FAZER 50 ANOS

Fazer 50 anos não é um aniversário como os outros, não que os outros não tiveram importância. Afinal, só chegamos aos 50 por causa deles. Mas fazer 50 anos é a junção de dois momentos: um que se fecha e outro que se abre. É aquele momento exato entre o final do dia e o início da tarde. Também poderia ser da tarde para a noite ou da noite para o dia. É a pausa da inspiração para a expiração. E embora tudo possa parecer imperceptível, a mudança acontece trazendo as marcas do tempo, as consequências das escolhas, as palavras ditas, os olhares revelados, os abraços dados, os encontros realizados.

Fazer 50 anos é poder, sim, olhar para trás, avaliar, analisar com minúcias. É poder se dar o direito de sentar à sombra da árvore, afiar o machado da vida com mais paciência, sem correria, pois o ritmo pode ser mais lento, o que não significa ser menos eficaz, mas dosado com mais calma, com mais inteligência.

Fazer 50 anos é estar à porta de onde moram as pessoas que já passaram por tudo que passamos até então e que sabem que todas as experiências são válidas, mas que muitas delas não precisam ser levadas tão a sério. Aliás, brincar é abandonar qualquer tristeza e adquirir a qualidade da inocência sem ser infantil.

Fazer 50 anos é engravidar de si mesmo e renascer criança madura.

Obrigado a todos e todas que me acolheram em suas vidas. Obrigado por fazerem parte da minha. Gratidão pelas palavras de carinho. A história continua agora em outras páginas.

E ASSIM VÃO NASCENDO ESCRITORES

A Árvore das Letras através do selo Alforria Literária concluiu mais um projeto de livro: “Histórias de um rapidinho em quarentena”, do escritor, jornalista e contador de histórias Ricardo Albino.

Como eu digo sempre, o prazer de ler é resultado de estímulos constantes, que aos poucos se torna uma questão de gosto, escolha e atitude. E para isso é necessário ter acesso aos livros. E esse acesso precisa ser facilitado não apenas para o leitor, mas também para o escritor a fim de produzi-lo.

Eu como escritor independente por opção e convicção sei bem disso e resolvi assumir há alguns anos a missão de fazer nascer livros e autores. Seja bem-vindo, Ricardo. Que o seu livro possa levar luz ao coração das pessoas.

Se você é escritor, escritora e deseja ter o seu livro publicado de forma justa, sustentável e ecológica entre em contato com a Árvore das Letras. Se você é um leitor, uma leitora consciente dos novos talentos valorize a literatura independente.

Para adquirir o livro “Histórias de um rapidinho em quarentena” entre em contato com  Ricardo Albino no https://www.facebook.com/ricardoflavio.mendlovitzalbino

O NASCIMENTO DE UM LIVRO

“Certa vez, eu e meu amigo Leandro ouvimos em uma live da Árvore das Letras a seguinte frase de Dona Araci: ‘O bom de ser escritor(a) é que primeiro a gente engravida das ideias e depois pari as histórias'”.
(Ricardo Albino)

Pois é, essa é uma semana muito especial, onde o meu amigo Ricardo Albino apresentará oficialmente o seu primeiro livro Histórias de um rapidinho em quarentena, que tive a alegria e o prazer de confeccionar aqui na Árvore em mais uma publicação da Alforria Literária. Será no “Trilhas da Palavra”, na próxima quinta-feira, às 19 horas. Mas até lá, vejam como nascem os livros da Alforria e, claro, o livro do nosso grande amigo Ric.

Saiba mais sobre as publicações da Alforria Literária e o seu conceito sustentável clicando AQUI.

APESAR DO TEMPO, PAI.

Por Leandro Bertoldo Silva

Desculpe, pai, mas desconfio que não lhe obedeci. Nem ao senhor nem à mãe. Lembra aquele dia quando eu tinha 5 anos? Tudo bem, faz muito tempo, mas o senhor há de lembrar. Foi aquele dia que eu vi outras crianças pegando papel na rua e colocando dentro de um saco para levá-lo a um depósito, onde era pesado e o seu peso pago em moedas. Pai do céu! O senhor não imagina como os meus olhos brilharam. Não sei se pela oportunidade de ganhar dinheiro, pois era muito bom quando o moço do depósito nos entregava as moedas, ou pela própria ação de juntar-me às outras crianças no trabalho de vender papéis. Acredito que eram as duas coisas, acrescido de ainda poder levar recursos para casa, afinal eu já estava me tornando um homem!  Lembro-me bem da sensação… “Uau! Ganhar dinheiro é tão fácil e tão gostoso!” O senhor não me reconheceu na rua. Tudo bem, pai, não há nenhum mal nisso. Não tinha mesmo como me reconhecer, eu estava todo sujo. Lembra como foi? O senhor estava a voltar do trabalho quando em uma das inúmeras idas e vindas minhas com o saco às costas cheio de papel a caminhar até o depósito,  passou por mim.

