se importavam. Tão preocupados em encontrar a canoa, não pensavam noutra coisa.  Quando ouviam ruídos estranhos na mata, paravam um pouco assustados; um segurava no braço do outro e ficavam esperando. Não era nada. De repente, Henrique sussurrou:
— Estou tão cansado… Quase não aguento mais.
Pararam então por alguns minutos e encostaram-se ao tronco de uma árvore grossa que havia ali perto; Henrique passou o lenço outra vez nas faces e no pescoço e pediu:
— Dá um pouco de água…
Eduardo virou a garrafa para baixo, estava vazia sem uma gota sequer. Henrique suspirou e quis fazer-se forte:
— Não faz mal, quando encontrarmos o rio, bebo bastante água.
Olharam outra vez para cima procurando o sol; havia desaparecido. A claridade estava sumindo entre a folhagem. Breve seria noite cerrada. Que fazer? Ficaram escutando    durante alguns minutos para ver se percebiam o ruído do rio; era cada vez mais forte, mas de que lado estaria? O rio parecia roncar, um ronco forte que não tivera antes. Eduardo perguntou com voz trêmula:
— Será que vamos dormir nesta mata?
Henrique fingiu-se muito animado:
— Se tivermos que dormir, dormiremos, ora esta.
— E padrinho? E madrinha?
Ficaram quietos uns instantes, depois Henrique disse:
— Eles vão mandar um camarada à fazenda vizinha e quando souberem que nós não estivemos lá, ficarão tão aflitos…
— Nem fale, Henrique. Já estou tão arrependido. Se soubesse…
— Eu também, mas que podemos fazer? Temos que encontrar a canoa nem que seja para andar a noite inteira. Eduardo teve uma ideia:
— Espere aqui; vou subir nesta árvore e, lá de cima, verei onde estamos.
— É mesmo. Como é que não lembramos disso antes?
Eduardo tirou o paletó e os sapatos e abraçou o tronco da árvore; subiu até chegar aos primeiros galhos e parou quase sem fôlego; Henrique perguntou, todo esperançado:
— Vê alguma coisa, Eduardo?
— Nada ainda. Espere, vou subir mais alto.
E desapareceu entre os galhos compridos, empurrando a folhagem para um lado e outro. Olhou lá de cima — avistou o rio a uma certa distância; suas águas pareciam negras sem a luz do sol brilhante sobre elas. Ouviu a voz de Henrique lá embaixo:
— Está vendo alguma coisa, Eduardo? Estamos longe do rio? De que lado ele fica? Veja bem.
—- Sim, estou vendo o rio.
Henrique tornou a perguntar, disfarçando a aflição:
— De que lado ele está? Veja bem.
Eduardo respondeu:
— Está em todos os lados. À direita, vejo o rio; à esquerda, também vejo. Não entendo.
Henrique pediu:
— Veja bem, Eduardo. Não avista a canoa?
— Não, nada de canoa.
— Então desça.
Eduardo desceu mais animado; calçou os sapatos e vestiu o paletó. Falou:
— Eu acho que a gente indo por este lado, chega lá num instante.
— Então vamos.

CAPÍTULO 3

A NOITE NA ILHA

Resolutamente começaram a caminhar; de repente um galho bateu com força no rosto de Henrique; ele deu um grito.
— Ai! Meu rosto está sangrando…
Eduardo falou quase gritando:
— Enxugue o sangue com o lenço.
Henrique respondeu:
— Estou enxugando. Por que você está gritando desse jeito? Para espantar o medo?
— Não estou com medo, nem estou gritando. Meia hora depois, Henrique parou outra vez:
— Você não viu coisa alguma. Onde está o rio? Já era hora de chegarmos lá.
Eduardo zangou-se:
— Então suba você na árvore e veja se descobre. Por que não subiu antes?
Henrique não respondeu; estava com o paletó nos braços, atirou-o sobre uma moita, descalçou os sapatos e as meias. Procurou à volta uma boa árvore para subir, subiu rapidamente e sumiu entre a folhagem. Ficou quieto lá cm cima. Eduardo perguntou:
— Então? Vê alguma coisa?
A voz dele veio quase sumida lá de cima:
— Vejo o rio…
— De que lado?
— À direita. Já sei, temos que ir para o lado direito da árvore.
Desceu e vestiu-se; caminharam durante uns vinte minutos. Eduardo perguntou:
— Estaremos certos? Acho que você se enganou. Os dois pararam, hesitantes.
Henrique olhou à volta, era quase noite. Ouviram um sapo coaxar ali perto. Perguntou:
— Que faremos?
Ficaram uns instantes em silêncio ouvindo os rumores da mata. Ouviram pios de aves, coaxar de sapos, cricri de grilos; de repente Henrique aproximou-se mais do irmão e segurou-lhe o braço:
— Ouviu?
Eduardo também ouvira um rastejar esquisito ao seu lado, mas fez-se de forte:
— Isso é sapo, dos grandes. – Henrique sussurrou:
— Sapo não rasteja, pula. Deve ser alguém que anda na mata ou algum bicho grande…
— Que tolice. Quem há de ser?
Houve silêncio outra vez. De súbito os rumores foram aumentando; galhos quebravam-se não muito longe deles. Henrique tornou a dizer:
— O que será? Parece que anda alguém na mata; acho que é gente.
Eduardo respondeu com voz trêmula:
— Pergunte quem é; quem sabe é alguém perdido como nós.
— Pergunte você.
Mas nenhum falou; ficaram quietinhos, esperando.
O barulho aumentou; o coração de Eduardo deu um salto:
— Não é possível que seja gente; andamos o dia tudo por aí e não vimos nada, vamos continuar a procurar a canoa.
De repente, choramingou:
— Henrique, estou com um pouco de medo…
— Medo de quê?
— Não sei, de tudo.
— Eu não penso senão na canoa que temos que encontrar. Coragem. ..
