TEMPO FUTURO

ALGUNS AMIGOS SABEM QUE DIMINUÍ CONSIDERAVELMENTE A MINHA PRESENÇA NAS REDES SOCIAIS. PARA UM ESCRITOR INDEPENDENTE ISSO SERIA PÉSSIMO, CERTO? BEM, NEM TANTO! TUDO É UMA QUESTÃO DE PENSAR FORA DA CAIXINHA… LEIA A SEGUIR O QUE ME MOTIVOU A ISSO E ALGUMAS IDEIAS DE PESSOAS RELEVANTES QUE VALE A PENA REFLETIR SOBRE ELAS. E APÓS A LEITURA, PENSE: COMO É A SUA RELAÇÃO COM AS REDES? ELAS TRABALHAM PARA VOCÊ OU É VOCÊ QUE TRABALHA PARA ELAS?

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Por Leandro Bertoldo Silva

Muitas vezes o que pensamos ser a liberdade, o viver sem fronteiras, o estarmos conectados ao mundo é, no fundo, no fundo, o contrário do que acreditamos. Estou vivendo um momento de muita reflexão, se não quanto aos rumos em que a sociedade está caminhando no clássico “e assim caminha a humanidade”, pelo menos no bite que me cabe neste latifúndio. Estou me referindo às redes sociais, essa bolha na qual estamos cada vez mais imersos e segmentados e à necessidade que elas têm em minha vida. Aliás, este é o pensamento que me vem: até onde elas têm necessidade em minha vida? Não sei na sua, mas na minha é o que se segue.

cal Newport
CAL NEWPORT (FOTO: REPRODUÇÃO)

Confesso que fiquei muito impactado com as ideias extraídas do livro Deep Work: Rules for Focused in a Distracted World, de Cal Newport, além de uma palestra do TEDx  do mesmo autor sobre as redes sociais, em que ele defende a total inutilidade dessas redes e o porquê todas as pessoas deveriam abandoná-las. Calma, sem radicalismo, mas a ideia é interessante. Impressionou-me ainda mais o fato de ser quem ele é, um Millenial, cientista da computação, escritor e que nunca teve uma sequer conta nas redes sociais.

Antes de citar alguns dos vários argumentos apontados por Newport, digo que cheguei até ele depois de um tempo considerável pensando sobre o assunto e assustado por me achar não pertencente ao mundo moderno. Mas como assim se aqui estou eu utilizando da internet para divulgar o meu trabalho?

Uma coisa é importante que se diga: internet e redes sociais são duas coisas completamente diferentes, embora muitas empresas bilionárias insistem em uni-las na tentativa de aprisionar a todos dentro da caixa ou mesmo de um grande buraco negro. “Quer ver um vídeo? Veja aqui! Quer saber sobre as notícias da sua cidade? Saiba aqui! Quer vender algo? Venda aqui!” Conhece algo assim? Qualquer semelhança não é mera coincidência… Opa! Onde está o mundo sem fronteiras?! E se são os famosos e incompreensíveis algoritmos que determinam o que e quem eu vejo, não há liberdade nessa história, e isso, além de bizarro, me fez entrar em crise.

Há algum tempo, sem mesmo conhecer as ideias de Newport, já havia tomado a decisão de fazer a experiência de desativar a minha conta no facebook por não estar mais me sentindo à vontade por lá. Por vários motivos que não cabem aqui agora, passei a achá-lo um lugar desagradável, inconveniente e a balança pesou muito para uma despedida e, sem me arrepender – pelo contrário, experimentei um enorme sentimento de alívio, liberdade e recuperação da minha autonomia e autoestima – os argumentos de Newport vieram ratificar a minha decisão. Para elucidar alguns, simulei uma conversa com Cal Newport a partir do que ele diz na palestra do TDx e que você pode verificar clicando AQUI. Vamos lá!

Cal, O que as redes sociais realmente representam?

Cal Newport: “As redes sociais são apenas produtos, desenvolvidos por empresas privadas, amplamente financiados, cuidadosamente comercializados e projetados principalmente para capturar e vender suas informações pessoais e sua atenção para anunciantes”.

Mas, Cal, as redes sociais estão entre as tecnologias fundamentais do século 21. Rejeitá-las seria um ato de extremo arcaísmo…

Cal Newport: “As redes sociais não são uma tecnologia fundamental. Elas influenciam algumas tecnologias fundamentais, mas são melhores compreendidas como uma fonte repugnante de entretenimento, como máquina caça-níqueis, que te oferecem agrados brilhantes em troca de minutos de sua atenção e bites dos seus dados pessoais, que podem depois serem empacotados e vendidos.”

Está certo, cal, mas não posso abandonar as redes sociais porque elas são vitais para o meu sucesso. Se eu não tiver uma marca bem cultivada nas redes sociais, as pessoas não vão saber quem eu sou, não vão conseguir me encontrar, oportunidades não virão ao meu encontro e vou efetivamente desaparecer! (Essa é forte!)