— Oi, pai.

— Oi, filho. Oi, filho?!

Pois é, naquele momento o senhor me levou embora e junto com a mãe, depois dela ter me dado um banho daqueles, sentaram para conversar comigo. Nossa! Como me lembro dos olhos da minha mãe, olhos de ternura. Os do senhor também. Só não entendi muito bem o sorrisinho que estava junto deles quando eu disse estar trabalhando para ajudar nas despesas da casa. O quê? Eu não disse isso a vocês? Mas eu deveria. Então digo agora, mais de 40 anos depois. Engraçado, eu sempre achei que tinha dito isso… Porque lembro bem o senhor e a mãe — ah, os olhos da minha mãe… —, dizerem que eu não precisava fazer aquilo, que nesse ponto eu era diferente das outras crianças. Diferente como, pai? Porque elas eram pobres e a gente não? Sabe de uma coisa, pai, descobri que na vida existem vários tipos de pobreza e de riqueza, e aquelas crianças eram muito ricas. Puxa vida, como eram ricas em liberdade e alegria. O senhor precisava ver como ficávamos alegres no meio da rua, quando encontrávamos um papelão mais grosso que ia render boas moedas. As risadas, pai… Quanta riqueza naquelas risadas! Mas o senhor tem razão em um ponto… Pai, eu vou te contar um segredo que eu nunca contei para ninguém. Eu fiz uma coisa errada. Senti-me tão mal, pai! Era como se o senhor e a mãe nunca fossem me perdoar. Sabe, essa sensação era muito pior do que pensar no castigo de Deus que falavam nas igrejas. Nesse ponto eu fui mesmo diferente das outras crianças. Sabe o que elas faziam? Elas pegavam uma pedra bem grande e colocavam dentro do saco no meio dos papéis que era para pesar mais na hora da balança. Então… Eu fiz isso também. Mas foi uma tentativa só. Foi muito esquisito. Porque enquanto os meninos riam lá fora eu achava que aquilo não estava certo. Mas eles me chamavam de bobo. Ah, isso não! Aí fui provar que eu não era bobo. Peguei uma pedra bem pesada e coloquei no saco. Ela era tão pesada que foi parar lá no fundo. Bem, o moço do depósito logo achou algo estranho, porque eu mal conseguia carregar o saco. Além disso, eu tremia igual vara verde, e os meus olhos faltavam saltar do rosto de tanto medo. O meu coração batia de um jeito que dava para ver no peito sem camisa. O moço fez uma cara desconfiada, pegou o saco e pôs na balança. Pois é, deu para ouvir um “pléim” bem alto, o barulho da pedra no fundo ao bater no ferro. Que vergonha! Ele pegou a pedra, olhou e disse: “Ah, seu moleque…”. Ser chamado de moleque foi a pior coisa que já me aconteceu na vida. Os meninos tinham razão. Eu fui mesmo muito bobo, mas não por ter colocado a pedra no fundo e não no meio dos papéis, como eles disseram, mas por ter cedido àquela manobra. Não se preocupe, pai, o senhor e a mãe ensinaram direitinho, o erro foi todo meu. Mas valeu. Só não valeu o fato de não ter lhe obedecido, e aí voltamos ao início. Sabe o que é, pai? O tempo passou, não foi? E por mais que eu tenha estudado e formado no almejado curso superior, graças a vocês, com tanto sacrifício, eu queria mesmo era vender papéis. Desculpe, pai, mas aquele menino de 5 anos sempre cresceu dentro de mim. Ou melhor, eu crescia e ele vinha junto. Aí, no lugar do saco fiz uma prensa de madeira e nela colo e costuro papéis transformados em livros, que são pesados em uma balança um tanto diferente daquela de antigamente e enviados pelo Correio às pessoas. Está assim confessada a minha desobediência. Pois é, pai, precisava dizer isso ao senhor. Apesar de tudo, sou um vendedor de papéis. A diferença é que eles são escritos. Só não uso pedras; prefiro a poesia.