Continuaram a caminhar ao acaso, um segurando a mão do outro, tal a escuridão. A noite caíra completamente. Os dois meninos estavam arrependidos de se terem arriscado nessa aventura; tinham vontade de chorar, mas queriam mostrar-se fortes, um para o outro. Depois de terem andado durante algumas horas, sentiram o ar úmido que vinha do rio; o rio estava cada vez mais perto, mas agora isso nada adiantava, pois tinham de passar a noite ali e esperar a madrugada para voltar à fazenda.
Em silêncio caminharam mais um pouco e chegaram afinal à margem do Paraíba; estavam tão acostumados com a escuridão que apesar de ser noite escura, viram as águas do rio correndo bem junto deles. Mas nem sinal da canoa, ela devia estar em algum outro lugar; tinham ido parar num lugar errado.
Não sentiram alegria, nem tristeza por terem chegado à margem do rio; estavam tão cansados que resolveram ficar ali mesmo. Tiraram os paletós, estenderam-nos sobre as moitas e sentaram-se. Não falavam; cada um pensava com tristeza no erro que haviam cometido. Nunca deviam ter feito isso às escondidas do padrinho. Nunca. Que estariam pensando ele, madrinha e os primos naquele instante? Quem sabe estariam aflitos, desesperados mesmo, ao ver que os meninos não voltavam e já era noite fechada? Que arrependimento! Ouviam o coaxar de um sapo enorme; devia estar pertinho deles, tão pertinho que, se estendessem a mão, o tocariam. Viram vaga-rumes passar e tornar a passar diante deles; mais longe um pouco divisavam a massa escura do rio com suas águas profundas e misteriosas.
Eduardo rezou baixinho e recostou a cabeça no ombro do irmão; estava cansadíssimo, mas não queria estender-se sobre a moita; tinha a impressão de que, se se deitasse ali, colocaria a cabeça sobre o sapo que coaxava tão perto. Henrique murmurou:
— Que horas serão, Eduardo? Ele olhou o céu:
— Deve ser meia-noite pelos meus cálculos; que pena não termos relógio. De repente animou-se:
— Temos a caixa de fósforo, Henrique. Como é que nos esquecemos disso? Vamos acender um foguinho, assim espantaremos os bichos.
— Vamos. Onde estão os fósforos?
— Aqui no pacote do almoço.
Apressadamente, Eduardo abriu o pacote e procurou a caixa de fósforos; de fato estava lá. Os dois ficaram contentes e Henrique perguntou:
— Ainda tem alguma coisa para comer? Estou com fome.
Eduardo falou:
— E a sede? Na mata você queria água. Por que não vai beber no rio?
— Tenho medo de escorregar na beira do rio; quando amanhecer, eu bebo.
Enquanto abria o pacote do almoço, Eduardo dizia:
— Temos ainda alguns ovos cozidos, dois pedaços de linguiça e pão. Esquecemos a laranjada, nem comemos.
— Vamos comer então um pedaço de laranjada, o resto fica para amanhã.
— Vamos primeiro fazer a fogueira, depois comemos.
Muito animados, levantaram-se e começaram a procurar pauzinhos secos para a fogueira. De súbito Eduardo deu um gritinho:
— Ih! Peguei numa coisa mole… Henrique sentiu um arrepio:
— Deve ser sapo, no mínimo você pegou no sapo. Por que não acende um fósforo?
— Tenho medo de gastar os fósforos e depois não sobrar nenhum. Devíamos ter trazido vela; o ideal seria uma lâmpada elétrica.
— Nem fale.
Eduardo acendeu um fósforo e os dois debruçaram-se para o chão procurando pauzinhos secos à luz da chama; só viram mato verde e viçoso. Como fazer fogo com aquelas folhas verdes? Henrique pediu:
— Acenda outro fósforo.
Eduardo acendeu e tornaram a procurar; nada. Eduardo sacudiu a mão no ar:
— Ih! Nossa Senhora! Quase queimei o dedo. – Henrique gritou:
— Achei! Achei um pauzinho seco. Acenda outro fósforo.
O irmão acendeu outro; puseram as mãos em concha à volta da chama e encostaram o pauzinho seco. Foi-se esse fósforo, mais outro e outro e nada de conseguirem pegar fogo no pauzinho. Eduardo censurou choramingando:
— Esse. pau estava meio verde, vamos procurar outro… Ah! Meu Deus!
Henrique empalideceu:
— É a enchente, Eduardo! Decerto choveu muito na cabeceira do rio. Que horror! Henrique não quis; disse que podiam assim gastar todos os fósforos e não conseguir fogo. Então resolveram sentar um ao lado do outro e esperar as horas passarem. Ficaram quietinhos esperando.
Cochilaram de madrugada, Henrique recostado no ombro de Eduardo. Eduardo não queria dormir, mas não suportou; de repente estendeu-se nas moitas, enrolou-se no paletó e sentindo a cabeça do irmão encostada em seu ombro, dormiu profundamente; não pensou mais em sapos, nem em bicho algum.
Quando acordaram, viram o rio ali bem perto e o sol que já ia surgindo; levantaram-se e olharam à volta. Eduardo admirou-se:
— Olhe quanta coisa o rio vem trazendo. O que será isso?
Ambos olharam espantados; o rio havia crescido durante a noite de uma maneira assustadora. Estava volumoso e as águas não eram mansas como no dia anterior; eram vagalhões pesados que passavam levando galhos enormes e outras coisas. Henrique empalideceu:
— É a enchente, Eduardo! Decerto choveu muito na cabeceira do rio. Que horror!

Ficaram imóveis, sem poder tirar os olhos do Paraíba; viram passar tábuas, sapatos,  roupas, a metade de uma cadeira, troncos de árvore e, de repente, uma cabra morta. Eduardo estendeu o braço:
— Veja! Uma cabra!
Voltou-se para Henrique, pálido de susto:
— Henrique! Como vamos voltar agora?
