POR QUE EU AINDA ACREDITO EM LIVROS?

Por que eu ainda acredito em livros

Por Leandro Bertoldo Silva

O motivo pelo qual eu ainda acredito em livros – mesmo com a última pesquisa do Instituo Pró-Livro, da 4º edição dos “Retratos da Leitura no Brasil”, em 2016, apontar que 44% da população não é leitora e 30% nunca ter comprado um livro na vida – pode ser um tanto romântico, mas é verdadeiro: Eu ainda acredito em livros porque eu ainda acredito nas pessoas, e livros transformam pessoas.

A esse pensamento se juntou um outro, que se transformou no meu modelo de trabalho: a produção sob demanda. Você certamente já ouviu falar dela, mas realmente sabe o que ela significa?

Bem, a definição é simples. É aquela produção onde o produto é feito especialmente para o consumidor. Mas a ideia vai muito além disso. O que torna esse tipo de produção interessante é o fato que ela influencia diretamente o meio ambiente através do nosso comportamento, pois ela reduz significativamente a geração de lixo e melhora a qualidade de vida desta e das futuras gerações.

Sim, através da produção sob demanda diminuímos livros em estoque, e livros estocados são árvores mortas, trabalho perdido, esforços e tempo jogados fora, materiais desperdiçados, sonhos congelados.

Há outras consequências que poderíamos apontar, mas uma delas é fundamental: em um livro – seja um romance, um conto ou poesia – pode estar a solução tão procurada por alguma coisa, seja uma mudança de vida, a coragem que faltava para isso, o princípio de uma ideia, ou quem sabe a ideia completa para algo que você nunca havia pensado… Pois é, é como eu disse: livros transformam pessoas.

É por acreditar nessa ideia que me tornei escritor. E é por acreditar ainda mais nela que criei a minha própria produção sob demanda. Você pode conhecê-la aqui neste blog, em especial acessando AQUI, e ver como os livros são feitos na máquina “Paula Brito” e todo o conceito construído, as etapas de desenvolvimento e tudo o que sustenta esse trabalho.

Tenho 4 livros publicados: Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno, Entrelinhas Contos mínimos, Relicário Pessoal – haicais e o infantil O Menino que Aprendeu a Imaginar. Todos eles são feitos utilizando a produção sob demanda, ou seja, os livros são feitos para você na quantidade que desejar e enviados para a sua casa com toda segurança e conforto. Mas isso, por si só, seria comum. O que faz com que meus livros sejam diferentes é a matéria-prima utilizada. Todos eles são feitos com capa em papel ecológico inteiramente personalizada com fibras de material orgânico e tinta natural, numa verdadeira artesania literária, sendo o miolo do livro de papel reciclável, demonstrando um valor importante na preservação do meio ambiente, através do uso consciente de recursos renováveis.

É isso que faz da Árvore das Letras, além de uma escola, uma editora realmente independente e do selo Alforria Literária uma nova forma de fazer literatura. Conheça os livros, veja-os de perto, sinta-os e entenderão, através de sua leitura e de todo o trabalho envolvido, a materialização do pensamento de George Bernard Shaw: “Alguns homens observam o mundo e se perguntam “por quê?”. Outros homens observam o mundo e se perguntam “por que não?”.

ALFORRIA LITERÁRIA: DO SONHO À REALIDADE

Zesty olor Blocking

Quem me conhece sabe que eu sou um grande sonhador. Há quem diz que sou um tanto “quixotesco”, o que me agrada bastante, porque nessa vida há muitos moinhos de vento para enfrentar… Mas eu também gosto de fazer dos sonhos realidade, e foi aí que surgiu esta história de forma tão bonita quanto intensa e com uma rapidez das coisas que são para dar certo.

Eu Sou o Leandro Bertoldo Silva, escritor, criador da Árvore das Letras e do selo Alforria Literária, pelo qual publico os meus livros e de projetos alternativos da Árvore, assim como de escritores cujos trabalhos se identificam e dialogam com a proposta. Os livros são criados de forma totalmente independentes, através da máquina “Paula Brito”, um sistema de colagem, costura e prensagem, o que dá a eles uma identidade e conceito únicos colocando-os em um outro lugar que não somente o mercadológico.

Os livros da Alforria têm alma e poesia, não apenas internamente, mas em toda a concepção – da escrita ao material utilizado – até chegar às mãos do leitor, que passa a ter, também, não apenas um objeto, mas uma experiência viva e liberta de padrões. Temos em nosso catálogo os livros “Entrelinhas Contos mínimos”; “Janelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno”; “Relicário pessoal – haicais” e o infantil “O Menino que Aprendeu a Imaginar”, todos eles de minha autoria, lidos e presentes em várias cidades dentro e fora de nosso Estado.