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Mais uma vez, obrigado por sua leitura. Ela é sempre importante e incentivadora da minha escrita. Espero ter gostado dessa história que me conectou ainda mais ao meu pai. Peço a gentileza de curtir, comentar e compartilhar com seus amigos. Você já sabe: Para um escritor é um presente valioso.

POIS É…

Por Leandro Bertoldo Silva

— Oi, amiga! Vi que você está on-line. Está Podendo falar?

— Oi, amiga! Claro, está tudo bem?

— Mais ou menos… Eu vou ter que digitar* porque o meu filho, o Artuzinho, está perto de mim e eu não quero que ele ouça. Nossa, menina… Estou muito preocupada com ele.

—O que ele tem?  Está doente?

— Não, bem, eu acho que não…

— Então o que foi?

— Você acredita que o Artuzinho agora deu para perder tempo com bobagens?

— Perder tempo com quê?

— Bobagens! Perder tempo com bobagens.

— Que bobagens?

— O Artuzinho está lendo. Livros!

— Jesus!

— Pois é… Você sabe que desde pequenininho ele sempre foi assim meio diferente… Mas agora deu pra isso! Passa o dia inteiro com um livro pra cima e pra baixo lendo. Até na escola!

— Até na escola?! E você procurou a diretora pra ver o que está acontecendo?

— Pensei nisso sim. Mas quando cheguei lá nem foi preciso conversar. Estava tudo absolutamente normal.

— Normal como?

— Todos os alunos estavam com seus celulares conectados, antenados no mundo.

— E o Artuzinho?

— Na biblioteca.

— Misericórdia! E você ainda fala que estava normal?

— Normal com todo mundo, menos com o Artuzinho. Como ele pode perder tanto tempo?

— Pois é…

— coloquei a melhor internet em casa, assinei vários canais de filme, futebol, tudo que os meninos da idade dele gosta e nada.

— Não só os meninos, não é amiga! Todo mundo.

— Por isso estou preocupada. Ele tem tudo e está deixando a vida passar. Só fica com aquele livro na mão. Sabe, estou pensando em procurar um psicólogo.

— Por isso não. Tem um aplicativo ótimo que resolve esse problem. É só você baixar e colocar todos os dados da pessoa e digitar no campo “assunto” o que está ocorrendo que ele dá o diagnóstico e indica o tratamento. E o melhor é que a pessoa, no caso o Artuzinho, nem precisa saber de nada.

— Mas isso é maravilhoso!! Ai, amiga… Eu sabia que seria ótimo falar com você. Sempre tão antenada, bem diferente do Artuzinho. Tá vendo as coisas maravilhosas que ele perde?

— Pois é…

— Ai, Nossa!

— Que foi?

— Ele está fazendo caras e bocas!

— Caras e bocas?

— Sim! Lendo o livro e fazendo caras e bocas.

— Isso tá ficando sério…

— Ai, ai, ai!!

— Que foi, que foi?

— Ele colocou a mão no rosto, balançou a cabeça e não tira os olhos do livro.

— Amiga, baixa logo o aplicativo e começa o tratamento.

— vou fazer isso assim que terminar de falar com você.

— Você consegue ver o que está escrito na capa do livro?

— Daqui está um pouco difícil, mas… deixa ver… Ai, não!

— O quê?

— Tem a palavra “crime” escrita lá.

— Minha nossa! Consegue ver mais alguma coisa?

— Espera um pouco… “castigo”… Crime e castigo… É o que está escrito: “Crime e castigo”.

— Hummm…. Isso não é nada bom. Consegue ver o nome de quem escreveu essa coisa?

— Olha… Nem se eu tentar acho que consigo decifrar.

— Digita aqui letra por letra.

— Boa ideia. D-O-S-T-O-I-É-V-S-K-I.

— Misericórdia! Nunca vi isso em lugar nenhum. Parece um código.  Olha direito. Deve ter um nome lá.

— “Fiódor”.

— O quê?

— É o que está escrito: “Fiódor”. Em cima do código.

— Nunca ouvi falar.

— Nem eu e nem quero, Deus me livre.

— Tem mais alguma coisa?

— Um desenho. Ai, que coisa horrível! Tem um desenho lá.

— Desenho de quê?

— De um rosto com olhos enormes.

— Amiga, a coisa tá muito séria.

— Oh, meu Deus! Por que esse menino não é normal igual aos outros?

— Calma, calma… Não faça movimentos bruscos. Finja que está tudo bem e vai saindo de fininho.