O irmão sacudiu os ombros, fingindo-se corajoso:
— Pois não viemos até aqui? Podemos voltar também. Vamos procurar a canoa já, já. Sentiam os membros doloridos por não terem dormido bem. Eduardo começou a andar e a mancar dizendo que todo o corpo doía. Esqueceram-se da sede e da fome e foram à procura da canoa; tornaram a entrar pela mata e tornaram a perder o rumo. Henrique disse:
— Não posso mais de tão cansado. Vamos parar um pouco!
Recostou-se a uma árvore e passou o lenço pelo rosto; foi então que Eduardo reparou no rosto do irmão; estava todo marcado pelos arranhões dos espinhos da véspera. Propôs enquanto descansavam:
— Vamos comer então.
Abriu o pacote, distribuiu os ovos, a linguiça, o pão; comeram sem apetite, tão preocupados estavam. Henrique queixou-se:
— Agora sim é que estou com sede de verdade; e meu rosto está ardendo.
— Quem sabe encontraremos água por aqui? Vamos procurar, assim você lava o rosto.
— É melhor procurarmos o rio, é mais garantido; vamos voltar.
Com a claridade da manhã, logo encontraram o rio, que transbordava com a enchente. Ambos ajoelharam-se à margem, lavaram os rostos, beberam água, mas o líquido era tão
barrento e escuro que Eduardo cuspiu-o com cara de nojo.
Durante mais de uma hora, foram margeando o rio sem encontrar a canoa. Onde estaria?
Por que não haviam marcado bem o lugar onde a tinham deixado? Depois de terem procurado mais um tempo ainda, avistaram-na enfim. Mas deram um grito de susto: a canoa estava presa apenas por um fio de corda.
A correnteza do rio era tão forte que puxava a canoa com força; a corda, que já era velha, foi-se gastando e apenas um fio ainda resistia; as ondas volumosas espumavam à sua volta. Henrique correu e entrou na água, colocou as duas mãos numa das bordas da canoa e, com água acima dos joelhos começou a puxá-la para a margem. Eduardo teve medo:
— Cuidado, Henrique. O rio está puxando muito, pode levar você.
— Não há perigo, venha me ajudar.
Eduardo tirou os sapatos e as meias, arregaçou as calças e foi auxiliar Henrique. Os dois tentavam puxar a canoa para terra, mas foi inútil; a correnteza era muito forte nem parecia aquele rio calmo e manso de um dia antes; rugia e espumava carregando tudo em seu caminho. Henrique gritou:
— Força, Eduardo! Segure com força enquanto vou emendar a corda.
Começou a procurar os . pedaços de corda que estavam dentro da água, misturados com lama e galhos de árvore. Eduardo começou a cansar-se, falou:
— Ande depressa, daqui a pouco não aguento mais, o rio tem uma força danada.
Henrique pediu, suplicante:
— Espere, Eduardo, tenha paciência. Já encontrei uma ponta, falta só emendar; se você não aguenta, estamos perdidos.
E com as mãos molhadas, procurava amarrar essa ponta de corda na canoa; mas com a pressa, atrapalhava-se e a corda escapava-lhe das mãos e caía na água outra vez.
Eduardo gritou:
— Venha você segurar a canoa e deixe a corda por minha conta.
— Você não consegue.
— Consigo. Venha segurar a canoa.
Henrique, nervoso, tornou a prender a canoa com as duas mãos enquanto Eduardo foi tentar amarrar a corda, mas esta estava tão velha que arrebentou duas vezes entre as mãos de Eduardo. Henrique ficou aflito:
— Dobre a corda! Dobre a corda em duas, senão ela arrebenta. Bem Nhô Quim disse que a corda era velha.
Eduardo dobrou a corda, passou pela argola da canoa c conseguiu prendê-la na margem. Com um suspiro de alívio, Henrique correu para auxiliá-lo. Passaram a corda pelo tronco de uma árvore próxima e amarraram fortemente. Quando terminaram o serviço, estavam suados e cansados. Eduardo observou:
— Você está vermelho como uma pimenta.
— E você está como um pimentão.
Ambos tinham manchas rubras nas faces e na testa; principalmente Henrique. Ele sentou-se dizendo:
— Parece que estou com febre de tão quente…
Resolveram esperar a enchente diminuir em vez de tentar a volta imediatamente; tinham esperança que a enchente ficasse menos forte. Estenderam-se ali na margem durante muito tempo, mas a enchente não diminuiu; pelo contrário, aumentou. As águas
cresceram tanto que chegaram até onde eles estavam, e o rio rugia que dava medo. Eles olhavam para cima e para baixo do rio para ver se viam alguma canoa, alguma embarcação qualquer à sua procura, mas nada viam, a não ser água e as coisas que o rio levava na sua correnteza; viram galinhas mortas descendo com as penas estufadas e um cabritinho branco. Tudo aquilo ia rolando, rolando sem parar, misturado com água, lama e espuma.
De repente viram uma árvore inteira que também vinha vindo em direção à ilha; ficaram tão admirados que se levantaram para ver melhor; era uma árvore com flores amarelas e raízes à mostra. Ela rodopiou e foi para mais longe fazendo redemoinhos, depois a correnteza empurrou-a outra vez para o lado da ilha; nesse instante os dois meninos deram um grito de susto: a árvore vinha em direção à canoa!!
Em dois pulos, Henrique correu para salvar a canoa; conseguiu segurá-la com as duas mãos, mas era tarde! A árvore passou dando voltas e arrastou a canoa para o meio do rio; a corda era velha, não resistiu. Eduardo gemeu:
— Ah! Meu Deus!
Henrique não disse nada; ficou mudo assistindo ao desastre; depois escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar. Eduardo correu para o irmão e pôs o braço sobre o ombro dele:
— Ora, Henrique, havemos de dar um jeito. Garanto que a esta hora padrinho já vem em nosso socorro. Vamos esperar.
