MINIMALISMO DIGITAL OU… TEMPOS FUTUROS

minimalismo digital ou...

Por Leandro Bertoldo Silva

No dia 28 de novembro do ano passado havia publicado um artigo intitulado somente “Tempo futuro”, iniciado da seguinte forma:

ALGUNS AMIGOS SABEM QUE DIMINUÍ CONSIDERAVELMENTE A MINHA PRESENÇA NAS REDES SOCIAIS. PARA UM ESCRITOR INDEPENDENTE ISSO SERIA PÉSSIMO, CERTO? BEM, NEM TANTO! TUDO É UMA QUESTÃO DE PENSAR FORA DA CAIXINHA…

Bem, quando escrevi esse artigo eu ainda não havia lido o livro Minimalismo Digital, de Cal Newport, por ainda não ter sido lançado no Brasil. Um ano depois, eu não apenas li o livro, como tive a certeza de que eu não estava errado em já compartilhar das ideias revolucionárias de Cal, pois ele já havia sido responsável por fortalecer em mim, com suas palestras e pontos de vista, uma maneira de viver conectado, sim, mas com a realidade.

Uma coisa eu tenho que admitir… Eu estava engando! Diminuir a presença nas redes sociais não é apenas útil para escritores (lógico, sobra mais tempo para o principal: escrever), mas algo necessário para todas as pessoas que buscam por uma vida mais essencial.

Por achar o tema simplesmente extraordinário e ter tido experiências suficientes para confirmar a eficácia de sua veracidade e importância para lidar com “uma vida profunda em mundo superficial”, irei republicá-lo acrescido, no final, de algumas passagens do livro que certamente farão você refletir.

Cal Newport
Cal Newport

Mas antes, quem é Cal Newport? Cal é professor associado de ciência da computação da Universidade de Georgetown, é um escritor dedicado ao impacto da tecnologia na sociedade. Além de Minimalismo Digital, ele é o autor de Trabalho Focado (Alta Books) e mais quatro livros, e escreve regularmente artigos para seu popular site, www.calnewport.com.

 

 

 

 

Dito isso, vamos ao artigo que inicia com a seguinte pergunta:

COMO É A SUA RELAÇÃO COM AS REDES? ELAS TRABALHAM PARA VOCÊ OU É VOCÊ QUE TRABALHA PARA ELAS?

homem pensando

Muitas vezes o que pensamos ser a liberdade, o viver sem fronteiras, o estarmos conectados ao mundo é, no fundo, no fundo, o contrário do que acreditamos. Estou vivendo um momento de muita reflexão, se não quanto aos rumos em que a sociedade está caminhando no clássico “e assim caminha a humanidade”, pelo menos no bite que me cabe neste latifúndio. Estou me referindo às redes sociais, essa bolha na qual estamos cada vez mais imersos e segmentados e à necessidade que elas têm em minha vida. Aliás, este é o pensamento que me vem: até onde elas têm necessidade em minha vida? Não sei na sua, mas na minha é o que se segue.

Confesso que fiquei muito impactado com as ideias extraídas do livro Deep Work: Rules for Focused in a Distracted World, de Cal Newport, além de uma palestra do TEDx  do mesmo autor sobre as redes sociais, em que ele defende a total inutilidade dessas redes e o porquê todas as pessoas deveriam abandoná-las. Calma, sem radicalismo, mas a ideia é interessante. Impressionou-me ainda mais o fato de ser quem ele é: um Millenial, cientista da computação, escritor e que nunca teve uma sequer conta nas redes sociais.

Antes de citar alguns dos vários argumentos apontados por Newport, digo que cheguei até ele depois de um tempo considerável pensando sobre o assunto e assustado por me achar não pertencente ao mundo moderno. Mas como assim se aqui estou eu utilizando da internet para divulgar o meu trabalho?

Uma coisa é importante que se diga: internet e redes sociais são duas coisas completamente diferentes, embora muitas empresas bilionárias insistam em uni-las na tentativa de aprisionar a todos dentro da caixa ou mesmo de um grande buraco negro… “Quer ver um vídeo? Veja aqui! Quer saber sobre as notícias da sua cidade? Saiba aqui! Quer vender algo? Venda aqui!” Conhece algo assim? Qualquer semelhança não é mera coincidência… Opa! Onde está o mundo sem fronteiras?! E se são os famosos e incompreensíveis algoritmos que determinam o que e quem eu vejo, não há liberdade nessa história, e isso, além de bizarro, me fez entrar em crise.