— Mas é o Artuzinho, meu filho!

— Eu sei, amiga. Mas pode ser perigoso. Ele tem feito algo estranho ultimamente, além de ler livros?

— Não sei. Você sabe como é, não tiro os olhos do celular.

— Claro que não! Você é como todo mundo! Tem uma vida normal. Ele ainda está fazendo caras e bocas?

— Ai, não amiga! Ele está fazendo algo pior!

— Pior? O quê?!

— Ele colocou o livro do lado, sacou um caderninho e começou a…. Meu Deus!

— Fala, fala!!

— Escrever! O Artuzinho está escrevendo!!

— Amiga, esquece o tratamento do aplicativo. Fique aí e não se mexa. Vou acionar a viatura e chamar o SAMU.

* Para melhor compreensão, as mensagens desse texto foram cuidadosamente traduzidas do internetês para a linguagem coloquial.

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Obrigado mais uma vez por estar aqui. Sua leitura é sempre um incentivador da minha escrita. Por isso, não deixe de curtir, comentar e compartilhar com seus amigos. Para um escritor é um presente valioso.

A LITERATURA É UMA ESCADA MUITO ALTA

Por Leandro Bertoldo Silva

Uma das condições que nos faz ser humanos é a nossa capacidade de ler. Ser leitor é estar inserido, não em um universo, mas em algo maior, uma espécie de pluriverso que é, ainda, mais vasto. Gosto dessa palavra: “Vasto”. Lembro-me de Drummond ao escrever: “Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução”. Bem, não me chamo Raimundo, mas supondo ser esse o nome de todos os alunos e alunas que dizem ter horror à leitura por não entenderem como, ao ler, somos transportados aos vastos mundos, conscientes e inconscientes, reais ou imaginários, busquemos a solução com licença ao poeta.

Antes, o que nos faz verdadeiramente humanos em nossa experiência leitora é perceber que não lemos somente as palavras. Há algo a mais nessa experiência que reflete a nossa condição lúcida de seres racionais dotados de uma inteligência superior. Sempre digo: precisamos aprender a ler a verdadeira natureza íntima de todas as coisas. Eu, como escritor, gosto dos leitores que leem os cheiros, os sabores, as lembranças, as saudades, as esperanças, as suposições… As letras são materializações do que sentimos, mas não devemos ficar presos nelas, pois se assim acontece, ficamos na superficialidade, no espelho das águas e perdemos a oportunidade de desfrutar o encontro das profundidades. É como a árvore; vemos o seu tronco, galhos, folhas e frutos, mas não enxergamos o mais importante: suas raízes. Na escrita se dá o mesmo. É preciso ler as raízes, o que está “escondido”, pois são elas a sustentar sua existência.

Mas deixemos as digressões. Até porque estava nelas quando um aluno levantou a mão no meio da sala.

— É o seguinte, fessô — disse ele coçando a cabeça. Eu sei que o senhor é escritor e fala essas coisas aí, mas eu não consigo entender essas paradas de ler o que não tá escrito. Como isso é possível?

— Ora, Raimundo, você ouviu o que eu falei sobre a árvore?

— Ouvi, fessô, mas isso tudo é poético demais… Falando assim até dá pra entender, mas sei lá…

— Certo. Vou te explicar de outra forma. Vamos fazer uma pequena viagem mental.

— Fazer o quê?

— Um faz de conta, vou contar uma história e você vai se vendo dentro dela.

— Pô, fessô, maneiro. A galera pode vir junto?

— Pode. Mas você precisa se concentrar, pode ser?

— Pode crer.

— Vamos lá. Imagina que você está indo para uma cachoeira com alguns amigos.

— Maneiro.

— Porém, durante o trajeto e ao chegar lá o sol foi se escondendo e dando lugar a um tempo nublado e até com alguns pingos de chuva, poucos, mas suficientes para turvar a água e impedir a sua bela visão cristalina.

— Pô, fessô, sacanagem…

— Concentra, Raimundo.

 — Vai nessa.

— Se algum de seus amigos falasse para você pular na água de cabeça, você pularia?

— Com a água turva? Tá doido, fessô, de jeito nenhum!

— Ora, e por quê?

— Por quê?! Cê tá doido mesmo! Com a água turva não dá pra ver o fundo e nem onde as pedras estão. É perigoso pacas!

— Pedras? Mas que pedras? Eu não falei em pedras! Além do mais, você nem as viu! Como sabe que tem pedras?