Temos, ainda, o livro “Cartas ao Tempo”, dos alunos do curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita, da Árvore das Letras, que alterna correspondências de Machado de Assis, Clarice Lispector com os próprios autores.

Publicamos, também, a coletânea de contos e crônicas “Memórias de um Tempo”, em parceria com a Escola Orlando Tavares, no Vale do Jequitinhonha, pelo projeto Escritores do Vale, em que transformamos alunos em autores.

Também, no Vale, lançamos o livro “Com-Fluências Pétalas Poéticas”, resultado da oficina (Re)Construção Poética, também da Árvore das Letras, com jovens da ASCAI – Associação da Criança e do Adolescente de Itaobim.

Publicamos o infantil “As façanhas de Pituca e seus amigos”, da escritora e poetisa Antonia Aleixo Fernandes, de São Paulo, lançado na Casa das Rosas, na capital paulista, neste mês de agosto.

E, recentemente, “Um livro”, de Armando Ribeiro, uma coletânea de poemas do poeta/artesão, lançado no 36º FESTIVALE, em Belmonte, no Estado da Bahia, e na Terra do Sol Casa Ateliê, em Padre Paraíso, em Minas Gerais.

Há duas obras em andamento: o livro “Panapaná Voos Poéticos” – continuidade do projeto Escritores do Vale, a ser lançado em novembro deste ano, e o meu novo livro “Histórias de um certo Aarão e outros casos contados: das histórias e lendas de Belo Horizonte recontadas por um segurança que recebia, em seu serviço, a visita ilustre do fantasma de Aarão Reis”, com previsão de lançamento para 2020.

O que me deixa feliz é que todo esse catálogo se deu em apenas um ano e meio! Exatamente! De janeiro de 2018 a agosto de 2019 foram 9 lançamentos e duas obras em processo de escrita com muitos sorrisos e sonhos realizados. E ainda há muito mais por vir.

Mas o melhor de tudo isso é provar a possibilidade de uma nova forma de fazer literatura, e literatura de qualidade, o que significa que há outros caminhos que não a busca incessante e saturada pelo mesmo. É possível, portanto, inventar e reinventar caminhos, onde a arte literária se sobreponha aos padrões, dando aos escritores e leitores uma nova perspectiva e existência. Tudo começou com esse pensamento, exatamente como uma semente já transformada em árvore, ou, melhor dizendo, em Árvore das Letras.

A INCRÍVEL ARTE DE SEMEAR IDEIAS LITERÁRIAS

Por Elis-Rouse, do site LiteralMente, UAI

Disseminar, espalhar, plantar, os sinônimos de semear nunca foram tão pertinentes quando se trata do escritor mineiro Leandro Bertoldo Silva. Dos frutos colhidos, quem tem a agradecer são os deuses da literatura.

A história de Leandro com a leitura é daquelas à moda antiga, com a receita infalível do incentivo familiar.

“Meus pais sempre incentivaram a leitura dentro de casa, sempre compraram livros para mim e meus irmãos. Lia-os de cima de um pé de ameixa na casa de minha avó, que eu transformei em biblioteca, pois fazia dos galhos dessa árvore verdadeiras estantes naturais repletas de livros que eu ia ganhando e colecionando. Lá passava a maior parte do meu tempo,” conta Leandro.

Inspirado pela leitura de clássicos como “Cinderela”, livros da Coleção Vaga-Lume e autores como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Drummond, Clarice e Fernando Sabino, o desejo de escrever e eternizar suas próprias histórias foi só uma questão de tempo.

“Eu era muito novo e não tinha uma formulação muito clara do que aquilo representava, mas aqueles escritores me ensinavam muito, como ensinam até hoje. E entre as muitas coisas que eles me ensinaram está o fato de eu querer profundamente estar entre eles, fazendo parte do mundo das histórias, dos poemas, dos romances, dos contos. Eu também queria escrever livros e inventar histórias”, conta.

Suas histórias carregam o tom poético, leve e que reverberam para muito além da última página. Leandro afirma que não costuma seguir um ritual de escrita ou processo criativo, mas destaca em suas obras uma tendência memorialista.

“O escritor Bartolomeu Campos Queirós diz muito bem que “a memória é um espaço interno onde a fantasia conversa com a realidade”. É exatamente assim comigo. Toda história, seja um conto, um romance ou até um pequeno haicai parte de uma memória para depois ganhar outros sentidos e significados. No meu caso é a memória que está sempre presente.”

Entre os diversos poemas e contos saídos do fundo da memória, quatro livros já foram publicados:Entrelinhas Contos mínimosJanelas da Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno, Relicário Pessoal – Haicais e o primeiro livro infantil O menino que aprendeu a imaginar, lançado no primeiro semestre deste ano. A grande novidade é que todos os livros são produzidos, publicados, distribuídos e vendidos pelo próprio autor.

