MEDIAÇÃO AFETIVA DE LEITURA EM UMA ABORDAGEM BIBLIOTERAPÊUTICA

“Uma história pode ser cem vezes mais lembrada do que mil explicações.”
(Jorge Bucay)

Afirmo que gostar de ler é algo absolutamente natural. Isso porque somos seres humanos e, como tais, temos a necessidade de contar e ouvir histórias. Fazemos isso tanto pela escrita como pela oralidade, como também pelas cores, pelos cheiros, pelos sabores, pelo tato e, principalmente, pelos sentimentos.

O que estou querendo dizer é que não lemos somente palavras; lemos a natureza a partir das nossas percepções, das nossas alegrias, expectativas e também das nossas dores, saudades e frustrações, ou seja, lemos e somos lidos, pois fazemos parte das sensações. Uma vez que todos esses sentimentos podem ser interpretados pelas palavras e absorvidos pelos poetas, pelos romancistas e contistas através de tantas obras maravilhosas, infantis e adultas, não há nenhum motivo para não gostar de ler.

“Uma leitura bem levada nos salva de tudo, inclusive de nós mesmos.”
(Daniel Pennac)

Por sempre defender a literatura como uma das formas mais autênticas de desenvolvimento humano, é que me encantei pela Biblioterapia e busquei potencializar um trabalho que já vinha acontecendo desde 2014 na Árvore das Letras, um espaço de linguagem, leitura e escrita, por meio da mediação afetiva de leitura.

Mas o que é Biblioterapia?

Biblioterapia é uma área de pesquisa que enxerga a literatura como um enorme potencial afetivo, no sentido de acolher as pessoas e contribuir com o seu desenvolvimento, não apenas intelectual, mas principalmente emocional, uma vez que as histórias desviam o caminho da razão e vai para o espaço da sensibilidade. Para a professora Clarice Fortkanp Caldin, referência em Biblioterapia no Brasil, podemos defini-la como “o cuidado com o desenvolvimento do ser humano por meio das histórias, sejam elas lidas, narradas ou dramatizadas”.

Tal abordagem não tem como objetivo simplesmente incentivar a leitura; ela acontece como consequência do processo, que busca de forma mais abrangente a conexão, a reflexão, a leveza e o equilíbrio. São esses os benefícios da literatura que ajudarão um pensar e viver autênticos e, com isso, melhorar gradativamente essa relação, desenvolvendo a criatividade e agindo na pacificação das emoções.

“Para transmitir o amor pelas obras literárias é preciso tê-lo experimentado.”
(Michele Petit)

Com base em minha experiência como leitor, mediador de leitura, contador de histórias e escritor, apresento como foi uma prática de leitura realizada com crianças na Árvore das Letras em parceria com a Terra do Sol, na cidade de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que se constituiu em uma verdadeira prática biblioterapêutica, inclusive com um lindo processo de dinamização, processo esse de fundamental importância no contexto da abordagem. O encontro aconteceu em 2019, antes da pandemia.

Abro aqui um parêntese para mencionar que o termo “dinamização” está emprestado da homeopatia não por acaso. O processo de leitura se faz em pequenas doses passo a passo, e nunca de uma só vez sem que a criança se envolva sentimentalmente com a história. Portanto, dinamização é “o conjunto de operações de diluir e agitar soluções com o objetivo de potencializar o medicamento”. Aqui, segundo Carla Sousa, especialista em Biblioterapia, os “medicamentos” são as histórias vindas das “capsulas”, ou seja, os livros, cujo princípio ativo são as metáforas.

A PRÁTICA

A prática em questão foi realizada com 3 crianças entre 4 a 6 anos de idade e seus pais. Tivemos o acompanhamento da artista-artesã Geane Matos e da psicóloga Wal Sabino. O livro utilizado foi “A semente – SOS florestas”, de Eduardo Albini. Todo o encontro foi realizado em um tempo de 1 hora. A temática foi a natureza e a sua preservação, porém as questões abordadas transcenderam a natureza física e versaram também para a natureza pessoal, uma vez que somos todos partes de um mesmo sistema de vida.

O local escolhido para essa prática foi a Terra do Sol, um espaço aberto, onde as crianças e os pais que acompanharam a atividade, puderam estar em contato com plantas, árvores, algumas frutíferas, em um ambiente totalmente acolhedor.