— Ô, fessô, se liga! Cachoeiras são lugares de pedras a contar pelas que existem nas margens. A gente pode até não tá vendo, mas isso porque a chuva que o senhor falou fez mexer as paradas lá embaixo da água e a lama subiu pra superfície. Mas que tem pedra, ah isso tem. E vai que tem uma exatamente onde eu pularia…

— Hummm… Sabe o que você fez, Raimundo?

— Me livrei de uma?

— Isso também. Mas você acabou de fazer uma leitura perfeita da natureza e das suposições.

— Hã?!

— Sim, Raimundo, percebe! Você leu a água, a lama, a chuva… E não havia palavras aí, ou seja, as pedras. Você enxergou o que não estava visível, exatamente como devemos fazer em uma leitura: ler nas entrelinhas, nos espaços vazios onde as palavras já não são necessárias… Entendeu?

Nem era mais preciso perguntar. A sua expressão disse tudo. Ele ficou satisfeito com a explicação. Eu mais ainda por ter, talvez, despertado mais um leitor crítico. Ao vê-lo com seu ar alegre e orgulhoso de si mesmo e em meio à algazarra da turma que o saudava, fiquei a pensar… É, a literatura é mesmo uma escada muito alta e para se chegar ao topo é preciso subir degraus.

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Pois é, essa é uma fala corriqueira minha. Quem me conhece sabe disso. Infelizmente, tem muita gente adepta ao salto à distância e quer alcançar, de um pulo só, o último degrau. Vemos isso muito nas escolas quando “obrigam” alunos a lerem autores e obras que ainda não estão preparados e, além de não prepará-los, ainda dão prova de livros, prática que eu nunca fui adepto, pois acredito mesmo que há muitas outras maneiras de se avaliar uma leitura… E você, o que acha disso? Obrigado mais uma vez por estar aqui. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!

NA CLÍNICA

Por Leandro Bertoldo Silva

Estava eu com minha esposa em uma clínica para acompanhar a minha sogra em um exame médico, quando uma atendente chamou uma paciente em espera. Logo eu soube ser Sosléia Leão de Almeida, graças à demora da senhora perceber a chamada e fazer a atendente repetir o nome antes escutado por mim como Sossega Leão de Almeida. Pronto! A troca fonética na minha cabeça foi o suficiente para começar a imaginar histórias. O que levaria um pai e uma mãe a batizar uma filha com o nome de Sossega Leão? Para as crianças de hoje em dia até seria uma boa pedida e faria jus ao termo usado no estado do Ceará como espaço gradeado no qual se colocam os pequenos e pequenas para que fiquem em segurança; no popular, cercadinho ou, ainda, chiqueirinho. Não há referência pior e embora muita gente seja contra essa terminologia, inclusive eu, o fato é que as crianças de hoje… Misericórdia! Seja como for, a senhora já passava dos 70 anos, provavelmente criada na rigidez da época. Por que então se chamaria assim? Não fazia o menor sentindo.

Nisso uma outra senhora saiu pelo corredor possessa, soltando fogo pelas ventas e, aos berros, dizia ser a médica a tomar naquele lugar sugerido. Que absurdo, meu Deus! Como alguém estudada poderia dizer aquela barbaridade? O mundo estava mesmo perdido. Assim bradava a mulher a chorar desesperadamente até vir a mesma atendente de antes com a receita da médica nas mãos ao tentar sem sucesso explicar a senhora que ali estava escrito: “Tomar Novalgina de 6 em 6 horas”. Não adiantou. O dito não encontrou outro significado e a senhora, que, aliás, se chamava Ava Gina da Silva e usava um aparelho de surdez, saiu aos prantos a defender sua pureza.

Passada a confusão e ânimos serenados, apesar dos risos de uns e protestos de outros, ambos camuflados, veio novamente a atendente para mais uma chamada.

— Amado Pinto de Oliveira… É esse mesmo o nome?! — já perguntou receosa.

— Por quê? Tem alguma coisa de errado com ele? — levantou um homem dirigindo-se à atendente.

— O senhor é o senhor Amado?

— Amado da minha mãe e Pinto do meu pai, que se chama Oliveira. Sou eu sim, senhora.

— Não há nada de errado, senhor Amado. Queira me acompanhar, sim?

— Não.

— Como não?

— A senhora acha que tem alguma coisa de errado com o meu nome.

— Eu não acho nada, senhor.