Todo o processo editorial está literalmente nas mãos do autor, que optou em ser um escritor independente. Amante da literatura, Bertoldo recusou diversas propostas de grandes editoras e no “faça você mesmo”, criou seu próprio método de publicação, por meio do projeto “Alforria Literária”, uma alternativa diferente, barata e sustentável de publicação.

Alforria Literária

É um selo editorial dedicado a publicação de livros. Surgiu da necessidade de gerenciar a venda dos seus livros e oferecer uma alternativa mais barata para os leitores. A demanda pelo livro físico e a compra direta das mãos do autor era latente, como conta Leandro.

“Durante o ano de 2017 e já início de 2018, recebi alguns contatos de leitores interessados em adquirirem os meus livros. Curioso que todas as pessoas queriam comprar os livros diretamente comigo, embora estejam disponíveis para venda em plataformas online. Isso é totalmente compreensível, uma vez que no final o livro sai a um preço muito alto para o leitor”.

Em uma sacada genial de autopublicação, aliada a uma consciência de sustentabilidade, nasceu a Paula Britto.

Paula Britto – A arte da impressão sustentável

O diferencial das publicações da Alforria Literária é a produção totalmente manual feita em uma máquina especial, própria para fazer livros, chamada “Paula Brito”.

O nome feminino é uma homenagem a Francisco de Paula Brito, fundador da “Marmota Fluminense”, uma livraria no Rio de Janeiro, do século XlX, onde Machado de Assis teria iniciado sua carreira literária.

Feita de madeira de Ipê reaproveitada, a máquina de fazer livros ganhou vida nas mãos de Egídio Souza, um luthier da cidade que comprou a idade e desenvolveu com Bertoldo um modelo pioneiro de publicação sustentável no Brasil.

Os livros produzidos na “Paula Brito” são feitos em papel reciclável nos tamanhos 14,8 x 21 cm – 75g. As páginas são impressas no processo normal, via computador.

O primeiro toque especial vem nas capas confeccionadas manualmente com papel personalizado com fibras de material orgânico e tinta natural. A finalização das capas fica por conta da esposa de Bertoldo, a artesã Geane Matos.  A partir daqui a máquina entra em ação para finalizar o livro, unindo o miolo a capa.

Utilizando essa matéria-prima, a Alforria Literária afirma seu compromisso junto ao meio ambiente, lembrando que a reciclagem e a sustentabilidade contribuem para a geração de empregos, a redução do lixo e a qualidade de vida desta e das futuras gerações”, como afirma Bertoldo.

Veja como a “Paula Brito” funciona

A vida no Vale do Jequitinhonha

Há nove anos, Leandro Bertoldo Silva Silva deixou a capital mineira para viver na cidade de Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais.

A região conhecida pela riqueza no artesanato, e a carência de uma população que sofre com a seca e o descaso das autoridades, ganhou muito mais que apenas mais um habitante, ganhou também um incentivador de uma arte que, assim como o teatro e o cinema, é praticamente ausente na região, a literatura.

Leandro desenvolve diversos projetos de incentivo à leitura e escrita, e as artes na região por meio do projeto Árvore das Letras, criado em 2014.

Curso Vivenciando a Linguagem, Leitura e Escrita

 É um curso pago, onde os alunos desenvolvem habilidades de escrita criativa. O curso auxilia não apenas pessoas que desejam colocar no papel suas histórias, como também serve como preparativo para a redação do ENEM. Mais de 100 pessoas já passaram pelo projeto.

IMG-20170515-WA0015

Grupo de leitura dramática

O projeto faz parte do curso “Vivenciando a linguagem, leitura e escrita”, que abarca pessoas de diferentes idades interessadas em ler e interpretar obras de grandes autores da literatura.

Privilegio nas leituras autores nacionais como forma de valorizar a nossa literatura clássica, moderna e em língua portuguesa. Já trabalhamos com Machado de Assis, através dos contos “Missa do Galo” e “Um apólogo”; Fernando Sabino, com o conto “O homem nu”; Murilo Rubião, com “O pirotécnico Zacarias”; contos recolhidos de Alaíde Lisboa, com “O espelho, a bota e a rosa”; a história “O pescador, o anel e o rei”, da contadora de histórias Bia Bedran e “A felicidade está dentro de nós”, de Isaura Caminhas Fasciani”, conta Leandro.

Whatsapp “Novos Leitores”

É um grupo para troca de informação literárias e leitura coletiva. Leandro distribui gratuitamente, também via Whatsapp, por meio da lista de distribuição “Mais literatura”, pequenas pílulas literárias com novidades e dicas de conteúdo literário produzido por outras fontes, inclusive do LiteralMente,Uai!