O LIVRO

“A semente – SOS florestas” é um livro de imagens que conta uma história muito simples sobre um menino, sua irmã e uma semente. O plantar uma semente de feijão ou lentilha, regá-la, cuidar dela e vê-la crescer em um germinador é uma das tarefas legais da escola. Mas… que tal se trocarmos os feijões e as lentilhas por outras sementes? Aquela, a daquela árvore que está na calçada, na frente de casa… Ou a que está no quintal da vovó… Ou até mesmo que está no pátio da escola? Fazendo isso, a gente descobre um pouco mais sobre as florestas…

A apresentação do livro para as crianças  iniciou com um momento de conversa e relaxamento. O local foi cuidadosamente preparado com esteiras para se sentar em círculo e, no meio, foi disposto um cesto com pinhas, também conhecida como fruta do conde em algumas regiões.

Como o livro é de imagem, iniciamos cantando com as crianças uma música versando sobre árvores, pássaros e demais elementos da natureza. A seguir, a história foi sendo contada oralmente com a ajuda das crianças à medida que as imagens iam sendo mostradas.

Logo após à leitura, as crianças foram ouvidas em seus sentimentos e sensações a respeito da história e questões sobre preservação, respeito, crescimento, cuidado foram trazidas pelas crianças e cuidadosamente potencializadas.

A DINAMIZAÇÃO

A dinamização se iniciou com os frutos sendo oferecidos às crianças, que os pegaram e os partiram com as mãos depois de higienizadas. Algumas crianças gostaram do sabor, enquanto outras tiveram estranheza com a textura e não quiseram comer, o que reforçou a ideia do amadurecimento das nossas próprias sensações e escolhas. E está tudo bem.

Na história, um garoto, ao passear com seu cãozinho, encontra uma semente na rua. Ele então a leva para sua casa e, com a ajuda da irmã, planta a semente em um recipiente com algodão. Sem saber do que se tratava, vão fazendo várias suposições enquanto, ao longo dos dias, a plantinha vai crescendo. À medida que o tempo passa, a planta cresce cada vez mais enquanto os dois sonham com um lugar cheio de árvores. Ao ver da janela do seu apartamento um jardineiro plantando uma muda de árvore, percebe que se parecia muito com a sua e resolve comparar as duas plantas. Ao ver que se tratava da mesma espécie e que ela crescia muito, telefona para os seus amigos e resolvem plantá-la na floresta, voltando para casa feliz.

Foi neste contexto que as semente de pinha foram distribuídas para as crianças, assim como vasos, terra e água. As sementes foram plantadas pelas crianças, deixando que elas mesmas fizessem todo o processo de fazer as covas, colocar as sementes na terra, tapar e regar com água.

Todo o processo foi feito de forma muito lúdica, conversando com a terra e abençoando as sementes  para que crescessem saudáveis.

O FECHAMENTO

Feito o plantio das sementes, os vasos foram colocados na sombra e todos se reuniram novamente para falar das suas próprias experiências no processo, com a proposta de voltarem dias depois para acompanharem o crescimento da planta e, consequentemente, os seus em termos de vivência e consciência com a natureza e consigo mesmos.

E assim, a atividade foi finalizada.

E foi dessa forma que realizamos um verdadeiro encontro de Biblioterapia em que foi possível a companhia de todos, crianças e pais. Porém, com o momento pandêmico, não é possível tal prática presencial, o que não inviabiliza o processo que pode ser realizado de forma on-line com perdas de alguns recursos, mas ganhos de outros.

O que importa é que as histórias literárias estão repletas de potencialidades de crescimento humano e que a criatividade, o querer, a vontade e, principalmente o amor, nos leva ao cuidado do outro com acolhimento e carinho. O que advém disso é o surgimento de pessoas melhores e um mundo muito mais justo e humano.

4 comentários em “MEDIAÇÃO AFETIVA DE LEITURA EM UMA ABORDAGEM BIBLIOTERAPÊUTICA”

  1. Muito lindo! esse trabalho porque nós aproxima das outras pessoas,e nós ajuda a sermos melhores buscando o que há de melhor no outro é nós curando de vários males através da construção de histórias e leitura do mundo através das mais belas histórias de vida e dos vários escritores e contadores de histórias desse nosso Brasil e do mundo.

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