Henrique soluçava:
— Qual! Como pode adivinhar que estamos na ilha? Ele nunca poderá pensar que viemos  até aqui… Como vamos voltar agora?
– Você vai ver como se arranja tudo; vamos deixar uma fogueira acesa noite e dia; alguém há de ver e contar ao padrinho.
Henrique enxugou as lágrimas com a mão:
— E não temos mais o que comer; vamos passar fome. ..
— A ilha deve ter frutas, temos que procurar, vamos andar por aí em vez de ficarmos
aqui vendo a enchente.
Henrique ficou mais calmo; parou de chorar e disse que estava cansado, queria ficar ali na margem olhando o rio. Sentaram-se um ao lado do outro e ficaram calados, pensando num possível meio de salvação. O tempo foi passando. De vez em quando tomavam um gole de água; quando a sede apertava, esqueciam que a água era suja e barrenta; bebiam assim mesmo. Eduardo perguntou:
— Será que vamos passar outra noite aqui?
— Decerto vamos. Padrinho não pensará que estamos na Ilha Perdida; ela fica muito longe da fazenda e ele nunca há de se lembrar de nos procurar aqui. Eduardo continuou, resoluto:
— Então vamos preparar um lugar para a gente dormir; não podemos ficar muito perto do rio, de repente as águas chegam até nós e nos levam, como levaram a canoa. Elas não param de subir.
Com a faca e o canivete começaram a cortar uns galhos de árvore para fazer um lugar macio a fim de se deitarem. Depois de prepararem uma espécie de cama com folhas largas e galhos finos, Eduardo lembrou-se de procurar alguns paus secos para fazer uma fogueira, se fosse necessário. Entrou na mata e voltou logo depois com uma braçada de pedaços de paus bem secos; amontoou tudo ao lado da cama fazendo uma espécie de caieira. Depois disse:
— Se aqui houvesse uma árvore com tronco bem grosso e largo, poderíamos dormir em cima do tronco, como Tarzan.
Henrique deu um suspiro:
— Ah! Mas Tarzan estava acostumado desde criança; era como um macaco. Nós não poderíamos aguentar. A gente caía logo. Depois de tudo preparado para passar a segunda noite na ilha, Henrique que parecia cada vez mais desanimado, falou:
— Estou outra vez com fome; será que não encontramos nada para comer?
Eduardo sorriu em triunfo, tirando do bolso um pacotinho onde havia um ovo cozido que ele guardara. Disse:
— Olhe, hoje de manhã, quando vi a canoa rodar rio abaixo, guardei bem este ovo para quando tivéssemos fome. Vamos comê-lo agora.
Sentaram-se e devoraram o ovo, cada um a metade. Henrique perguntou:
— E a laranjada? Também acabou?
— Acabou. Agora não temos mais nada para comer.
Depois inclinou-se na beira do rio, tomou uns goles de água e encheu a garrafa para tomarem durante a noite. Henrique também bebeu água queixando-se de que ela estava cada vez mais barrenta. Olharam o céu; as primeiras estrelas já estavam começando a aparecer; olharam o rio durante algum tempo na esperança de que surgisse alguma embarcação que viesse buscá-los. Nada. Somente o rio barulhento e a segunda noite que caía sobre a Ilha Perdida.
Resignados, resolveram deitar-se na cama improvisada: conversaram um pouco:
— Será que padrinho nunca se lembrará de vir nos procurar aqui?
— Não sei, acho bem difícil. Talvez Quico ou Oscar se lembrem.
— Quem sabe o Bento vai se lembrar…
— Mesmo que se lembrem, o rio está tão bravo com essa enchente que eles não poderão atravessá-lo.
— Então como faremos para voltar?
Eduardo sorriu em triunfo, tirando do bolso um pacotinho onde havia um ovo cozido que ele guardara.

CAPÍTULO 4
ABANDONADOS

Ficaram silenciosos durante uns instantes, depois Henrique teve uma idéia:
— E se fizéssemos uma jangada? Temos a faca e o canivete, amanhã trataremos disso.
— Mas como é que se faz uma jangada? Não tenho nenhuma idéia.
— Ora, você não viu a figura de uma jangada nos livros? Cortam-se paus grandes para firmar a jangada; depois, cortam-se paus mais finos para colocar por cima e amarra-se bem firme…
— Amarrar com o que, Henrique? Com os pedaços de corda que sobraram?
Henrique olhou à volta, pensativo:
— Aí na inata deve haver muito cipó; amarra-se com cipós.
Eduardo concordou:
— Vamos tentar; o pior é não termos nada para comer. Como é que a gente pode trabalhar com fome?
— Procuraremos frutas. Amanhã bem cedo, assim que o sol sair, vou procurar. É impossível que esta ilha não tenha frutas; qualquer fruta serve para matar a fome. Eduardo respondeu:
— E precisamos economizar os fósforos. Não sabemos quantos dias ainda ficaremos aqui; precisamos ter sempre fósforos para acender a fogueira. Ao mesmo tempo tenho um pressentimento de que amanhã vamos ser salvos.
— Eu não tenho esperança alguma, disse Henrique.
Pararam de falar porque ouviram um ruído forte que a princípio não compreenderam o que poderia ser. Henrique perguntou, admirado:
— Está ouvindo? O que será? Parece barulho de motor?
— Estou, disse Eduardo. É mesmo barulho de motor; eles vêm nos buscar numa lancha a motor. Eu não disse que estava com pressentimento? Vai dar certo, você vai ver. Vamos depressa fazer uma fogueira para mostrar que estamos aqui.
Levantaram-se e apressaram-se em fazer fogo; deram gritos fortíssimos:
— Estamos aqui. Na ilha!! Socorro!
Perderam vários paus de fósforo antes que a madeira seca pegasse fogo. Afinal uma chamazinha azul começou a se elevar; Eduardo deu gritos de entusiasmo:
— Agora eles vão nos encontrar! Ponha mais pau seco, Henrique! O motor está cada vez mais perto!
