UM CONTO DE JUVENTUDE: A MELHOR MÚSICA DO MUNDO

Um conto de juventude

Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável.

Muita coisa importante falta nome.

 – Guimarães Rosa –

 

Uma vez encontrei um menino sozinho na rua. Estava todo sujo. Estava tão sujo, que eu jurava ver poeira saindo do seu corpo quando caminhava em minha direção. O engraçado é que o tanto que estava sujo era o tanto que estava feliz. Vinha sorrindo, esbanjando contentamento. Carregava uma caixinha de fósforo e nela dedilhou um sambinha e, tão logo me viu, começou a cantar:

Oh, seu moço, por favor, dê um sorriso!

Porque hoje aprendi o que é o amor.

O que é o amor…

— Por que está tão feliz, menino? — perguntei admirado.

— Porque hoje conheci a melhor música do mundo e descobri que ela está dentro desta caixinha! — respondeu-me prontamente.

— Música?! Mas isso não é música! É apenas um batuque!

Ele me olhou de uma maneira tenra e dócil…

— Não, moço… É música! E é tão linda que só os puros podem ouvi-la e reconhecê-la.

— Não é engraçado um rapaz como você, tão sujo, falar de pureza?

Mais uma vez ele pousou em mim um olhar dócil, sorriu e disse:

— Você acha mesmo que eu estou sujo? É, moço… Você não sabe mesmo o que são as coisas do mundo… O que os seus ouvidos e olhos escutam e veem nem sempre são o que realmente se diz ou mostra. Preste um pouco mais de atenção… Eu vou ajudar você.

A partir daquele momento, não mais disse nada. Na verdade, não fora preciso. Ele tocou a caixinha de fósforo de uma forma tão maravilhosa, com uma alegria tão especial, que, aos poucos, fui percebendo a grande música que dali saia e, nessa hora, percebi que não era poeira suja que eu via sair de seu corpo, e sim partículas minúsculas de luz que o envolviam completamente. Foi quando vi como eu estava enganado pelo pessimismo que me afligia e pela arrogância dos mais velhos, que julgam ter o direito de achar ser isso natural.

Quando o jovem me viu diferente, deu um sorriso largo e escultural, sorriso que eu não me lembrava de ter visto igual, e saiu tocando a sua caixinha de fósforo até sumir de minha vista. Quanto a mim, fiquei feliz. Ele está por aí, na sua missão de caixinha. Por isso, repare em todas as pessoas “sujas” que encontrar pelos caminhos e, ao invés de se desviar, dê a elas um pouco de atenção e as toque como a uma caixinha de fósforo. O que vier delas pode ser a melhor música do mundo…

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