ENTRE O ANELO E O SUSPIRO

escritora

Por Leandro Bertoldo Silva

 

Aflição de ser água em meio à terra

e ter a face conturbada e imóvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel.

 – Hilda Hilst –

Há momentos de mais puro esquecimento, esses momentos em que nossa alma se liberta em princípio de estado. Como é doce o não ter que ser…

Era o que pensava Jorge. Queria não ter que ser sempre, entregar-se a ele mesmo como as flores se entregam ao orvalho da manhã sem trocas e sem medos. Sempre teve [ou tive?] a visão desse encontro: ora era a flor, ora o orvalho, como ora era o escritor, ora o personagem, sem preferências ou escolhas que viessem destruir os versos que existem “entre o anelo e o suspiro”, como dizia aquela poesia guardada em um naco de memória.

Já era noite e toda noite era assim: nos preparávamos, eu e Jorge, para esquecer, nunca dormir. No esquecimento, não há sonhos – essa arrogância do pensamento. Isso já era eu que achava, em comunhão com meu personagem, que, a essa altura, já não sabíamos quem era ele e quem era eu. Não importa. Calávamos um para o outro no momento exato do esquecimento, fragrância milimétrica de tempo entre o estar acordado e o começar a dormir.

Pronto. Já foi. O barulho recomeça e o sonho invade os nossos pensamentos. Boa noite, Jorge. Amanhã volto a escrever-te.

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