O ENCONTRO DAS IMPROBABILIDADES

“O nascer do sol…

Que dia será este?

Apostas incertas.”

Essa é a aposta feita na primeira página. Aposta ou evidências de um improvável encontro. Nem sei. O que sei é que acordei nesse domingo, bem cedo, sob o miado de Mia Couto, meu gato, que todos os dias me acorda às seis horas e trinta minutos. Um despertador inusitado. E ele só perdeu a hora no único dia em que dele precisei para um encontro marcado às sete horas mais ou menos. Não me atrasei, mas tive que usar do expediente de dirigir até o local do encontro, eu que pretendia ir a pé.

O encontro de hoje era um pouco diferente. Queria terminar de ler As Janelas da Alma, o livro de Leandro Bertoldo Silva que deixei pela metade no sábado e que estava me intrigando. A narrativa parecia dispersa, ou alucinada. Estaria Jorge, o personagem, sob efeito de uma marijuana mal tragada? Ou ele vivia um sonho, ou pesadelo, desses que a gente tem de vez em quando, onde os encontros e as falas dos personagens sonhados aparecem sem a lógica que a gente pensa sempre em dar a nossos diálogos escritos e falados? Quantas vezes na vida eu também tive sonhos assim? Freud os explicaria, será?

Terminei a leitura com Mia Couto em meu colo e Marlon Brando, meu cão, solicitando minha presença para um passeio na rua, como em todos os dias. E ainda estou sob os efeitos alucinógenos de minha imaginação que sempre insiste em fazer parte, como um personagem invisível, das histórias que gosto. Eu, que tinha, em minha juventude, o hábito de escolher um desconhecido na rua e segui-lo, aleatoriamente, para elucidar sua caminhada e seu destino, comecei a seguir o Jorge nas ruas de Belo Horizonte. Até entrei no Borges da Costa onde, em meus tempos de estudante, ia de vez em quando visitar um amigo que lá morava. Só que esse meu amigo não se suicidou no Borges. Ele foi morto pelos cães da ditadura nos anos setenta.

A leitura não me surpreendeu, na verdade. Ela me pegou de roldão, me conduziu a uns labirintos da memória, dentro dos quais eu não entrava há uns tempos. Eu sabia o efeito que ela, a história, faria em mim desde a metade de ontem. Só que hoje, ao acordar, eu queria logo ser conduzido a essa espiral de reminiscências, de sentimentos que fazem parte de meu espírito tanto leitor quanto escritor. E funcionou. Foi exatamente como eu previa, não o desenrolar do texto, mas a minha sensação de alegria com algo tão bem conduzido e escrito.

Mas, afinal, quem é Leandro Bertoldo da Silva? Eu não tinha a menor ideia de quem ele fosse até umas duas ou três semanas atrás. Foi um verdadeiro encontro das improbabilidades o que aconteceu. De repente esse cara que mora em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, apareceu, virtualmente, em minha vida. Pelo menos a pandemia vivida no momento não impede os encontros improváveis. Eles continuam acontecendo, virtualmente. E aí um agente dos correios bate no meu portão e me entrega um pacote com cinco de suas obras publicadas, presente do próprio, com quem eu havia falado apenas uma vez através da internet, mas a amizade através das fibras óticas aconteceu como um sorteio ganho em loteria.

Relicário Pessoal – Haicais – foi o primeiro. Um raro escritor de haicais aos moldes ensinados pelos mestres japoneses, cinco-sete-cinco sílabas poéticas em uma síntese da beleza estética da natureza.

“As rosas escrevem

Palavras em pétalas.

Verdades sutis.”

Entre Linhas: Contos mínimos, li em seguida. Uma surpresa depois da outra. Os contos são, de fato, mínimos. Uma a duas páginas. Mas o engajamento desse leitor foi ao máximo. Que delícia surfar entre as ondas da Despedida, de O Chamado, das Incertezas, entre outros, condensados de ricas histórias.

Depois li O Menino que Aprendeu a Imaginar, outra delícia. O menino segue uma trajetória muito parecida a tantos meninos, como eu, por exemplo, que não tive tantos livros na infância e juventude, mas fui salvo pela poesia de Rudyard Kipling e Carlos Drummond de Andrade, e pelos Capitães de Areia, de Jorge Amado. Esses caras não só me ensinaram a imaginar como cochicharam em minhas orelhas que eu também podia escrever. E comecei a escrever poesia tão logo ganhei o primeiro beijo na boca.

E chegou a vez de Histórias de um certo Aarão e outros casos contados. Que imaginação desse Leandro Bertoldo! Parecia até que eu ouvia de novo as velhas histórias dos fantasmas de Belo Horizonte. Todas as cidades têm seus fantasmas. Mas os da cidade com a qual você conviveu e convive há tantos anos parecem ser mais reais que os outros. Porque você os encontra de vez em quando, seja em roda de conversa em botequim, seja em histórias recontadas nos teatros.

O que nos dá alegria mesmo é a forma de contar todas estas histórias, com estilo e leveza. Parece uma conversa entre dois amigos que se encontram após uma longa ausência, como se tivessem jogado bolinha de gude na infância, ou roubado jabuticaba, juntos, no pomar daquele vizinho chato, na juventude. Essa sensação de pertencimento às histórias, como se você fosse um personagem, ou mesmo como se as pudesse ter escrito, em forma de poesia, de pintura, de escultura ou nos fornos de cerâmica do Jequitinhonha, como me disse uma vez o filósofo francês Serge Feaucherau, é que faz as grandes histórias e os grandes escritores. Obrigado, Leandro Bertoldo da Silva, por me colocar, sem mesmo me conhecer, e suas histórias. E por mais esse encontro das improbabilidades que me trouxe a outros encontros e tantos novos improváveis (hoje certeiros) amigos.

Paulo Cezar S. Ventura nasceu em Timóteo, Minas Gerais, mas considera-se um cidadão de Nova Lima, cidade vizinha a Belo Horizonte. Cursou a Educação Básica em Nova Lima, fez o antigo ginásio no Liceu Imaculada Conceição e o científico no Colégio Estadual Augusto de Lima. Em 1971 entrou na UFMG para cursar Física, e se formou em 1975. Paulo é escritor e autor de várias obras, entre elas, “Mistérios de Marte”. É editor e fundador da Editora Rolimã.

2 comentários em “O ENCONTRO DAS IMPROBABILIDADES”

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