O MUNDO ENCANTADOR DO HAICAI: A ARTE DA POESIA

Holidays! (1)

Por Leandro Bertoldo Silva

José levantou cedo naquele dia, sentindo um impressionante chamado de Deus. Dentro dele, algo acontecia que o impulsionava a sair em busca de inusitado encontro. Uma vez que não sabia aonde ir, logo veio em sua mente o óbvio: iria à igreja. Mas qual?

Fosse qual fosse, centenas de milhares de pessoas não poderiam estar erradas. As músicas altíssimas, cantadas num frisson de louvor, e os gritos de adoração contemplados à palavra amor, deveriam estar certos, afinal. Assim, andou. Quanto mais andava, mais se avolumavam igrejas e, junto delas, opiniões, palavras, homilias, baterias, gritos, violões, mas…

Seu coração não se preenchia. Porém, o vazio que antes incomodava passou a ser um estranho conforto, pois, ao viver o vazio, o silêncio o despreenchia, e ele achou isso bom. No entanto, o reconforto vinha com a culpa de ser diferente, de não ter seguido o chamado… Via a alegria dos outros, mas o incomodava a verdade que ali não sentia como sua, e essa culpa o fez gritar ainda mais alto, internamente.

Nesse momento, um simples jardineiro que o observava, pois José estava sentado no banco de uma praça, aproximou-se, despertando-lhe os olhos para as flores de que cuidava. Com seu semblante e seus gestos livres e despertos, disse:

Contemple uma flor…

Viu? Deus está nos silêncios…

Por que o grito?

Naquele momento, José percebeu que havia, há muito, obedecido ao chamado e que, com o auxílio daquele jardineiro que estava a semear, todo o barulho cessou em sua alma, fazendo de sua vida uma comunhão ao silêncio e dele um testemunho íntimo em cada flor que passou a admirar. (conto extraído do livro “Entrelinhas Contos mínimos”). Saiba mais AQUI.

Achou essa história interessante? Talvez você não tenha reparado, mas ela traz a essência da poesia. Foi ela a razão da transformação de José, e tudo se deu num flash, num instantâneo…

contemple uma flor

E essa poesia, especificamente, tem um nome: Haicai, podendo ser grafada Haikai, ou mesmo ser chamada de Haiku.

Talvez você não saiba do que estou falando. Talvez saiba, já ouviu dizer. Talvez tenha pensado: poesia? E com esse nome estranho? Eu não gosto de poesia… Acho difícil.

Bem, eu não sei qual foi o seu pensamento, mas uma coisa eu acredito: essa história e esse nome lhe trouxeram curiosidade.

Então, continue lendo este artigo para saber mais sobre:

Por que poesia não é difícil e é mais próxima de você do que você pensa.

O que é, afinal, haicai.

O haicai, a natureza e nós.

O haicai e as estações do ano.

O haicai e a métrica.

Os haicais rimados.

E ao final dele, você verá como é possível usar o haicai como prática meditativa, trazendo a poesia para o nosso dia a dia.

POR QUE POESIA NÃO É DIFÍCIL E ESTÁ MAIS PRÓXIMA DE VOCÊ DO QUE VOCÊ PENSA (do livro Poesia não é difícil, de Carlos Felipe Moisés)

palavra escrita

A maioria das pessoas acha que poesia é difícil e, por causa disso, dizem não gostar dela. Mas isso pode ser um mito, uma falsa verdade. Isso porque podemos colocar esse mito em confronto com outra verdade universal, que de mito não tem nada: o que as pessoas podem não gostar, isso sim, é estudar poesia, ler poesia com o propósito ou a obrigação de analisar, compreender, explicar. Quando solicitadas a fazê-lo, fogem arrepiadas, isto é, fogem de algo que apreciam. Por trás do mito, como se vê, existe um contrassenso: por que as pessoas repudiam aquilo que ao mesmo tempo as atrai? Sim, porque é natural ser atraído pela poesia.