Nesse momento o ruído do motor que parecia tão próximo, passou sobre as suas cabeças. Era um avião. Eduardo olhou para cima dizendo desanimado:
— Não é lancha, é avião. Ele não pode nos ver. E vai indo embora tão depressa… Chorou sem parar de falar:
— E perdemos tantos fósforos. . . Se eu soubesse, não tinha feito fogueira…
— Não faz mal, disse Henrique. Vamos deixar a fogueirinha acesa; se alguém vê fogo na ilha, vai contar ao padrinho e ele vem ver o que é. Não chore. Amanhã começaremos a jangada, você vai ver.
Sentaram-se de novo, muito tristes. Logo depois Henrique deitou-se na cama de folhas, pôs o braço sob a cabeça como se fosse um travesseiro e dormiu. Eduardo ficou acordado durante muito tempo, tristonho e pensativo; estava também impressionado com a situação. Se ninguém viesse procurá-los ali poderiam morrer, ou de fome, ou picados por alguma cobra venenosa. Devia haver muitas na ilha; lembrando-se disso, pôs outro pau na fogueira para que nenhum animal se aproximasse; cansado, afinal deitou-se também e dormiu.
Acordaram de madrugada, um pouco assustados com a algazarra que muitas aves faziam
nas árvores ali por perto; algumas eram desconhecidas. Da fogueira que haviam feito na véspera, nem sinal, apenas cinzas ainda mornas. Eduardo disse logo:
— Vamos tratar de procurar alguma coisa para comer; não podemos ficar aqui parados.
— Estou com o corpo todo dolorido, queixou-se Henrique. Nunca estive assim, parece
que tenho febre.
— É porque dormimos no chão e não estamos acostumados, explicou Eduardo. Vamos andar um pouco que isso passa. Tenho ainda um pedacinho de pão e uma «faisquinha» de laranjada que esqueci no pacote. Vamos comer.
Henrique ficou zangado:
— Você me enganou, disse ontem que não tinha mais nada…
Eduardo explicou:
— Nem eu sabia, Henrique. Fiquei tão atrapalhado que não reparei; e depois precisamos poupar munição…
Tomou um pedacinho de pão que já estava bem duro, partiu em dois, colocou sobre eles uns fiapos de laranjada e comeram; comeram bem devagarinho. Quando terminaram, Eduardo falou:
— Agora acabou de verdade; não temos mais nada, temos que procurar.
Sacudiu o guardanapo onde viera o almoço e esvaziou os bolsos para o irmão ver. Henrique lembrou:
– Tenho uma idéia. Vou tirar a camisa e colocá-la num pau bem alto para chamar a atenção de quem passar na margem. Que acha?
— Boa idéia. Mas em que pau será? Deve ser o mais alto possível.
Olharam à volta, à procura de uma árvore bem alta; avistaram um coqueiro bem na beira do rio, mas era tão alto que parecia muito difícil e arriscado subir nele; viram outra
árvore também na margem, Eduardo falou:
— Aquela está ótima.
Henrique tirou a camisa, enrolou-a no pescoço e experimentou subir na árvore, mas não conseguiu. Depois de várias tentativas, voltou-se para o irmão:
— Não posso, meu corpo dói tanto, veja se você consegue.
Eduardo tomou a camisa de Henrique, e começou a subir na árvore; mais de uma vez quase desistiu; parou para descansar e tomar fôlego. Era muito mais difícil do que imaginava; lembrando-se, porém, de que disso talvez dependesse a salvação dos dois, fez um esforço supremo e conseguiu chegar até a copa, junto aos últimos galhos. Sentou-se então lá em cima e descansou; depois cortou alguns galhos com a faca para que aquela parte ficasse bem à vista da margem, amarrou as mangas da camisa à volta de um galho e deixou a fralda solta para que o vento a agitasse; depois desceu rapidamente. Quando pôs os pés em terra, voltou-se para Henrique, a fisionomia alegre: encontrara lá em cima um ninho com cinco ovos. Tirou-os do bolso da calça e colocou-os no chão; eram menores que os ovos de galinha e bem pintadinhos. Eduardo falou, satisfeito:
— Hoje não passaremos fome; temos ovos para comer.
Henrique admirou-se:
— Ovos de quê?
— Não sei; só sei que são ovos e alimentam. Não gosto de desmanchar ninhos, acho isso um ato horrível, mas como é para matar nossa fome, não hesitei. Serão ovos de sabiá? Henrique examinou-os:
— Pode ser que sejam de sabiá; são bem bonitinhos. Mas também podem ser estragados. Xi!, Eduardo, vai ver que é ovo choco.
— Será? Daqui a pouco vamos ver, quero fazer uma fritada.
— Fritada onde? Em que frigideira? Para fritar ovos é preciso uma frigideira…
Só então Eduardo lembrou-se de que não havia jeito de fritar os ovos. Ficou olhando para Henrique, de repente sugeriu:
— E se a gente arranjasse um pedaço de madeira tão dura como ferro e que resistisse ao fogo?
— Onde encontrar essa madeira? Impossível.
Eduardo coçou a cabeça tristemente:
— Ora, se soubesse, não teria desmanchado o ninho. Que pena.
— Vamos procurar alguma fruta, isso sim.
Antes de penetrar na mata, olharam para cima; a camisa de Henrique estava desfraldada
e o vento a agitava como se fosse uma bandeira. Colocaram os ovos no chão e entraram na mata, resolvidos a procurar algum alimento.
O dia estava muito bonito e o sol prometia esquentar mais tarde; a passarada fazia alvoroço nas árvores mais altas. Para não se perderem como no primeiro dia, foram cortando paus e fincando-os pelo caminho para saberem voltar quando quisessem. Andaram durante muito tempo sem encontrar nada. Henrique de vez em quando queixava-se de canseira e de fome. Eduardo examinava todas as árvores procurando alguma fruta, mas nada encontrava.