Oficinas de artes, literatura para adultos e crianças

Em parceria com a esposa Geane, o projeto Árvore das Letras oferece oficinas e cursos de pequena duração voltados para as artes em geral, pintura e découpage, decoração de caixas, entre outros.

Livros

Em meio a uma presença cada vez mais marcante das tecnologias na vida atual, e os índices cada vez menores de leitores, Leandro têm uma visão positiva na batalha de atenção entre os livros e as tecnologias.

“Talvez a questão não seja disputar, mas harmonizar uma coisa com a outra. As histórias precisam ser lidas e se a tecnologia pode ajudar é melhor inseri-la no processo.”

Fato é que o brasileiro lê cada vez menos e as livrarias em decadência acabam fechando as portas. Isso faz com que o processo de fazer o brasileiro ler mais se torna cada vez mais árduo, contudo, não menos prazeroso.

“Passa muito pelo incentivo em casa, como aconteceu comigo e pela escola, mas não da forma tradicional e comumente usada. Acho um verdadeiro desserviço quando os professores pedem os alunos para lerem um livro com o objetivo de aplicarem uma prova escrita. Não se dá prova de livros! Isso mais desconstrói um leitor do que provoca o efeito desejado que é formá-lo. Técnicas e didáticas podem até existir, mas é preciso que o prazer das histórias, de se descobrir um mundo diferente do seu sobreponha à técnica. O ser humano é curioso e desbravador por natureza. Se conseguirmos atingir esse nível de curiosidade e prazer sem a obrigação, certamente as pessoas lerão mais. Não é fácil, mas é possível”, explica.

Leandro Bertoldo Silva faz a diferença para literatura nacional e o faz com prazer!

Sou feliz porque sou escritor; sou feliz porque também estou nessa árvore e, principalmente, sou feliz porque hoje faço para as pessoas o que fizeram para mim: oferecer a chance de conhecer um mundo capaz de transformar para o bem a realidade de alguém. Este é o meu propósito na vida.

Algumas curiosidades sobre o autor

Se pudesse indicar um livro para quem nunca leu por prazer, qual seria?

A Palavra Mágica, de Moacyr Scliar.

Qual livro você mais leu?

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e ainda o lerei muitas outras vezes, pois é fascinante a coragem desse livro e é uma verdadeira aula de estrutura narrativa deixada por Machado.

Cite um livro que te marcou.

O Encontro Marcado, de Fernando Sabino… Marcou-me literalmente!

Qual autor/autora te inspira

Mia Couto, para mim, é sem dúvida um dos autores mais importantes e talentosos da literatura contemporânea em língua portuguesa. Ele diz que um livro é bom quando ele te empurra para a escrita. Os livros do Mia, todos eles, fazem isso comigo.

Ler é…

Se descobrir pelos olhos e pela imaginação.

Escrever é…

Existir. Escrevemos porque estamos vivos e temos a necessidade de contar histórias.

Ser escritor hoje no Brasil significa?

Ter coragem de buscar por novas possibilidades.

Conheça seus livros

Entrelinhas Contos Mínimos: Com pouco mais de 120 páginas, a obra, que já está na segunda edição, traz uma coletânea de minicontos que retratam diversos momentos e situações diárias. Leia a resenha aqui.

Janelas das Alma: uma tempestade íntima, um conflito, um retorno: É um romance que conta a história de Jorge, um jovem publicitário que vive as pressões que a vida, implacavelmente, impõe a todos: a necessidade quase obrigatória de sermos perfeitos, como bom filho, bom pai, boa esposa, bom amigo, bom profissional, bom tudo! Amargurado e cansado, resolve sair em uma viagem de férias que não tirava há muito tempo, para aliviar sua angústia. No caminho do aeroporto, se depara com um acontecimento que mudará completamente a sua vida. Leia a resenha aqui.

Relicário pessoal – haicais: Em 90 páginas, Leandro apresenta pequenas historinhas em formato de haicais. Histórias leves e originais em um livro fascinante.

MAPINGUARI

Conta a lenda que existia na floresta um bicho esquisito que, dizem, comia gente… Chamava-se Mapinguari! Esse bicho eu sei que ninguém conhece, mas ele é conhecido de outro bicho que esse… Também ninguém conhece! Sabe que bicho era? Nada mais, nada menos do que o Rei Zilá, o Rei da escuridão… Bem, se isso é verdade eu não sei… O que eu sei é que essa história é mesmo de assustar, e começa assim…

Quero levantar da sombra

e o mundo dominar.

Quero fazer do escuro

um lugar pra se morar.

Quero um mundo diferente,

quero todo mundo respeitando a gente.

Quero um planeta sem cor,

quero que o perfume abandone a flor.