— Acha, sim. Por que então ao me chamar a senhora ficou arrastando o meu Pinto? A senhora disse assim: Amado Piiiinnnnto de Oliveira?! E ainda colocou uma interrogação velada no final! Pois saiba que na minha família todos temos Pinto, tanto os homens quanto as mulheres.

— Não há nada de errado com o seu Pinto, Senhor Amado. Posso lhe assegurar isso! — falou mais alto a atendente no exato momento em que entrava uma mãe com sua filha pré-adolescente já a jogar a bolsa para cima e correr a tampar os ouvidos da menina, porém tarde demais, pois se todos gargalhavam copiosamente, a menina certamente havia escutado. O senhor Amado ficou ofendidíssimo por ver todos rindo do seu Pinto, inclusive a filha da mãe, enquanto essa já arrastava a menina para fora, levantava os braços e gritava “valha-me Deus”!

A atendente quis cancelar todas as consultas e a confusão se instalou entre risos e xingamentos. A médica ao ouvir aquela balbúrdia saiu da sua sala e foi ela mesma tomar conta da situação. Enquanto ela tentava acalmar novamente os ânimos, a mãe e a filha pré-adolescente voltaram com um policial.

— É essa a pervertida, seu policial. E essa outra deve ser a chefe dela. Essas mulheres devem ser presas.

— Calma – disse a médica — tudo não passou de um mal entendido. Podemos explicar.

Depois de um tempo considerável tudo se aquietou. A médica resolveu continuar o atendimento e ela mesma fazer as chamadas. Porém, ao passar os olhos pelas fichas e verificar todos os nomes ali escritos chamou a atendente no canto e segredou:

— Vamos precisar de reforços… O policial que saiu daqui não deve estar longe. É melhor chamá-lo de volta ou então é bom preparar um sossega-leão bem forte.

— Sim, senhora.

Ô complicação é nome de gente!  A situação mal tranquilizou e eu fiquei ali a imaginar a Sosléia distribuindo bolsada para todo lado. Cabeça de escritor é coisa muito perigosa…

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* Obrigado mais uma vez por sua leitura. E não deixe de curtir, deixar seu comentário, compartilhar com um amigo ou amiga. Já disse, mas vale repetir: para mim é precioso.

Forte abraço!

CRÔNICA-TESTAMENTO

Por Leandro Bertoldo Silva

Existem algumas pessoas que têm verdadeira aversão quando o assunto é morte ou velório. Para muitas há qualquer coisa de mórbido ou mesmo um extremo mau gosto, embora não exista quem não tenha uma história engraçada para contar desses momentos sorumbáticos, o que causa uma das maiores controvérsias da vida ou falta dela. Não raras vezes aparece um bêbado vindo não se sabe de onde sem ninguém igualmente saber quem é — talvez amigo do finado que não pode mais prestar explicações — frente a palavras e casos desconexos proferidos aleatoriamente a causar risadas em uns e pulgas atrás da orelha de outros.

Há também os casos que viram lendas. Soube uma vez pela boca de todos os moradores de uma cidadezinha do interior de Minas que por anos não se falava em outra coisa a não ser da história de D. Etelvina, senhora de seus oitenta e poucos anos, morta, coitada, dentro do caixão e sendo velada em casa com os braços amarrados forçando-os a permanecerem na clássica posição cruzada no peito devido ter sido encontrada com eles para cima. O porquê de ter sido assim havia muitas versões e não menos controvérsias, mas foi fato necessário atar as duas mãos com barbante. Madrugada adentro entre um prato de sopa aqui outro ali, uma conversa lá outra cá, eis que D. Etelvina foi inchando devagarinho. Parece até ter escolhido o momento certo, pois quando as pessoas se reuniram para a oração final, já de manhazinha, o barbante não resistiu à pressão dos braços de velha senhora e veio a arrebentar. Os braços, antes amarrados, como uma mola voltaram à posição vertical de uma só vez e fez espalhar flores para tudo que era lado junto com gente, cachorro, homens, mulheres, novos, idosos, até o padre e o sacristão aos gritos de misericórdia, latidos e palavrões, ao disputarem, todos, a pequena janela da sala, pois na porta já não passava ninguém. Nessas horas até os mais corajosos se revelam e não há quem mantenha posturas.