Assim andando, chegaram ao outro lado da ilha; nesse lugar havia uma espécie de praia e a areia estava cheia de objetos trazidos pela enchente durante a noite. Viram um sapato de criança, pedaços de madeira, uma garrafa. Henrique lembrou:
— Quem sabe há até uma frigideira para fritar os ovos? Procure bem, Eduardo. Eduardo que se afastara um pouco, chamou Henrique com um grito:
— Venha! Depressa!
Mancando um pouco Henrique correu para perto de Eduardo; ali ao lado do irmão erguia-se uma bananeira. Henrique olhou esperançoso, mas que desilusão — não havia cachos de bananas, a árvore era muito nova.
— Deve haver outras, disse Eduardo. Vamos procurar.
Andaram cerca de meia hora pela prainha e encontraram mais adiante um cacho de bananas ainda verdes. Eduardo riu com satisfação:
— De fome não morreremos. Ao menos comeremos bananas.
Henrique tirou o canivete do bolso e auxiliado por Eduardo derrubou o cacho; eram grandes e pareciam gostosas, mas estavam ainda verdes.
— Eu como assim mesmo, disse Eduardo. Tenho muita fome…
Comeram algumas no mesmo instante e as acharam deliciosas; resolveram levar as bananas com todo cuidado para o abrigo improvisado no outro lado da ilha. Descansaram um pouco sobre a areia e batizaram aquela parte da ilha com o nome de — prainha. De repente Eduardo foi ficando pálido e pôs a mão no estômago; fez uma careta:
— Ih! Henrique, acho que estou doente. Estou sentindo umas dores no estômago…
Henrique queixou-se:
— Eu também não estou muito bem, acho que foram as bananas. Quem sabe, bebendo-se água, passa.
Tomaram uns goles de água e ficaram deitados na areia uma porção de tempo. Quando se sentiram melhor, Eduardo propôs ficarem morando na prainha enquanto não viesse socorro; assim como haviam encontrado a bananeira, talvez houvesse outras frutas. Ali mesmo poderiam fazer a jangada que projetavam. Henrique concordou, mas nesse dia ainda dormiriam no outro lado, porque lá haviam ficado os ovos e o pedaço de corda que sobrara da canoa.
Para não perder tempo começaram a trabalhar na jangada; ambos haviam lido num  livro de que forma se faz uma jangada. Cortariam primeiro uns paus mais grossos para fazer a armação; os paus menores seriam postos em cima e amarrados com cipós. Passaram o dia todo e não conseguiram cortar nem um pau, embora manejassem, um o canivete, outro a faca. Quando perceberam, o dia estava declinando. Eduardo propôs atravessar a ilha sozinho e ir buscar os ovos e a corda que haviam ficado no outro lado. Henrique perguntou:
— E se você se perder? Será muito pior.
— Não há perigo. Deixei todo o caminho marcado; fica nesta direção, olhe. Você está mancando e com dor no corpo, eu vou num instante.
— Mas você teve dor de estômago, falou Henrique.
— Agora já estou bom.
Eduardo sentiu vontade de comer mais bananas, mas receou que fizessem mal; bebeu uns goles de água e entrou sozinho na mata prometendo voltar logo. Henrique continuou a procurar paus para a jangada.

CAPÍTULO 5
A ILHA TINHA HABITANTES

De vez em quando Henrique assobiava para disfarçar a solidão. Arrependia-se de haver deixado o irmão ir só; desde que haviam desembarcado na ilha, só haviam cometido erros. E se Eduardo se perdesse? Quando sentiu a fome apertar, comeu outra banana e deitou-se para descansar. Sentia-se cansadíssimo. Fechou os olhos um instante, depois abriu-os novamente e, deitado de costas, ficou olhando o céu.
De repente percebeu uma sombra que se aproximava; voltou-se de lado pensando que era o irmão e já ia perguntar: «Já voltou?», quando viu um homem desconhecido diante dele; tinha barbas compridas, cabelos pelos ombros, estava quase nu. Sobre seu ombro esquerdo carregava um lindo papagaio que olhava fixamente para Henrique.
O homem também olhava Henrique sem dizer nada. Espantadíssimo, Henrique também não falava, parecia mudo. De súbito, o homem perguntou:
— O que está fazendo aqui? Não sabe que esta ilha é minha?
Henrique levantou-se um pouco amedrontado:
— Não sabia, não senhor.
O homem deu uma volta examinando o menino, depois continuou a falar:
— Vivo nesta ilha há muitos anos e não gosto de ser importunado; todos os que vêm aqui, vêm por maldade: para caçar os bichos que são meus amigos. Eu não gosto disso.
— Eu não vim para caçar, disse Henrique. Viemos passear aqui e a nossa canoa rodou rio abaixo. Agora não podemos voltar, estamos fazendo uma jangada para voltarmos. Eu e meu irmão Eduardo. O senhor pode nos ajudar?
O homem sacudiu a cabeça:
— Não acredito em nada do que você está dizendo. Vocês vieram aqui para me espiar, para descobrir minha vida. Pois não terão esse gosto; quem vem por curiosidade fica meu prisioneiro. Acompanhe-me.
Um pouco assustado, Henrique ficou parado na frente dele; depois murmurou:
— Nós não viemos por curiosidade; nenhum de nós acreditava que a ilha fosse habitada. Pode acreditar no que estou dizendo. Meu irmão e eu viemos passear aqui e pretendíamos voltar no mesmo dia quando veio a enchente. Não pudemos voltar e ficamos esperando a enchente passar; nossa canoa rodou, não pudemos voltar. O senhor desculpe, mas precisamos ir embora para nossa casa.
O homem sorriu e coçou a barba comprida. O papagaio gritou:
— Vamos embora, Simão!
O homem passou a mão nas penas do papagaio:
— Quieto, Boni.
Depois falou para Henrique:
— Voltar de que jeito? Você pensa que quem chega até aqui consegue voltar? Está muito enganado, quem vem parar aqui, fica. Acompanhe-me.