Eu sou Zilá, há, há, há, há!

Eu sou a sombra, há, há, há, há!

Faço do escuro um medo engasgado

e acato o lamento do choro vingado!

A sombra me aquece,

o terror engrandece,

a feiura estremece…

Eu sou o mestre!

Eu sou Zilá, há, há, há, há!

Eu sou a sombra, há, há, há, há!

Eu sou Zilá!

Caçador
Ilustração de Adilson Amaral

Só que nessa história não tem Zilá nenhum… Ele é só conhecido do Mapinguari, o tal bicho de nome esquisito que vivia na floresta! Ele era grande… Quase quatro metros! Tinha os cabelos vermelhos e as orelhas pontudas. Vivia no meio das árvores e imitava o pio dos pássaros… Fiu, fiu… prrrrit, prrrrit!

Em noite de lua cheia ele se transformava em menino, saia e entrava no terreiro das casas à procura de comida. Todos tinham medo dele, tinham medo da noite e tinham medo da lua…

— Besteira! Isso não existe… — diziam os mais jovens.

— Cuidado, meninos, com o bicho… — diziam os mais velhos.

Um dia, apareceu no terreiro da casa de um caçador um menino estranho. O caçador, ouvindo um barulho, foi até a janela, mas não viu ninguém. Até que ouviu um batido na porta…

TOC, TOC, TOC!

O caçador foi andando até a porta…

— É… Quem está aí?

— É o bich… Quer dizer, é um menino…

— Menino?!

O caçador, então, lembrou que aquela noite era noite de lua cheia! E já meio amedrontado, perguntou:

— E o que você quer, me-me-menino?

— Ah, apenas um pouco de comida!

Comida? Menino?! Lua??!! E o caçador já bastante amedrontado, perguntou:

— E o que, vo-você co-co-come, me-menino?

— Ah, qualquer coisa… Até mesmo um pedaço de pão!

Ah, que alívio! Não era o bicho, pois esse comia gente! O caçador, então, cheio de coragem abriu a porta…

NHÉÉÉÉÉÉ….

Quando ele abriu a porta… Sabe o que ele viu? Viu que, de fato, era um menino, e que ele tinha os cabelos vermelhos e as orelhas pontudas…

— Ai, meu Deus do céu!! É o bicho! É o bicho! Socorro, meu Deus do céu! Ai, ai, ai, ai, ai… Socorro! É o bicho, meu Deus!

— Sim, sou o bicho! Transformei-me em menino e vim me encontrar com o senhor!

— E vai me comer, bicho do mato?

— Do mato eu sou, do mato em vim, mas não vou comer ninguém… Vim para dizer que existo, mas não sou mal como dizem que sou!…

— Veio para dizer isso?! — perguntou o caçador admirado.

— Vim para pedir uma coisa! Não tenham medo de mim, como a todos os meus amigos animais. Vocês é que nos caçam, vocês é que nos comem e, muitas vezes, não por fome…

O caçador ouvindo isso abaixou a cabeça e, envergonhado, pediu desculpas pelas atitudes malvadas dele. Quando levantou a cabeça não mais viu o menino-bicho, que já havia voltado para a floresta. Ouviu apenas um som longo e fino sumindo pela noite.

Fiu, fiu… prrrrit, prrrrit!

Para ouvir o conto narrado, clique abaixo!

Aproveite para curtir o canal, dê um like, se inscreva e vamos divulgando a literatura!

Forte abraço!

Leandro Bertoldo Silva.

A PASSAGEM

A Passagem

Não me procures ali

onde os vivos visitam

os chamados mortos.

Procura-me dentro das grandes águas.

[…]

 Hilda Hilst

Um dia, um pescador saiu para pescar. Levantou mais cedo que os outros e foi para o mar. Lá, desembainhou o facão e desvestiu a pele de seu corpo, jogando-se na água. Assim que seu corpo sem pele tocou a água, ele transformou-se em um peixe lindo, encantando os outros peixes, conduzindo-os às redes dos outros pescadores a essa altura já armadas. No final do dia, já em forma de homem, voltou para casa levando um único peixe, diferente dos demais que voltaram com as redes cheias. Com o tempo, seu filho foi achando aquilo estranho, mas era só ouvir as algazarras dos meninos, que logo esquecia e ia brincar com as outras crianças.

Numa bela manhã, o rapaz acordou mais cedo do que o pai. Esperou que ele saísse e o seguiu, presenciando tudo o que fazia. Naquele dia, o pai não mais voltou para casa. Os pescadores também não levaram peixe algum. Assim foram todos os outros dias seguidos até que o rapaz, mantendo silêncio, fez o que precisava: levantou cedo e foi para o mar procurar o pai. Ao chegar, viu-o de costas na margem da água, parecendo que o esperava.