Há ainda os fatos poéticos, como aconteceu com um tio meu ao se despedir em um dos almoços de família, como eram costume todos os domingos. Depois de cantar e tocar suas modas de viola como ninguém e finda a comilança com uma generosa quantidade de gordura de porco que ele sempre colocava em seu prato e a tradicional pinguinha, ele se sentou em sua poltrona demonstrando total tranquilidade, enrolou um cigarrinho de palha, pitou calmamente e aí recostou confortavelmente, colocou o seu inseparável chapéu italiano no rosto e disse a todos: “É, está na hora de subir o morro”. O que todos pensavam ser uma sesta era o seu desenlace, assim mesmo com discrição e sem sofrimento. Morreu como viveu: feliz e rodeado de pessoas, cantando, comendo, fumando e tomando cachaça. Foi-se o “Zé do Mato”, como era conhecido, para mim o poeta da alegria e uma grande inspiração.

Quero aproveitar o ensejo da leveza e usar a mesma pergunta de um narrador de futebol ao se referir aos títulos do meu time do coração, porém direcionando-me a esses momentos derradeiros difíceis para muitos: “por que é que tem que ser tão sofrido assim?” Pois é! Não tem. Pelo menos para mim. E já que ainda estou aqui para falar sobre isso, não deixarei que me roubem a mínima oportunidade de opinar sobre um evento cuja atração principal será eu. Nada mais justo. Até mesmo porque devo elucidar aos mais supersticiosos que é fato consumado passarmos todos por esse momento e, se assim é, a única pessoa a dar informações precisas de como pensa ser este instante sou eu mais uma vez. Portanto, desejo jogar luz a essa situação e criar um evento poético, por que não? Duvida?  Vai vendo.

A propósito, o leitor atento deve ter percebido o título dessa crônica e visto lá a palavra “testamento”. Segundo o dicionário etimológico da língua portuguesa, testamento é o ato pelo qual alguém, com observância da lei, dispõe de seu patrimônio para depois de sua morte. Pois bem, segundo a iminência a observância aqui não é a lei, mas a poesia. E a disposição trata-se da declaração das minhas últimas vontades. Sendo assim, atesto:

Eu, escritor dessa crônica, brasileiro, casado, inscrito em todas as leis do desejo de romantizar a vida e a morte que me cabem, estando em perfeito juízo e em pleno gozo de minhas faculdades intelectuais, sem nenhuma interdição, na presença de (03) três testemunhas a seguir qualificadas: a literatura, o amor e a gratidão, residentes e domiciliados nas Ruas dos que Escrevem, dos que nos Move e dos que me Permitiram Estar Neste Mundo, livre de qualquer instrumento ou coação, resolvo publicar a presente crônica-testamento na qual exaro minhas últimas vontades, pela forma e maneira seguinte: PRIMEIRO: Não quero choro, se possível, prefiro os sorrisos. Afinal, passei por essa vida e venci, embora esteja a passar e a vencer neste exato momento da escrita. SEGUNDO: Não quero flores. Por que matar e enterrar as pobrezinhas? Acredito que um ser, no caso eu nessa condição no momento, seja o bastante. Além do mais, perfume de flores com vela é muito característico de defunto, Deus me livre! Estar morto já é suficiente. No lugar delas prefiro bolinhas de papel. Estar coberto por elas me é muito mais agradável e mais condizente com a minha profissão. TERCEIRO: Quero papéis avulsos na entrada do recinto e também um pote de lápis para as pessoas escreverem, se desejarem, uma mensagem, um poema, a letra de uma música ou outra coisa sugerida pelo coração, fazer uma bolinha com o papel e colocá-la junto às outras. Maledicências não serão fiscalizadas, mas eu saberei e prometo transmutá-las do lado de lá. QUARTO: Quero um evento agradável. Para isso, peço que a partir de então a palavra “velório” seja modificada por “sarau” para que todos possam se divertir. A palavra “capela” se houver não precisa ser substituída na grafia, mas ressignificada, isto é, apenas caso alguém queira cantar sem o acompanhamento de instrumento, o que será maravilhoso. Caso tenha algum, que sejam violão e flauta transversal, meus preferidos. Violino é lindo, mas aumenta a tristeza e não há esse sentimento em saraus. QUINTO: Ainda sobre a música, fica valendo a popular brasileira. Chorinho não combina com o meu momento, muito menos sofrência. Essa nem morto quero ouvir. SEXTO: Como grand finale, em seu sentido literal, desejo ser conduzido ao último berço ao som de “Canon em Ré maior”, de Pachelbel. E no momento exato do plantio, para dar um ar mais poético e galante, que alguém leia em alto e bom som a poesia “Hora Eterna”, de Henriqueta Lisboa. Não lhes furtarei o prazer da procura, mas transcrevo aqui alguns versos:

[…] Vida que esplendes por que passas!