Henrique hesitou:
— E o meu irmão Eduardo? O senhor não pode esperar um pouquinho? Ele foi ao outro lado da ilha buscar umas coisas que deixamos lá… Se ele não me encontrar aqui, ficará assustado.
A voz de Henrique estava trêmula; o homem respondeu, meio zangado:
— Deixe de lamúrias e venha comigo. Por que vieram? Isto aqui é meu e ninguém tem direito de tomar o que é meu. Venha.
O homem bateu no peito; Henrique resolveu insistir para mostrar que não tinha medo:
— Faça o favor de esperar Eduardo. Ele não demora, disse que vinha logo…
O homem não deixou Henrique continuar; zangou-se e respondeu:
— Menino teimoso e desobediente. Cale-se. Não diga uma palavra mais. E acompanhe-me bem direitinho, se não vai se arrepender.
O homem começou a andar pela areia; humildemente, Henrique acompanhou-o; sentia dor nos pés e na cabeça. Foi mancando atrás do homem que andava depressa; olhou para trás com pena de deixar a jangada já começada. Entraram pela mata adentro. Henrique teve a idéia de deixar algum sinal para Eduardo saber o que acontecera, mas não havia nada que pudesse fazer. Então espetou o canivete numa árvore pequena na entrada da mata. Eduardo havia de descobrir o canivete enterrado ali e. havia de desconfiar, quem sabe até seguiria o mesmo caminho.
O papagaio começou a cantarolar sobre o ombro do homem; de vez em quando olhava para trás para ver se Henrique vinha seguindo. Andaram em silêncio durante algum tempo; os galhos das árvores batiam no rosto de Henrique e ele nem sentia; percebeu que estava escurecendo e logo seria noite fechada.
Com surpresa Henrique viu de repente um caminho sem arbustos, sem cipós, sem árvores; era uma pequena estrada bem limpa, sem nada que atrapalhasse os caminhantes. Pensou que Eduardo e ele haviam andado tanto através da ilha e não tinham descoberto aquela bonita estrada.
O homem caminhava na frente, sem olhar para os lados e sem falar; dava passos largos como se estivesse muito acostumado a andar por ali. Nesse momento Henrique reparou que ele carregava uma machadinha na cintura.
Chegaram ao fim da estrada; com surpresa, Henrique viu na frente deles uma escadinha de pedra, mas tão escondida entre a folhagem que seria difícil ou quase impossível descobri-la. O homem levantou a folhagem com os braços compridos e, depois que Henrique começou a subir, deixou cair a folhagem novamente e nada mais se viu da escada. Subiram uns degraus até chegar à outra parte da ilha, muito mais elevada que a primeira. Ali devia ser a habitação do homem barbudo; havia árvores pequenas cheias de flores azuis e roxas, papagaios, periquitos, macacos. Era bem a ilha que Henrique imaginara. A bicharada começou a fazer barulho ao ver o homem, mas ele levantou um braço pedindo que ficassem quietos e tudo se aquietou.
Então Henrique viu uma espécie de gruta de pedra em cima de um barranco; ao lado do barranco, duas árvores gigantes. Uma outra escada de quatro degraus, feita de cipós e tábuas, conduzia à porta da caverna. Quando Henrique levantou os olhos para a morada do homem, ficou branco de susto: deitada na entrada da gruta, uma oncinha pintada lambia as patas. Era pequena, mais parecia um gato enorme; tinha olhos amarelados, o pelo brilhante todo cheio de pintas amarelas e bigodes de fios compridos e pretos. Quando viu Henrique passar ao lado, ela levantou-se com o pelo eriçado e assoprou como um gato quando está bravo: ufffff ufffff… Mas o homem falou umas palavras que Henrique não compreendeu e ela acalmou-se. Tornou a deitar-se e a lamber as patas.
* * *
Entraram na caverna. Era bem grande e forrada de areia clara; sobre a areia havia peles de animais e folhas secas; de um lado estava a cama do homem; era feita de tiras de couro trançadas e presas nos paus da cama. Sobre as tiras, estavam estendidas peles de animais servindo de colchão e uma espécie de manta feita de penas coloridas de aves. Nas paredes da gruta, viam-se penas, plantas, armas feitas de pedra. Henrique olhava tudo, mudo de admiração. A oncinha deu umas voltas pela gruta, depois deitou–se na entrada como se fora um cão de guarda.
— E o senhor mora nesta ilha desde moço?
— Desde que eu tinha vinte e poucos anos.
O homem disse a Henrique que se deitasse sobre um colchão de penas de aves; não era propriamente um colchão, mais parecia uma colcha multicor. Henrique estava tão cansado que obedeceu imediatamente; deitou-se e sentiu-se melhor. O homem ofereceu-lhe uma bebida numa caneca feita de madeira; Henrique tomou uns goles e sentiu um gosto amargo. Devia ser feita de frutas ou folhas fermentadas; mas sentiu um grande bem-estar e cerrou os olhos.
Quando os abriu, viu o homem andando de um lado para outro, preparando o jantar; só então Henrique percebeu que já era noite e havia uma lanterna no canto mais escuro da caverna. Era uma luzinha fraca, mas iluminava tudo muito bem. Vendo a chama avermelhada numa vasilha de ferro, Henrique não pôde deixar de perguntar:
— Que espécie de óleo o senhor usa na lâmpada?
— Óleo de capivara, respondeu o homem mexendo a comida no fogãozinho.
— E o senhor mora nesta ilha desde moço?
— Desde que eu tinha vinte e poucos anos.
Henrique queria conversar mais e saber uma porção de coisas, mas o homem barbudo não queria conversa. Henrique ficou meio deitado olhando a luz que o vento fazia oscilar; um ventinho fraco penetrava pela porta da gruta. Depois Henrique perguntou:
— E mora sozinho aqui?
— Tenho vários companheiros, não está vendo? Estão sempre comigo.