            — Você descobriu… Agora terá que tomar o meu lugar.

            — E se eu não quiser, pai?

            — Todos morrerão de fome. Nós dois sabemos que não há escolha.

Desembainhou o facão… Um grito de pânico se fez ouvir. O rapaz sentou-se na cama, sentindo-se completamente ofegante e suado…

            — Pesadelo, filho?

            — Sim, eu…

            — Já não era sem tempo… Levante-se! Hoje você vai pescar comigo.

            Um medo terrível assolou o garoto, e ele fez a mesma pergunta do sonho:

            — E se eu não quiser, pai?

            — Nós dois sabemos que não há escolha… Eu vi como ontem você não quis brincar com as outras crianças…

O tempo havia chegado… E foi assim que a passagem de sua infância se deu como uma lâmina a desvestir o seu corpo e expor a sua alma. Era isso o que pensava, lembrando-se do pai, enquanto ele, agora homem feito, olhava o filho que dormia parecendo sonhar…

Ouça o conto narrado

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

https://www.youtube.com/channel/UCQogOcP-pTO9eMGlk4QHAGA?view_as=subscriber

Assista, dê um like, faça seus comentários, se inscreva e ajude a divulgar cada vez mais a literatura!

FERIDAS ABERTAS, SOPROS DE LUZ

 

Por Leandro Bertoldo Silva, a partir da vivência da Estufa de Futuros: Modos de Convívio, Produção e Gestão na Cena Contemporânea, mediada por Cynthia Margareth.

y

Entre os dias 18 a 23 de junho aconteceu o FESTTO – Festival Nacional de Teatro de Teófilo Otoni, organizado pelo Instituto Cultural In-Cena, em que reuniram artistas, pensadores e formadores de opinião de várias cidades e regiões do Brasil numa troca efervescente de arte e cultura.

Teatro, dança, música, literatura, oficinas, encontros, rodas de conversa nortearam pensamentos e fortaleceram posturas em busca de um lugar melhor, mais justo e humano, onde as vozes puderam ecoar atravessando fronteiras e transformando sentimentos. Aprendemos que é possível falarmos outras línguas, que o medo e a intolerância em suas várias faces em tempos que atravessamos não são armas capazes de fazer calar. Não por acaso, o que nos conduziu nesses dias de trocas foi o “verbo e aquilo que nos afeta”; o verbo sim, nossa ferramenta de poder, porque ninguém cala aquilo que fala.

Tivemos, nós da Árvore das Letras, a grande oportunidade de estarmos inseridos no projeto Estufa de Futuros: Modos de Convívio, Produção e Gestão na Cena Contemporânea, mediada pela Cynthia Margareth, de Campinas/SP.

Nesse lugar dialogamos com vários grupos, colhemos depoimentos, ouvimos histórias… E mais do que isso, semeamos, entre tantos terrenos férteis, sementes de esperança e vimos brotar quase que instantaneamente frutos de coragem.

Transcrevo abaixo a essência do que vivenciamos de forma visceral nestes dias onde a luz soprou seus raios de vida.

 

g

Gente

Dentro de nossas inventações compartilhadas… ESTAMOS AQUI!

Encontramo-nos ou nos reencontramos em um MeiMundo de pessoas ávidas por Companhia (de teatro)? Ou, ainda, seríamos um Bando de artistas loucos que gritam suas coragens, estando sempre em busca de uma bela e Adorável Companhia?

Como diz Sophia de Mello Breyner Andresen: “Há momentos que são quase esquecimento numa doçura imensa de regresso”.

Sim, este momento de fala e escuta, mais do que um encontro, foi um regresso de almas, uma revisitação de nossas histórias que, por mais diferentes que sejam, tornam-se todas iguais, tornam-se nossas. Somos artistas, caras pintadas das emoções. Aonde vamos, aonde quer que vamos, voamos para Ser estrelas. E vamos juntos!

IMG-20190623-WA0001

 

IMG-20190622-WA0003

Durante esses dias, feridas foram abertas à procura de cura num desejo enorme por soluções… Oh, meus amigos… Deixe-me contar uma história, história de palhaço, que permeia o nosso imaginário e que aqui esteve e está tão presente entre nós…

Tinham-lhe tantas vezes pedido conselhos… Era o redentor de todos os sofrimentos que assolavam as almas em conflito, a ponto de impedir suicídios. Alegria – o palhaço da luz –, como era conhecido, escolheu as ruas como o seu picadeiro e nelas transformava pessoas. Agonia mudava-se em sonhos e medos em esperanças. Contudo, algo curioso acontecia: Alegria era triste… O homem por trás do palhaço não conseguia fazer consigo o mesmo que fazia com os outros, pois não tinha tido a sorte de encontrar alguém que o apresentasse a si…

Pois essa sorte nós tivemos! Encontramo-nos e nos apresentamos a nós!