Quero viver, sentir num turbilhão

dentro do pensamento a certeza deste eu.

Sofra, embora – que importa? – O corpo

fatigado.

Quero vida, mais vida, alma, renovação,

força para reter tudo o que o céu me deu,

capacidade para amar o que foi  criado!

Vida que esplendes porque passas,

e que és amada porque findas! […]

Bem a propósito, não é mesmo?

E dito isso dou por encerrada a presente crônica-testamento na existência das (03) três testemunhas acima descritas, para as quais dedico a minha vida e que a confirmará em juízo no cartório do céu, de conformidade com a lei da arte e da natureza.

EM TEMPO: Não quero enfeites, nem placas, nem mármores frios; a terra me basta. E nela, bem perto de mim, que se plante um pé de ameixa. Dele nasci e nele eternizo. Não quero virar estrela, prefiro ser árvore. Bem viva.

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* Obrigado por sua leitura. Como viu, é possível lançar luz sob todas as coisas, por que não? Peço a gentileza de levar em consideração, embora daqui a bastante tempo… Curta, deixe seu comentário, compartilhe com um amigo ou amiga. Quem sabe este texto não despertará novos olhares?

Forte abraço!

(DE)SENCONTRO

Por Leandro Bertoldo Silva

Costuma-se dizer que ouvir conversa alheia é falta de educação. Concordo. Mas e quando a conversa vem até você? Vinícius de Moraes já dizia que “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. Vinícius era poeta ou profeta? Seguramente os dois. Não sei em quais circunstâncias os escritores, músicos, compositores criam suas obras… Humm, está certo! Não posso dar-me como o poeta de Pessoa a fingir dores ou mesmo dissabores! É porque durante certo período acreditava que esses magos da palavra entravam em estado de nirvana, banhavam-se em algum rio ou subiam alguma espécie de montanha imaginária, talvez até real, e acessavam o ápice da criação. Deuses da palavra ou escultores da controvérsia: eis a questão para, como Shakespeare, ficar entre o ser e o não ser. Todas essas possibilidades, porém, caíram por terra frente o acaso do meu copo de cerveja pousado ao lado do meu bloco de notas em um bar de quinta, onde tentava, até então em vão, escrever seja lá o que fosse a fim de tornar-me o novo best seller, como se isso representasse alguma coisa…

“Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para ser percebida. Nem assim conseguia.”

Foi o que ouvi dito por uma mulher, muito bonita por sinal, a um homem supostamente seu marido ao se aproximarem da mesa em que eu estava. Não digo isso pelas alianças em seus dedos, mas pela experiência mística — porque não há outra forma de definir aquilo — revelada bem ao alcance dos meus olhos e ouvidos. Eles ainda nem tinham se sentado à mesa ao lado quando, ao fazerem, presenciei um curtíssimo diálogo ou, pelo menos, uma tentativa iniciada por aquela pérola de declaração muito, muito verdadeira:

— Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para ser percebida. Nem assim conseguia.

— Como?!

— Certa vez, a rosa se enfeitara de flores para…

— O que? Só um minuto, por favor, o celular… […] Sim, agora pode falar.

— Certa vez, a rosa se enfeitara…

— Nossa, lembrei que tinha que ter postado aquela foto ontem! Desculpe, meu bem… Então…

— Certa vez, a rosa se…

— Preciso trocar esse telefone… Ah, desculpe. O que estava mesmo dizendo?

— Certa vez…

— Será que pedimos batata frita ou macarrão na chapa? Bem, parece que você estava dizendo alguma coisa…

— Certa… mente.

— O que?

— Nada. Quero ir embora.

— Você é sempre assim! Depois diz que não te dou atenção…

Saíram tão rápido quanto chegaram. Terminei meu copo de cerveja, guardei meu bloco de notas, paguei a conta e fui-me embora com essa — meu estado de nirvana — cantarolando o “Samba da benção” enquanto outros best sellers da vida  provavelmente estariam a serem escritos por aí, ou, quem sabe, cantados.

Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração…

A benção, Vinícius.

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Pois é… Se você já viveu algo parecido, se já foi arrebatado ou arrebatada assim “sem mais nem porquê” por alguma pérola que a vida nos proporciona, conte nos comentários. Lembre também de curtir e compartilhar essa crônica com os amigos. Fico muito agradecido.

“É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe…”

Forte abraço!