Quando falo da poesia repudiada, refiro-me à poesia em sala de aula, onde deve, acima de tudo, ser tratada de modo adequado, ou seja, como experiência afetiva, espiritual e artística que as pessoas naturalmente amam e à qual deveriam dedicar-se por prazer, não por obrigação. Quando o jovem leitor se depara com a perspectiva de provas, testes e exames, e com a necessidade de “tirar uma nota”, nem sempre verdadeira, às vezes até despropositada, o resultado, já sabemos, é fugir da poesia. E, com isso, privar-se de uma rara oportunidade de enriquecimento humano e intelectual.

Não há idade mais propícia à poesia do que a juventude!

É a idade da autodescoberta e da descoberta do mundo, da curiosidade ilimitada, da imaginação generosa, do desejo de compreender, e também do espírito crítico aguçado, das dúvidas e incertezas, das experiências decisivas, que costumam marcar para o resto da vida. Não é de surpreender, portanto, que todos amem poesia, pelo menos na juventude. É que as inquietações enumeradas coincidem, em geral, com a matéria preferida de quase todos os poetas, de todos os tempos. As pessoas amam encontrar, nos poemas que leem, um eco, um reflexo das suas inquietações.

O que o jovem sente é a matéria-prima da poesia…

Para gostar de poesia algumas coisas são necessárias. Uma delas está ligada à leitura.

Poesia se lê em voz alta…

E é recomendável que o mesmo poema seja lido mais de uma vez para ser sorvido, apreciado. A cada leitura, uma tentativa diferente de dar a cada verso, a cada frase e a cada palavra, a entonação adequada. Isso fará você, mais do que entender poesia, “sentir” a poesia. O mesmo serve para ouvir.

A poesia é a arte da subjetividade, onde o respeito às opiniões, às divergências é fundamental. Poesia exige relativização dos juízos, respeito às intuições de cada um. Se estivéssemos lidando com matemática, digamos, a situação seria outra. Diante, por exemplo, de “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, você se limitaria a demonstrar que A² = B² + C² e não perderia tempo se perguntando “O que acho disso?” ou “Que sentido tem isso para mim?” ou “Qual é a minha opinião a respeito?”

Mas diante de “Amor é fogo que arde sem se ver” são exatamente essas perguntas que devem ser feitas, e muito longe de achar que elas teriam apenas uma resposta…

Bem, se o nosso ponto de partida, então, é o fato de todas as pessoas serem propensas a gostarem de poesia, o que fatalmente acontecerá se não formos desencorajados por obrigações burocráticas, é inevitável deduzir que extrairemos tanto prazer da leitura de poesia quanto da sua escuta e da tentativa de criar nossos próprios poemas, fazendo, assim, com que a poesia cumpra o seu papel representando uma das dimensões mais significativas da sociedade em que vivemos e da humanidade em que participamos. Vamos ver como isso é possível através de uma forma poética milenar: o haicai. Para isso, veja e ouça o vídeo a seguir.

O QUE É, AFINAL, HAICAI?

O dia amanhece

Haicai é um micro poema que tenta captar a essência do momento. É um flash, um instantâneo… É preciso muita sensibilidade para apreciar o haicai, tamanha a sutileza de seus três versos que contam, em poucas palavras, o sentimento do poeta frente a diversos desdobramentos da natureza.

Arte originalmente japonesa, o haicai é uma arte milenar e obedece a um padrão métrico próprio de três versos de 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente, totalizando 17 sílabas, o que o diferencia de outras formas poéticas.

Por ter uma acentuação mais flutuante, o Japão consegue manter a contagem gramatical na composição dos haicais. Na Língua Portuguesa, entretanto, devido a sua grande riqueza e variação, costuma-se usar, além da contagem gramatical, a contagem poética, por levar em conta também o ritmo. Sendo assim, outras regras se fazem presentes como junções de algumas sílabas e supressão de outras dentro de critérios próprios estabelecidos, para obedecer a forma original de 17 sílabas. Esta é a razão de alguns haicais parecerem ter mais sílabas do que o permitido.

Há pessoas que defendem a ausência dessa métrica, obedecendo apenas os três versos, alegando liberdade criativa. Bem, não quero sugestionar ninguém, mas defendo também minha opinião que a métrica é justamente o exercício poético que se transforma no desafio apaixonante de dizer o que se deseja, não com qualquer palavra, mas com a palavra certa.  É apenas uma questão de opinião e escolha do fazer poético.