Cal Newport: “Isso é uma bobagem. Na competitiva economia do século 21, o que o mercado valoriza é a habilidade de produzir coisas raras, valiosas, e rejeita, na maior parte, atividades que são fáceis de serem replicadas e que produzem pouco valor. Qualquer criança de seis anos com um smartphone pode criar um post viral… O mercado valoriza coisas raras. Se você conseguir extrair soluções que mudarão uma estratégia de negócio e atividades de alta concentração, produzindo resultados raros e valiosos, você criará as próprias oportunidades e as pessoas irão te encontrar independente de quantos seguidores você tiver no Instagram.”

Fim da simulação com respostas verdadeiras.

Esses e outros argumentos você pode conferir clicando no link da palestra. Muitos outros livros e profissionais ligados à tecnologia, ou não, como o caso do professor André Azevedo da Fonseca, foram me mostrando que a quantidade de pessoas que começam a despertar a consciência para uma nova forma de viver sem as redes, ou pelo menos repensando sua postura dentro delas, se reinventando frente a esse mar (in)navegável é muito maior do que eu presumia e que eu não estou assim tão sozinho como imaginava. Ufa, ainda bem, pois, afinal de contas, não estou querendo dizer que não devemos buscar por oportunidades e mostrar o nosso trabalho; o que estou querendo dizer é que não dependemos exclusivamente das redes sociais para isso.

Porém, um pensamento também me faz presente: sempre busquei viver bem na sociedade sem que eu precisasse me render às coisas fúteis da vida, acreditando ser possível vencer o grande desafio de estar no mundo sem me deixar influenciar pelo supérfluo, pelo que não vale a pena e me concentrar em coisas e pessoas valiosas. Também, e especificamente sobre o trabalho, não precisamos vendê-lo o tempo todo, mas compartilhá-lo como fonte de inspiração para as outras pessoas. E, se assim é na vida real, por que não na virtual? Esse pensamento não me fez querer voltar ao facebook como antes. Mantenho apenas a página da Árvore das Letras para chamadas bem pontuais. O Instagram ainda acho que vale a pena, porém, estabeleci uma regra pessoal de postagem que conta com três perguntas essenciais. Aí estão elas:

  • O que estou postando é relevante?
  • O que estou postando faz sentido para as pessoas ou só para mim?
  • O que estou postando é essencial e agrega valor ou é algo apenas para obter likes e, portanto, para satisfazer o meu ego?

Essas perguntas são mais pertinentes do que podem parecer. Está certo que o que eu posto nas redes – na sua imensa maioria sobre leitura – você pode até não gostar. Ninguém é obrigado a gostar de ler, de literatura e desse universo que tanto me encanta, mas uma coisa é indiscutível: fútil não é. Digo isso porque chega a ser inacreditável as coisas que vemos nas redes sociais, como fotos de xícaras de café em balcão de livraria, livros abertos (geralmente grossos; será que a pessoa leu?) com um gato em cima ou simplesmente a foto da própria pessoa no espelho – o maior e mais autêntico narcisismo – além da cegueira, pois, como diz Mia Couto: “cego é quem só abre os olhos quando a si mesmo se contempla”, sem contar os sem sentidos “quiz”: as dez coisas que eu comprei, os dez livros que eu li, as dez viagens que eu fiz, e por aí vai… E a pergunta se faz: “o que essas coisas mudam efetivamente para melhor a minha vida ou de quem quer que seja?”

Chega a ser assustador a quantidade desse descarte virtual e sem sentido impregnado na internet e, consequentemente, na vida das pessoas que ficam vulneráveis como se fossem grandes receptáculos de qualquer coisa.

Como sempre digo, não estou querendo influenciar ninguém, cada qual sabe onde a sua inteligência é melhor moldada e respeitada. Mas, por outro lado, também não é possível continuar apático a tanta barbaridade e não expressar o que sinto, até mesmo para alguns amigos entenderem minhas escolhas.

E para encerrar, quero ficar com mais um pensamento de Cal Newport que achei extraordinário:

“Se você está comprometido em criar impacto no mundo, desligue seu celular, feche as abas do seu computador, arregace suas mangas e vá trabalhar”.

Mas se tiver que usar o computador para divulgar o seu trabalho, ok, use as redes sociais se for tão impossível para você deixá-las, mas reserve a “cereja do bolo” para os blogs – pense neles – pois uma coisa é certa: você irá desenvolver muito a sua criatividade em algo que é realmente seu e, sendo assim, é você quem manda na caixinha…

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva

3 comentários em “TEMPO FUTURO”

  1. Gostei deste ponto de vista. Realmente, entramos nas redes, a maioria das vezes, para ver o que outros publicaram. Se interessa, a gente salva pra ver depois com calma, e esquecemos disto. Amizade não está garantida, pois 955 do “amigos” não conversam entre si, não perguntou por nós, não se interessam pelo nosso bem estar. A nível profissional e comercial, pode ser importante para acompanhamento de novas ofertas, novas oportunidades, desenvolvimentos tecnológicos, etc.

    Curtido por 1 pessoa

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