Há algum tempo, sem mesmo conhecer as ideias de Newport, já havia tomado a decisão de fazer a experiência de desativar a minha conta no facebook por não estar mais me sentindo à vontade por lá. Por vários motivos que não cabem aqui agora, passei a achá-lo um lugar desagradável, inconveniente e a balança pesou muito para uma despedida e, sem me arrepender – pelo contrário, experimentei um enorme sentimento de alívio, liberdade e recuperação da minha autonomia e autoestima – os argumentos de Newport vieram ratificar a minha decisão. Para elucidar alguns, simulei uma conversa com Cal Newport a partir do que ele diz na palestra do TEDx e que você pode verificá-la clicando AQUI. Vamos lá!

Cal, O que as redes sociais realmente representam?

Cal Newport: “As redes sociais são apenas produtos, desenvolvidos por empresas privadas, amplamente financiados, cuidadosamente comercializados e projetados principalmente para capturar e vender suas informações pessoais e sua atenção para anunciantes”.

Mas, Cal, as redes sociais estão entre as tecnologias fundamentais do século 21. Rejeitá-las seria um ato de extremo arcaísmo…

Cal Newport: “As redes sociais não são uma tecnologia fundamental. Elas influenciam algumas tecnologias fundamentais, mas são melhores compreendidas como uma fonte repugnante de entretenimento, como máquina caça-níqueis, que te oferecem agrados brilhantes em troca de minutos de sua atenção e bites dos seus dados pessoais, que podem depois serem empacotados e vendidos.”

Está certo, cal, mas não posso abandonar as redes sociais porque elas são vitais para o meu sucesso. Se eu não tiver uma marca bem cultivada nas redes sociais, as pessoas não vão saber quem eu sou, não vão conseguir me encontrar, oportunidades não virão ao meu encontro e vou efetivamente desaparecer! (Essa é forte!)

Cal Newport: “Isso é uma bobagem. Na competitiva economia do século 21, o que o mercado valoriza é a habilidade de produzir coisas raras, valiosas, e rejeita, na maior parte, atividades que são fáceis de serem replicadas e que produzem pouco valor. Qualquer criança de seis anos com um smartphone pode criar um post viral… O mercado valoriza coisas raras. Se você conseguir extrair soluções que mudarão uma estratégia de negócio e atividades de alta concentração, produzindo resultados raros e valiosos, você criará as próprias oportunidades e as pessoas irão te encontrar independente de quantos seguidores você tiver no Instagram.”

Fim da simulação com respostas verdadeiras.

Esses e outros argumentos você pode conferir clicando no link da palestra. Muitos outros livros e profissionais ligados à tecnologia, ou não, como o caso do professor André Azevedo da Fonseca, foram me mostrando que a quantidade de pessoas que começam a despertar a consciência para uma nova forma de viver sem as redes, ou pelo menos repensando sua postura dentro delas, se reinventando frente a esse mar (in)navegável é muito maior do que eu presumia e que eu não estou assim tão sozinho como imaginava. Ufa, ainda bem, pois, afinal de contas, não estou querendo dizer que não devemos buscar por oportunidades e mostrar o nosso trabalho; o que estou querendo dizer é que não dependemos exclusivamente das redes sociais para isso.

Porém, um pensamento também me faz presente: sempre busquei viver bem na sociedade sem que eu precisasse me render às coisas fúteis da vida, acreditando ser possível vencer o grande desafio de estar no mundo sem me deixar influenciar pelo supérfluo, pelo que não vale a pena e me concentrar em coisas e pessoas valiosas. Também, e especificamente sobre o trabalho, não precisamos vendê-lo o tempo todo, mas compartilhá-lo como fonte de inspiração para as outras pessoas. E, se assim é na vida real, por que não na virtual? Esse pensamento não me fez querer voltar ao facebook como antes, e o Instagram também desativei a minha conta pessoal e mantenho apenas a conta da Árvore das Letras para postagens que obedecem a uma filosofia que denominei – desculpe a expressão – “xixi de cachorro”… Se você tem um e sai para passear com ele, sabe que o amiguinho vive “marcando território” por toda parte que ele vai. Sim, é a sua forma de dizer: “passei por aqui” ou “estive aqui”. É assim que eu uso o Instagram para ninguém poder dizer que “quem não é visto não é lembrado”… Porém, mesmo para essas postagens, feitas apenas uma vez por semana, pelo computador e nunca, nunca mesmo pelo smartfhone – não tenho o aplicativo no meu celular – e exclusivamente para o meu trabalho, estabeleci uma regra pessoal que conta com três perguntas essenciais. Aí estão elas:

  • O que estou postando é relevante?
  • O que estou postando faz sentido para as pessoas ou só para mim?
  • O que estou postando é essencial e agrega valor ou é algo apenas para obter likes e, portanto, para satisfazer o meu ego?