Só então Henrique reparou nos outros animais que estavam na caverna: uma tartaruga, uma coruja com olhos muito abertos e redondos e um morcego que começou a andar de um lado para outro arrastando as asas enormes. A coruja e o morcego estavam se preparando para sair; dormiam durante o dia e, à noite, enquanto os outros animais dormiam, eles saíam para percorrer a ilha.

CAPÍTULO 6
HENRIQUE PENSA QUE ESTÁ SOZINHO

esse mesmo instante Henrique ouviu gritos agudos do lado de fora da gruta; eram uma espécie de guinchos. O homem que estava quebrando ovos numa lata, nem se perturbou. Assustado, Henrique olhou para a entrada de pedra e quase deu um grito de espanto: cinco micos entraram um atrás do outro, dando guinchos e piscando os olhinhos muito vivos; ao mesmo tempo mostravam ao homem o que haviam trazido. Alguns deles carregavam um ovo em cada mão e outro enrolado na ponta da cauda; outros traziam frutas apertadas nas mãozinhas negras. Eram maracujás, mas Henrique nunca os vira tão grandes assim.
O homem falou com os micos mostrando-se muito satisfeito e tudo o que eles haviam trazido foi depositado numa cesta feita de cipó. Depois foram para o outro lado, onde havia um grande cacho de bananas maduras e começaram a comê-las, uma atrás da outra. Em seguida aproximaram-se de Henrique cheios de curiosidade por vê-lo ali, e começaram a examiná-lo; um estendeu a mão com muito cuidado e apertou o braço de Henrique, outro cheirou-lhe a cabeça, depois arrancou-lhe uns fios de cabelo e examinou-os bem de perto. Outro ainda sentou-se aos pés de Henrique e inclinando-se começou a olhar-lhe os sapatos com muita atenção.
Henrique achou graça; os miquinhos eram mesmo engraçadíssimos; mas depois foram tomando tal confiança que um deles sentou-se na barriga do menino e começou a dar pulinhos, outro coçou o nariz de Henrique com uma força danada. Henrique pensou:
«Nossa Senhora, ele vai esfolar meu nariz».
Foi então que o homem voltou-se e deu um grito com os micos:
— Um! Dois! Três! Quatro! Cinco! Deixem o menino!
Como se fossem crianças peraltas, os micos largaram a brincadeira e amontoaram-se num dos cantos da gruta, um coçando a cabeça do outro e piscando para Henrique. Ele riu e perguntou ao homem barbudo:
— Eles se chamam Um-Dois-Três-Quatro-Cinco? Que nomes engraçados!
O homem voltou-se para Henrique e disse meio sorrindo:
— Eu não sabia como havia de chamá-los quando os encontrei; estavam meio mortos de fome, a mãe tinha morrido. Contei várias vezes. Um-Dois-Três-Quatro-Cinco e resolvi chamá-los assim. Boni também sabe chamá-los.
— Boni é o papagaio? perguntou Henrique.
— É.
Nesse instante a oncinha entrou muito silenciosamente, pegou um grande osso e começou a roê-lo, apertando-o entre as patas. O homem apresentou a Henrique uma folha larga que servia de prato; sobre ela havia um mexido de ovos e carne que Henrique comeu com a mão; não havia garfos, nem colher. Achou a comida deliciosa e estava curioso por saber que espécie de carne seria aquela, mas não teve coragem de perguntar. Os bichos todos olha-vam para ele, pois era um estranho ali. Para mostrar que
não tinha medo, Henrique levantou-se, tomou um pouco de água que havia num canto dentro dum pote de madeira, depois deitou-se de novo; ainda se sentia cansado.
O homem ofereceu-lhe frutas e mel numa outra folha; ele aceitou e agradeceu outra vez. Achou tudo muito bom, pois estava faminto. Assim que acabaram a refeição, a coruja bateu as asas e voou para fora; o morcego saiu silenciosamente e desapareceu. A oncinha acabou de roer o osso, espreguiçou-se, lambeu-se toda, passou mais de uma vez pelas pernas do homem como se fosse um gato e deixou a gruta, saindo pela noite afora em busca de caça.
O homem apagou a lâmpada e disse a Henrique:
— Trate de dormir; talvez estranhe a cama, mas é só isso que posso oferecer. Boa noite.
— Está tudo muito bom, respondeu Henrique. Nunca pensei encontrar nesta ilha uma
morada tão interessante e tão boa como a sua. Aqui o senhor tem tudo: cama fofa, comida boa, animais amigos da gente. Muito obrigado por tudo. Boa noite. Os micos ficaram juntinhos um ao lado do outro e prepararam-se para dormir; só a tartaruga ficou acordada na entrada da caverna; o papagaio, que estivera andando o tempo todo pela gruta e comera alguma fruta, ficou quieto num canto. Resmungou qualquer coisa e dormiu.
O homem deitou-se no leito de couro e penas e começou a ressonar. Henrique preparou-se também para dormir; nesse momento sentiu o coração apertar-se de tristeza: onde estaria Eduardo? Que pensaria ele não o encontrando na prainha? E os padrinhos? E os pais em São Paulo sem saber de nada? É aquele homem barbudo que o tinha prisioneiro e quase não falava? O que seria dele ali prisioneiro? Até quando ficaria na caverna? Era preciso fugir, sim, fugiria. Na noite seguinte, sairia da caverna enquanto estivessem dormindo e acharia o caminho da prainha.
Não podia ficar sempre na gruta. Impossível. Sentia um vento fresco que entrava pela porta da caverna; voltou-se na cama várias vezes antes de dormir; apalpou as penas, apalpou a cama também. Estaria sonhando? Sim, devia estar sonhando. Parecia impossível que naquela ilha tão perto da fazenda, vivesse um homem solitário numa caverna e rodeado de bichos. Estava sonhando; tudo aquilo era sonho e no dia seguinte tudo seria diferente. Pensando assim, Henrique dormiu.