20190620_155746

Cia Bando, de Belo Horizonte, bela como a cor de sua raça, a verdade de se afirmar negro, potencializando habilidades;

Cia de Teatro Gente, gente como a gente em busca do encontro e da coragem de se transformar e transmutar da morte à vida. À benção, Plínio Marcos;

Adorável Companhia, que traz no nome a sua identidade no desejo de mostrar inteiro – nunca mais ou menos – que o que nos aproxima pode ser sempre mais forte do que aquilo que nos afasta;

Companhia de Teatro, nas paixões de Paixão, transitando do macro ao micro e encontrando nas casas e jardins os palcos inimagináveis. Capitão, oh, meu capitão, tu és um sucesso!

MeiMundo Inventações Compartilhadas, fazendo-se enxergar na potencialidade da não-invisibilidade, pois existimos e podemos ser.

Assim, foi a nossa viagem. Muito prazer a todos que tiveram a coragem de se mostrar e escancarar suas feridas ao encontro da luz. Só assim, revisitando-nos, é que encontramos a chave que nos abre e descobrimos que estamos todos juntos em um mesmo lugar.

Que lugar é este?

Oh, meus senhores, minhas senhoras, respeitáveis artistas… Não poderia nunca, jamais ser outro que não a mágica e encantadora condição de estarmos IN-CENA!

20190620_185634  

RECORTES

Recortes

Não podemos exigir o amor de ninguém.

Podemos apenas dar bons motivos para que

gostem de nós, e ter paciência… para que a vida

faça o resto.

 (Clarice Lispector)

Desiludido, escreveu num pedaço de papel: “Meu amor não tem rosto nem nome…”. Aquilo o incomodou até que o tempo anestesiou sua dor. Por alguns anos, até que procurou a dona daquelas palavras que saíram de si. Já tinha uma pequena caixa de recortes, na qual moravam imagens de mulheres sem nudez ou sequer sensualidade. Vestidos em bustos, braços, pernas, todas elas comuns e sem rosto, faziam-se companheiras dos papéis já amarelados e esquecidos, quase que com suas letras desbotadas. A inércia daquele encontro e a insistência da sua impossibilidade fizeram com que desistisse de vez e aposentasse suas imaginações por anos, vivendo apenas em sua companhia. Já idoso, porém, ao limpar sua estante, deparou com aquelas lembranças e quis jogá-las fora. À porta de sua casa, abriu a tampa do coletor e, no derradeiro movimento, ouviu uma voz que lhe disse:

“Meu nome é Judite. Preciso de uma informação…”.

Ao fitar a senhora que sorria, seu rosto se desenhou em cada pedacinho de papel que segurava e, junto com o nome, preencheu o que faltava…

Ouça o conto narrado:

Acompanhe essa e outras histórias no nosso canal do Youtube no Literatura em Áudio.

https://www.youtube.com/channel/UCQogOcP-pTO9eMGlk4QHAGA?view_as=subscriber

Assista, dê um like, faça seus comentários, se inscreva e ajude a divulgar cada vez mais a literatura!

RESUMO DA ÁRVORE – 01 A 08 DE JUNHO

Olá!

Abri essa semana com um haicai que dizia:

Ponte entre tempos…

Mundos que se completam…

Quem sou eu agora?

De fato, esses dias que passaram foram como pontes que me conectaram a vários lugares diferentes, mas que se completaram em mim, contribuindo para que eu cada vez mais afirmasse em mim mesmo quem sou e o que eu faço.

Aconteceram muitos encontros com gente bacana no espaço físico da Árvore das Letras, muitos abraços e muitas esperanças de um mundo melhor, com mais leitura e mais consciências.

Foi linda a visita que fiz na Escola Municipal José Rodrigues da Silva, na Vila dos Posseiros, dando sequência em minha jornada de levar literatura pelo Vale do Jequitinhonha e Mucuri. O Menino que Aprendeu a Imaginar – Oswaldo e o palhacinho de chapéu de guizos – estão andando bastante e conhecendo muita gente legal! Ainda quero visitar muitas outras escolas e instituições, principalmente como essas onde a simplicidade nos alimenta de maneira tão rica e autêntica. Estive com alunos, pais, professores e fui tão bem recebido que me senti até no Sítio do Picapau Amarelo ao me encontrar com a Emília. Um dia ainda volto lá como Visconde…

20190606_085028

20190606_092241

 

IMG-20190606-WA0028

Outra coisa muito legal dessa semana nasceu com uma pergunta:

VOCÊ JÁ OUVIU LITERATURA?