Só uma observação! Levando-se em consideração que uma postagem leva algo em torno de 2 a 3 minutos para ser feita e, após fazê-la, gasto 5 ou menos para verificar se há algo de relevante nas notificações e no feed (pois não suporto mais do que isso), é exatamente esse o tempo que me dedico às redes sociais por semana, ou seja, uma média de 10 minutos, o que já é muito!

Voltando às perguntas, elas são mais pertinentes do que podem parecer. Está certo que o que eu posto nas redes – na sua imensa maioria sobre leitura – você pode até não gostar. Ninguém é obrigado a gostar de ler, de literatura e desse universo que tanto me encanta, mas uma coisa é indiscutível: fútil não é. Digo isso porque chega a ser inacreditável as coisas que vemos nas redes sociais, como fotos de xícaras de café em balcão de livraria, livros abertos (geralmente grossos; será que a pessoa leu?) com um gato em cima ou simplesmente a foto da própria pessoa no espelho – o maior e mais autêntico narcisismo – além da cegueira, pois, como diz Mia Couto: “cego é quem só abre os olhos quando a si mesmo se contempla”, sem contar os sem sentidos “quiz”: as dez coisas que eu comprei, os dez livros que eu li, as dez viagens que eu fiz, e por aí vai… E a pergunta se faz: “o que essas coisas mudam efetivamente para melhor a minha vida ou de quem quer que seja?” Fica explicado por que gasto, no máximo, 5 minutos para verificar os feeds… Stories, então, nem pensar!

Chega a ser assustador a quantidade desse descarte virtual e sem sentido impregnado na internet e, consequentemente, na vida das pessoas que ficam vulneráveis como se fossem grandes receptáculos de qualquer coisa.

Como sempre digo, não estou querendo influenciar ninguém, cada qual sabe onde a sua inteligência é melhor moldada e respeitada. Mas, por outro lado, também não é possível continuar apático a tanta barbaridade e não expressar o que sinto, até mesmo para alguns amigos entenderem minhas escolhas.

Para encerrar, quero deixar aqui, como prometi, algumas passagens do livro Minimalismo Digital e convido-o a também fazer as suas reflexões. Para isso, acho fundamental transcrever o que vai na apresentação do livro:

livro minimalismo digital

O minimalismo é a arte de saber quanto é suficiente. O minimalismo digital aplica essa ideia ao nosso uso da tecnologia. Ele é o segredo para vivermos uma vida focada em um mundo cada vez mais caótico. Neste livro oportuno e esclarecedor, o autor do best-seller Trabalho Focado apresenta uma filosofia para o uso de tecnologia que já melhorou inúmeras vidas.

Minimalistas digitais estão ao nosso redor. São pessoas tranquilas e felizes, que estendem longas conversas sem olhares furtivos para seus smartphones. Eles se perdem em um bom livro, em um projeto de carpintaria ou em uma corrida matinal sem pressa. Divertem-se com amigos e familiares, sem o desejo obsessivo de documentar a experiência. Eles se informam sobre as notícias do dia, mas não se sentem oprimidos por elas. Não experimentam um “medo de perder alguma coisa”, porque já sabem quais atividades dão significado a suas vidas e lhes satisfazem.

Agora, Newport nomeia esse movimento silencioso e traz um argumento persuasivo para sua urgência em nosso mundo saturado de tecnologia. Dicas advindas do senso comum, como desativar as notificações, ou rituais esporádicos, como tirar férias do universo digital, não são suficientes para nos ajudar a retomar o controle de nossas vidas no que tange às tecnologias; e as tentativas de se afastar completamente são complicadas por cobranças de familiares, amigos e do trabalho. Diferentemente, precisamos de um método ponderado para decidir quais ferramentas usar, com quais objetivos e sob quais condições.

Com base em uma variedade diversificada de exemplos da vida real, de agricultores amish a pais aflitos e programadores do Vale do Silício, Newport identifica as práticas comuns de minimalistas digitais e as ideias que as respaldam. Ele mostra como os minimalistas digitais têm repensado sua relação com as mídias sociais, redescobrindo os prazeres do mundo off-line e se reconectando à sua essência por meio de períodos regulares de solidão. Por fim, ele compartilha estratégias para integrar essas práticas, iniciando com um processo de ‘faxina digital’ de 30 dias que já ajudou milhares de pessoas a se sentirem menos sobrecarregadas e com maior controle de suas vidas.

