NA CLÍNICA

Por Leandro Bertoldo Silva

Estava eu com minha esposa em uma clínica para acompanhar a minha sogra em um exame médico, quando uma atendente chamou uma paciente em espera. Logo eu soube ser Sosléia Leão de Almeida, graças à demora da senhora perceber a chamada e fazer a atendente repetir o nome antes escutado por mim como Sossega Leão de Almeida. Pronto! A troca fonética na minha cabeça foi o suficiente para começar a imaginar histórias. O que levaria um pai e uma mãe a batizar uma filha com o nome de Sossega Leão? Para as crianças de hoje em dia até seria uma boa pedida e faria jus ao termo usado no estado do Ceará como espaço gradeado no qual se colocam os pequenos e pequenas para que fiquem em segurança; no popular, cercadinho ou, ainda, chiqueirinho. Não há referência pior e embora muita gente seja contra essa terminologia, inclusive eu, o fato é que as crianças de hoje… Misericórdia! Seja como for, a senhora já passava dos 70 anos, provavelmente criada na rigidez da época. Por que então se chamaria assim? Não fazia o menor sentindo.

Nisso uma outra senhora saiu pelo corredor possessa, soltando fogo pelas ventas e, aos berros, dizia ser a médica a tomar naquele lugar sugerido. Que absurdo, meu Deus! Como alguém estudada poderia dizer aquela barbaridade? O mundo estava mesmo perdido. Assim bradava a mulher a chorar desesperadamente até vir a mesma atendente de antes com a receita da médica nas mãos ao tentar sem sucesso explicar a senhora que ali estava escrito: “Tomar Novalgina de 6 em 6 horas”. Não adiantou. O dito não encontrou outro significado e a senhora, que, aliás, se chamava Ava Gina da Silva e usava um aparelho de surdez, saiu aos prantos a defender sua pureza.

Passada a confusão e ânimos serenados, apesar dos risos de uns e protestos de outros, ambos camuflados, veio novamente a atendente para mais uma chamada.

— Amado Pinto de Oliveira… É esse mesmo o nome?! — já perguntou receosa.

— Por quê? Tem alguma coisa de errado com ele? — levantou um homem dirigindo-se à atendente.

— O senhor é o senhor Amado?

— Amado da minha mãe e Pinto do meu pai, que se chama Oliveira. Sou eu sim, senhora.

— Não há nada de errado, senhor Amado. Queira me acompanhar, sim?

— Não.

— Como não?

— A senhora acha que tem alguma coisa de errado com o meu nome.

— Eu não acho nada, senhor.

— Acha, sim. Por que então ao me chamar a senhora ficou arrastando o meu Pinto? A senhora disse assim: Amado Piiiinnnnto de Oliveira?! E ainda colocou uma interrogação velada no final! Pois saiba que na minha família todos temos Pinto, tanto os homens quanto as mulheres.

— Não há nada de errado com o seu Pinto, Senhor Amado. Posso lhe assegurar isso! — falou mais alto a atendente no exato momento em que entrava uma mãe com sua filha pré-adolescente já a jogar a bolsa para cima e correr a tampar os ouvidos da menina, porém tarde demais, pois se todos gargalhavam copiosamente, a menina certamente havia escutado. O senhor Amado ficou ofendidíssimo por ver todos rindo do seu Pinto, inclusive a filha da mãe, enquanto essa já arrastava a menina para fora, levantava os braços e gritava “valha-me Deus”!

A atendente quis cancelar todas as consultas e a confusão se instalou entre risos e xingamentos. A médica ao ouvir aquela balbúrdia saiu da sua sala e foi ela mesma tomar conta da situação. Enquanto ela tentava acalmar novamente os ânimos, a mãe e a filha pré-adolescente voltaram com um policial.

— É essa a pervertida, seu policial. E essa outra deve ser a chefe dela. Essas mulheres devem ser presas.

— Calma – disse a médica — tudo não passou de um mal entendido. Podemos explicar.

Depois de um tempo considerável tudo se aquietou. A médica resolveu continuar o atendimento e ela mesma fazer as chamadas. Porém, ao passar os olhos pelas fichas e verificar todos os nomes ali escritos chamou a atendente no canto e segredou:

— Vamos precisar de reforços… O policial que saiu daqui não deve estar longe. É melhor chamá-lo de volta ou então é bom preparar um sossega-leão bem forte.

— Sim, senhora.

Ô complicação é nome de gente!  A situação mal tranquilizou e eu fiquei ali a imaginar a Sosléia distribuindo bolsada para todo lado. Cabeça de escritor é coisa muito perigosa…

__________

* Obrigado mais uma vez por sua leitura. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!

11 comentários em “NA CLÍNICA”

  1. Como sempre, crônicas lindas e divertidas, Leandro!
    Lembrou-me a crônica de Carlos Drumond de Andrade: O assalto…
    Fantástica a sua crônica…
    Parabéns!
    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sala de espera de consultório médico é isso. E nossa imaginação não perdoa. Quem mandou bisbilhotar tudo? Rsrs. Boa crônica. Engraçada. Um araço, meu amigo.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ahhh Leandro… Leandro!!! Que maravilha de crônica! Muito divertida e mostra nitidamente como andam afetados o humor e a paciência da maioria das pessoas hoje em dia! As pessoas escutam mal, porque na verdade não prestam atenção, vivem alienadas de si mesmas! Ler você é sempre muito prazeroso, mas, também muito perigoso! Porque você sempre me instiga a relembrar algo parecido que se passou comigo e pronto, acabo deixando um monte de trabalhos enfileirados na espera e lá vou eu escrever também! Rsrrsrsr Bem assim essas cabeças perigosamente férteis de escritores que somos! Adorei!! Parabéns e um forte abraço meu amigo!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s