De qualquer forma, o haicai é uma arte apaixonante, tanto para quem aprecia e tenta captar o sentimento do poeta, como para quem o compõe e se aventura na busca da palavra certa e indispensável para transmitir o que sente e deseja. Essa busca pode levar horas, dias, meses e até anos, o que torna o haicai uma arte impar no campo da literatura e o diferencia como arte verdadeiramente elevada.

O HAICAI, A NATUREZA E NÓS

Penso a vida

O haicai estabelece uma grande ligação com a natureza, e essa ligação está intrínseca em nós à medida que necessitamos voltar os nossos olhos para ela, isto é, estabelecer uma reconexão com as nossas essências, principalmente em momento de muita valorização para o que é virtual. Olhando a natureza e tentando extrair dela sentimentos e emoções, é o mesmo que reverberar os nossos próprios, lançando, também, um novo olhar para nós mesmos de uma forma dinâmica e sensitiva, cujo exercício é proporcionar vivências pessoais.

Baseado no processo de reconexão com a natureza, o haicai tem como objetivo oferecer subsídios que levem à valorização do essencial, do que está a nossa volta, criando, estimulando e aprimorando o gosto pela observação através das percepções, tendo na palavra sua forma de expressão.

Os haicais clássicos trazem elementos contidos na natureza, como um gato, uma flor, uma estrela, a noite, o dia, etc…

O HAICAI E AS ESTAÇÕES DO ANO

As flores silvestres

Geralmente, os haicais têm a ver com as estações do ano. Um haicai pode ser de primavera, verão, outono ou inverno.

Neste caso, a estação do ano está explícita. Entretanto, podemos deixar as estações do ano subtendidas, usando, para isso, um kigô, isto é, um termo próprio da estação.

O fruto maduro

As folhas caem em maio, no outono. Portanto, esse é um haicai outonal. No Japão, as estações do ano são bem definidas e determinam o modo de viver da população, enquanto que no Brasil nossa vida gira mais em torno de eventos, como Natal, festa junina, Semana Santa, Páscoa, Carnaval, Entre outros. Sendo assim, podemos utilizar estes eventos para indicar a estação.

Como achar facilmente um kigô outonal? Em seus livros, bons autores têm explorado: orvalho, libélula, crisântemo, grilo, flor-de-maio, estrela cadente, vento de outono, caqui, tempo de colheita, quaresmeira, etc.

O HAICAI E A MÉTRICA

Como foi dito, na Língua Portuguesa encontramos uma variação métrica para os haicais. Podemos nos basear em três aspectos:

  1. Quando uma palavra acaba em vogal átona, ambas formam uma só sílaba:
  • Ouviram do Ipiranga = ou-vi-ram-doi-pi-ran-ga;
  • Aberto o portão = a-ber-too-por-tão.
  1. Se a vogal da sílaba final for tônica, não ocorre a junção:
  • Você acertou = vo-cê-a-cer-tou.
  1. Na palavra final de um verso não se contam as sílabas que se encontram após a sílaba tônica. Se a palavra “refúgio” figurar no fim de um verso, só contaremos até essa sílaba, desprezando as demais:
  • Um gato busca refúgio = um-ga-to-bus-ca-re-fú (gio) – 7 sílabas;
  • O vento do outono = o-ven-to-doou-to (no) – 5 sílabas.
OS HAICAIS RIMADOS

Embora não muito comuns, os haicais podem ser rimados e trazem uma beleza imensa a essa arte e oferecem um desafio ainda maior, pois o primeiro verso rima com o terceiro e, além disso, no segundo verso, a segunda sílaba rima com a última. Pode ser esquematizado assim:

__ __ __ __ x

__ y __ __ __ __ y

__ __ __ __ x

Na cidade a rua

Entretanto, toda essa engenharia poética tem o dom de fornecer uma dica importante: Não é preciso que cada verso seja completo. Ele pode, perfeitamente, encerrar-se no verso seguinte:

Vejo a natureza

USANDO O HAICAI COMO PRÁTICA MEDITATIVA

A poesia convida-nos à meditação, inspirando-nos à interiorização e consciência dos nossos sentimentos. Um estado de presença calma e profundo relaxamento, diferente de deixar-nos desatentos, auxiliam-nos no processo de conexão com a nossa verdade, enriquecendo a nossa vida diária.