Com essa pergunta publiquei aqui no blog e nas redes sociais um pequeno áudio de 2 minutos e 20 segundos contando a história de Pedro e João, dois amigos que se conhecem desde a infância e passam 86 anos juntos até que a separação é inevitável, mesmo que por instantes… Você pode ler e ouvir a história no post abaixo.

O que me deixou muito feliz é que recebi muitas mensagens de várias pessoas que ouviram e não só gostaram, mas deram a ideia de que eu criasse um canal no youtube, onde eu pudesse ir publicando as histórias. Como o canal já existe, mas estava meio parado, resolvi reativá-lo, porém direcioná-lo para esse trabalho, inclusive pensando em gravar alguns contos de Machado de Assis e outros textos de domínio público. Ok, embora o audiolivro já exista na internet, sempre achei as narrações um pouco frias e monótonas… Assim, penso em fazer do meu jeito, dando à leitura e aos personagens um pouco de interpretação, usando efeitos e trilha sonora para conectar com a atmosfera da história, como nas novelas de rádio e nos antigos discos de contos.

Leandro Bertoldo Silva (1)

Agradeço as mensagens e as sugestões, inclusive podemos atender, assim, os portadores de deficiência visual, o que é muito bacana.

Bem, então é isso! Vamos em frente divulgando a literatura cada vez mais e por todas as formas possíveis!

Forte abraço, vamos para mais uma semana e fique ligado no que vem por aí!

Leandro Bertoldo Silva.

CUMPLICIDADE

algodão doce

Por Leandro Bertoldo Silva

[…]

A morte apenas existe por uma brevíssima

troca de ausências.

[…]

Mia Couto

O momento havia chegado. “Todo encontro está fadado à separação”, não é assim? Na vida daqueles dois amigos, não era diferente. Apenas havia o entendimento de que era por um breve instante, tão breve como o bater de asas de uma borboleta, como aquela do parque onde, pela primeira vez, quando crianças, comeram juntos os primeiros algodões-doces: branquinhos, felpudos. A novidade transformara-se em símbolo de amizade nascida junta na mesma maternidade e perpetuada até ali, 86 anos depois.

            Agora, nos derradeiros minutos em que apenas a espera separava aquele encontro terreno, o velho amigo doente, perante os olhares condolentes, viu, pela janela, uma frestinha do céu repleto de nuvens branquinhas e felpudas e, num filete de voz quase sumida, disse ao amigo outro que se mantinha ao seu lado:

            — Pedro… Olhe… Está vendo? Algodões-doces…

            E, junto com os seus olhos que se encontraram num último sorriso de cumplicidade, veio a resposta calma, serena:

            — É sim, João… E não se esqueça… Quando você chegar lá, guarde um pedacinho pra mim…

Clique para ouvir o conto narrado

O INCENTIVO NASCE DE NOSSAS AÇÕES

1

Esta é uma publicação de agradecimentos! Agradecimento a todos que compareceram ao lançamento do livro O Menino que Aprendeu a Imaginar no dia 30 de abril, em Padre Paraíso, demonstrando o seu carinho e principalmente a sua valorização pela leitura, pela arte e cultura. Não citarei aqui nomes porque não seria possível dizer todos e, para mim, todos que lá estiveram são especiais, assim como os que não puderam estar presentes, mas que enviaram palavras de apoio e até mesmo orações que muito me fortaleceram. Muito obrigado!

4

5

Mas essa é também uma publicação de reflexão! Reflexão pela ausência de muitos professores e demais profissionais da educação que trabalham com o incentivo à leitura, que não medem esforços, ou pelo menos assim é para ser, para fazer com que um aluno, uma criança ou jovem valorize o livro, os autores, os ilustradores e todo um trabalho que é feito com muito empenho e responsabilidade. É preciso pensar que o incentivo nasce de nossas ações; que precisamos retribuir aquilo que muitas vezes solicitamos num pedido de visita a uma escola, a uma contação de histórias ou mesmo uma presença ou palavra em um projeto de leitura.

10

11

Estamos vivendo um momento crucial em nossa existência social, cultural, educacional, moral, onde não é mais possível viver sem a verdade dos nossos sentimentos, em agir por forma e diferentemente daquilo que dizemos. Mas como aquela história de um menino que andando em uma praia repleta de estrelas do mar, pegava uma a uma e a jogava de volta à água para salvá-la, e ao ser criticado por alguém por haver milhões delas e ele não ter condições de salvar todas, fico com a resposta do menino ao olhar bem para a pessoa, se abaixar, pegar mais uma, jogá-la na água e dizer: “para essa eu fiz a diferença…”

Que bom que tivemos muitos meninos e meninas jogando estrelas do mar de volta ao oceano neste dia…

IMG-20190501-WA0013