A tecnologia não é inteiramente boa nem ruim. O segredo é usá-la para viabilizar seus objetivos e valores, em vez de deixar que ela use você. Esse livro o ensina a fazer isso.

Não é interessante? Veja, agora, algumas passagens bem elucidativas…

PRODUTORES DE TABACO

“Bill Maher encerra todos os episódios de seu programa da HBO, Real Time, com um monólogo. Geralmente, os tópicos são políticos. Houve uma exceção, no entanto, em 12 de maio de 2017, quando Maher olhou para a câmara e disse:

Os magnatas das mídias sociais precisam parar de fingir que são deuses nerds amigáveis construindo um mundo melhor e admitir que são apenas produtores de tabaco usando ternos, vendendo um produto viciante para crianças. Porque, sejamos sinceros, verificar sua quantidade de ‘curtidas’ é a nova nicotina.” (página 9).

“Há sempre essa narrativa de que a tecnologia é neutra. E cabe a nós escolher como vamos usá-la. Isso simplesmente não é verdade… […] Querem que você a use de maneiras específicas durante longos períodos. Pois é assim que ganham dinheiro.” (página 10).

“Nem todos os minimalistas digitais rejeitam todas as ferramentas tecnológicas. Para muitos, a questão principal ‘será que essa é a melhor maneira de usar a tecnologia em prol desse objetivo?’ os leva a otimizar cuidadosamente os serviços que a maioria das pessoas usa sem muito critério.” (página 30).

“A conexão é ilusória. Terceirizar sua autonomia para um conglomerado da economia da atenção – como faz quando, inconscientemente, se inscreve em qualquer novo serviço que surge da classe de capitalistas do Vale do Silício – é o contrário de liberdade e provavelmente prejudicará sua individualidade.” (página 54).

“Quer você aceite ou não a filosofia de comunicação centrada em diálogo que proponho, espero que aceite sua premissa motivadora: a relação entre nossa sociabilidade profundamente humana e as modernas ferramentas de comunicação digital é tensa e produz problemas significativos em sua vida se não for abordada com cuidado. Você não pode esperar que um aplicativo criado em um dormitório, ou entre as mesas de pingue-pongue de uma incubadora do Vale do Silício, substitua com sucesso os tipos de interações ricas às quais nos adaptamos meticulosamente ao longo de milênios. Nossa sociabilidade é simplesmente complexa demais para ser terceirizada em uma rede social ou reduzida a mensagens instantâneas e emojis.” (página 149).

“Aqueles que estão comprometidos com o status quo digital podem considerar essa filosofia antitecnológica. Essa afirmação é equivocada. O minimalismo digital definitivamente não rejeita as inovações da era da internet, ele rejeita o modo como muitas pessoas atualmente se envolvem com elas. Como cientista da computação, ganho a vida ajudando a avançar na vanguarda do mundo digital. Como muitos na minha área, sou fascinado pelas possibilidades do nosso futuro tecnológico. Mas também estou convencido de que não podemos liberar esse potencial até que nos esforcemos para assumir o controle de nossas próprias vidas digitais – para decidirmos com confiança quais ferramentas queremos usar, por que razões e sob que condições. Isso não é reacionário, é senso comum.” (página 256).

Bem, fico por aqui fazendo meus os desejos de Cal de que as pessoas entendam que não sou contra a tecnologia – eu a tenho, eu a uso –, mas enxerguem de uma vez por todas que ela não pode jamais tomar o lugar do convívio presencial e real dentro de uma sociedade, transformando essa mesma sociedade em zumbis virtuais. Despeço-me com mais um pensamento de Cal Newport que achei extraordinário:

“Se você está comprometido em criar impacto no mundo, desligue seu celular, feche as abas do seu computador, arregace suas mangas e vá trabalhar”.

E aqui cabe uma reflexão bem interessante retirada do livro:

você jamais conseguirá criar uma potência como o facebook se estiver o tempo todo no facebook…

Leve em consideração todas as outras redes sociais! Mas se tiver que usar o computador para divulgar o seu trabalho, ok, use as redes se for tão importante e impossível para você deixá-las, mas reserve a “cereja do bolo” para os blogs – pense neles – pois uma coisa é certa: você irá desenvolver muito a sua criatividade em algo que é realmente seu e, sendo assim, é você quem manda na caixinha…

Forte abraço!

 

 

 

 

 

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