Este é o princípio da meditação: “abrir-se a cada momento com consciência calma”, isto é, agir com lucidez a cada momento da vida, o que acarreta felicidade, paz mental e serenidade, independente do tanto de trabalho e tarefas que temos a fazer.

Engana-se quem acha que meditar é não pensar em nada e apenas ficar horas a fio em um mosteiro desligado do mundo, ou que essa prática necessariamente tem a ver com aspectos religiosos.

Pelo contrário, meditar, principalmente em tempos modernos, é estar atento a tudo que acontece, porém tendo uma relação de amor e calma com os acontecimentos, inclusive os desagradáveis. Para quem se interessa, indico o livro “O Melhor Guia para a Meditação”, de Victor N. Davich, editora Pensamento, em que ele desmistifica, esclarece e ensina o processo, ou arte, da meditação.

Sim, pois ao estar lúcido a cada acontecimento do dia a dia, aquietamos a nossa consciência, geralmente tão atarefada, e atingimos uma clareza mental que impede esforços desnecessários. É a tão desejada busca pela calma, pela diminuição do estresse, e tudo por estar presente em seu momento e afazeres, ou seja, a possibilidade de lidarmos melhor com o que nos envolve é muito maior.

As possibilidades de meditação são inúmeras: através da respiração, da música, a meditação orientada, e muitas outras. Aqui, quero compartilhar uma experiência através da poesia, ou sendo mais específico, através do haicai.

Chamei de O JOGO DAS REFLEXÕES, e permite que o leitor possa interagir com os haicais de uma forma dinâmica e sensitiva, cuja leitura proporciona vivências pessoais, onde o objetivo não é vencer nenhum adversário, mas conhecer a si mesmo(a).

Meditar com o JOGO DAS REFLEXÕES é um mergulho passando pela leitura, não para aumentar conhecimento, mas para encontrar você mesmo(a) na poesia; pela meditação, deixando a poesia cair no coração, aceitando-a simplesmente; gestação, que, através da meditação, faz com que a poesia germine e frutifique; e por último a contemplação, para não mais raciocinar a poesia, mas vivê-la no silêncio.

Para isso, você irá escolher alguns haicais – um mínimo de 12 – que, por si mesmo, já proporciona tudo isso através da sua simplicidade. Você pode escrevê-los em um pedaço de papel, em uma plaquinha leve de madeira, ou no que a sua imaginação e criatividade sugerir. Você, também, pode escrever os seus próprios haicais…

Eu fiz os meus em pequenas cartas de papel, utilizando outra técnica japonesa – o Origami –, para envolvê-las como num livro de páginas soltas. Além disso, associei uma bela imagem a cada carta (página) e sugeri uma palavra que sintetiza o sentimento exposto para auxiliar na reflexão.

jogo das reflexões

Caso se interesse por este modelo do JOGO DAS REFLEXÕES e queira adquiri-lo, é só enviar um contato por este blog.

REGRA SUGERIDA: Reserve um tempo de 5 a 10 minutos para essa prática. Misture os haicais que você previamente escolheu ou escreveu e retire 3 deles ao acaso. Leia cada um atentamente e escolha apenas um para proceder aos passos descritos: Leitura – Meditação – Gestação – Contemplação. Guarde os outros e somente escolha um novo haicai após se sentir satisfeito(a) com sua reflexão. Não tenha pressa. Leve dias, horas, meses e até anos…

E então, gostou de conhecer o universo mágico dos haicais? Viu como é possível estabelecer uma nova relação com a poesia e trazê-la para o nosso dia a dia?

Então, compartilhe esse artigo, ajude outras pessoas a conhecerem essa arte tão singela e ao mesmo tempo tão transformadora, como foi com José, por ser tocado pela natureza íntima ao contemplar uma singela flor, mostrada pelo jardineiro, e encontrar nela a natureza divina.

E se chegar a fazer o JOGO DAS REFLEXÕES (o que sugiro e espero que faça, pelo grande benefício que terá), não se esqueça de deixar um comentário contando da sua experiência.

8 comentários em “O MUNDO ENCANTADOR DO HAICAI: A ARTE DA POESIA”

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